domingo, outubro 29, 2006

A bela, os roqueiros, as rappers e outros personagens


Hoje foi dia de rever Belle Toujours, uma obra-prima de Manoel de Oliveira. O curioso é que quando o filme finalmente fica próximo a Buñuel - menos de A Bela da Tarde, mais de um espírito sarcástico-surrealista - , o tempo de corte passa a ser totalmente Oliveira. A cena do jantar, com o silêncio sádico de Piccoli, e a tensão no rosto de Bulle Ogier (uma outra pessoa, afinal), tem a decupagem típica dos filmes do mestre português, mas uma série de procedimentos que rendem uma justa homenagem a Buñuel: a galinha que aparece no corredor, Piccoli presenteando os garçons com dinheiro alheio, o corredor como passagem para o desconhecido, a caixa que comporta um inseto, ou algo que faz o zunido de um inseto. Mas os enquadramentos são Oliveira puro, com sombras e incidências bem marcadas de luz. Além do mais, não há reenquadramentos, como é comum em Buñuel. Oliveira sacou que, para homenagear Buñuel, não era necessário emular sua câmera despojada, mas apenas tirar o máximo de sua própria caligrafia estética, sem fazer grande alarde dessa caligrafia. O melhor filme da Mostra até aqui, ainda que minha teimosia tivesse demorado dois dias para reconhecer.

Ontem vi Mundo Novo, filme bem irregular de Emanuele Crialese, em que os bons momentos se escondem em camadas de pretensão social por vezes irritante. Também vi a grata surpresa Hamaca Paraguaya, rigoroso filme de Paz Encina no qual o único pecado me pareceu ser... não ser rigoroso o suficiente nos últimos vinte minutos de filme, quando os diálogos se tornam desnecessariamente repetitivos. Rigor com repetição não é uma combinação tão fácil de dar certo. Decepcionante foi A Scanner Darkly, de Richard Linklater, filme que raramente se justifica em sua opção pela rotoscopia. Mas parece que estou sozinho dentro da redação da Paisà (pelo menos da que atualiza o blog), já que Guilherme, Filipe e Francisco gostaram bastante. Preferi o tratado sobre a incidência de luz que é Honra de Cavalaria, filme bem simpático de Albert Serra. Tem momentos em que o ritmo, ou a ausência de, causa certo tédio, mas o retrato metafórico de Don Quixote tem força, seja nos enquadramentos desconcertantes, que reforçam a presença da natureza, seja na escuridão parcial que se apodera de alguns planos.

Adorei Antonia, não só o único trabalho que me agrada plenamente de Tata Amaral, como um grande filme. Pouco tenho a acresentar ao que o Francisco disse posts abaixo, a não ser que Thaíde tem um dos melhores desempenhos masculinos do cinema brasileiro recente. Pena que um outro filme brasileiro, 1972, de José Emílio Rondeau, não tenha me provocado o mesmo entusiasmo. Bem longe disso. A música é bacana, a pesquisa iconográfica é primorosa, e sente-se a paixão do casal pelo ambiente roqueiro daqueles anos repressivos (além de Rondeau, Ana Maria Bahiana é a outra cara por traz do projeto). Mas a dramaturgia é paupérrima, jogando por terra o carinho que a câmera revela com os personagens.





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