sábado, setembro 29, 2007
Brasil, França, Coréia... e Colombo era português
Meu segundo dia de Festival começou bem, como o novo filme de Lina Chamie, A Via Láctea, no qual os maus momentos derivam da coragem de arriscar o tempo todo. Alguns momentos são primorosos, como o esconde-esconde na Livraria Francesa, Alice Braga fazendo um estudo da espécie animal de Marco Rica, Gnossiene de Erik Satie... Curiosidade: a inscrição "um filme de" aparece durante todos os créditos finais. Já vi isso antes, mas não lembro onde.
Em seguida vi o correto A Etnografia da Amizade, um documentário certinho (o que, no caso, é seu maior problema - como fazer um documentário até certo ponto quadrado sobre um diretor porralouca?) de Ricardo Miranda sobre Paulo Cesar Saraceni cheio de imagens históricas e uma boa pesquisa de arquivos. Encerrando meu segundo dia, O Nome Dela é Sabine, filme de Sandrine Bonnaire cheio de momentos fortes, mas que resvalam numa super exposição da irmã autista que eu desconfio que esteja além do necessário. Que há um filme ali, eu sei que há: que ele devia ser feito, creio que sim; mas penso que uma pessoa, por melhor que seja a vontade de ajudá-la, não deveria estar sujeita a essa exposição. Mas isso é muito pessoal, claro.
Ontem vi O Antigo Jardim, de Im Sang-soo, que como disse o Junior da Contracampo, é o filme mais mainstream dele. Junior respondia às minhas acusações de que Im estava bandeando para o lado do Kim Ki-duk. Mas sinceramente, não sei se o cinema mainstream coreano é melhor que o do cineasta mais famoso de lá. Ambos tendem a um sentimentalismo barato, e a imagens de comercial de seguro de vida, ou leite longa vida, sei lá, pelo menos pelo que vi em filmes passados na Mostra, dos quais só lembro o nome de um, justamente o melhorzinho (Empurra, Empurra), ou por Jiworae, o constrangedor filme romântico cujo maior feito é ter dado origem à recente e incompreendida obra-prima de Alejandro Agresti, A Casa do Lago. Im Sang-soo, ao contrário de Kim Ki-duk, é muito talentoso na hora de elaborar um plano, mas seu filme cai muito na segunda metade.
Hoje veio a compensação com Mulher na Praia, de outro coreano talentoso, Hong Sang-soo, visto no Barra Point, logo depois do almoço. Um filme bizarro, meio rohmeriano (sim, é inevitável dizer), mas com um humor muito particular e um andamento bem mais cadenciado que o de Rohmer. Concordo com o Guilherme que o uso do zoom é fantástico, em especial numa cena de jantar em que, só depois de um minuto, graças a um zoom out e a um reenquadramento muito bem feito, é revelado que o namorado estava presente. Mas discordo de que faria sucesso no circuitinho. O público pareceu bem aborrecido na segunda metade do filme, inclusive com algumas desistências.
E o melhor visto por aqui até agora é o novo filme de Manoel de Oliveira, Cristóvão Colombo - O Enigma. Não é uma obra-prima como seus três filmes anteriores, mas é um filme estranho, com alguns momentos desconexos, e uma Nova York enevoada e um Alentejo ensolarado e verde. Manoel, como ator, se diverte, assim como sua mulher, um pouco sem graça diante dos comandos do marido, mas uma graça de se ver, errando no tempo, ou simplesmente sorrindo fora de hora.
Em seguida vi o correto A Etnografia da Amizade, um documentário certinho (o que, no caso, é seu maior problema - como fazer um documentário até certo ponto quadrado sobre um diretor porralouca?) de Ricardo Miranda sobre Paulo Cesar Saraceni cheio de imagens históricas e uma boa pesquisa de arquivos. Encerrando meu segundo dia, O Nome Dela é Sabine, filme de Sandrine Bonnaire cheio de momentos fortes, mas que resvalam numa super exposição da irmã autista que eu desconfio que esteja além do necessário. Que há um filme ali, eu sei que há: que ele devia ser feito, creio que sim; mas penso que uma pessoa, por melhor que seja a vontade de ajudá-la, não deveria estar sujeita a essa exposição. Mas isso é muito pessoal, claro.
Ontem vi O Antigo Jardim, de Im Sang-soo, que como disse o Junior da Contracampo, é o filme mais mainstream dele. Junior respondia às minhas acusações de que Im estava bandeando para o lado do Kim Ki-duk. Mas sinceramente, não sei se o cinema mainstream coreano é melhor que o do cineasta mais famoso de lá. Ambos tendem a um sentimentalismo barato, e a imagens de comercial de seguro de vida, ou leite longa vida, sei lá, pelo menos pelo que vi em filmes passados na Mostra, dos quais só lembro o nome de um, justamente o melhorzinho (Empurra, Empurra), ou por Jiworae, o constrangedor filme romântico cujo maior feito é ter dado origem à recente e incompreendida obra-prima de Alejandro Agresti, A Casa do Lago. Im Sang-soo, ao contrário de Kim Ki-duk, é muito talentoso na hora de elaborar um plano, mas seu filme cai muito na segunda metade.
Hoje veio a compensação com Mulher na Praia, de outro coreano talentoso, Hong Sang-soo, visto no Barra Point, logo depois do almoço. Um filme bizarro, meio rohmeriano (sim, é inevitável dizer), mas com um humor muito particular e um andamento bem mais cadenciado que o de Rohmer. Concordo com o Guilherme que o uso do zoom é fantástico, em especial numa cena de jantar em que, só depois de um minuto, graças a um zoom out e a um reenquadramento muito bem feito, é revelado que o namorado estava presente. Mas discordo de que faria sucesso no circuitinho. O público pareceu bem aborrecido na segunda metade do filme, inclusive com algumas desistências.
E o melhor visto por aqui até agora é o novo filme de Manoel de Oliveira, Cristóvão Colombo - O Enigma. Não é uma obra-prima como seus três filmes anteriores, mas é um filme estranho, com alguns momentos desconexos, e uma Nova York enevoada e um Alentejo ensolarado e verde. Manoel, como ator, se diverte, assim como sua mulher, um pouco sem graça diante dos comandos do marido, mas uma graça de se ver, errando no tempo, ou simplesmente sorrindo fora de hora.
sexta-feira, setembro 28, 2007
A Felicidade dos Sakai
A Felicidade dos Sakai é um filme estruturalmente todo errado. Há uma certa esquizofrenia na forma de conduzir a dramaturgia e ele não consegue trabalhar bem com isso. O registro dos acontecimentos muda de tom subitamente, por vezes em cortes muito mal realizados, tornando a imersão no filme quase impossível.
Mas dentro dessa desestrutura existem bons momentos. Coisas pontuais como o plano onde o garoto chupa o sorvete da colega de escola ou quando a professora tira um sarro do aluno que escreveu uma palavra errada. São momentos que nos remetem a ações (pela atitude em si e pela forma como se dá toda a movimentação) típicas de desenhos animados e quadrinhos japoneses; o problema é que são apenas coisas pontuais e o filme não investe reaalmente nelas como projeto.
Já perto do fim, a mudança de tom é drástica e horrível. De repente tudo vira um grande drama familiar insuportável. Começam a surgir questões como a aceitação do padrasto como pai pelo garoto ou o afastar-se das pessoas que te amam para elas não sofrerem com o seu sorimento; mas tudo bastante de qualquer jeito, sem estabelecer laços com esses sentimentos, apenas calcando-se em estratégias facéis para atingir o melodrama.
Nos últimos minutos o filme volta ao garoto e suas questões adolescentes. E o plano final, apesar de parecer não fazer nenhum sentido de nehuma forma, guarda algum interesse.
Mas dentro dessa desestrutura existem bons momentos. Coisas pontuais como o plano onde o garoto chupa o sorvete da colega de escola ou quando a professora tira um sarro do aluno que escreveu uma palavra errada. São momentos que nos remetem a ações (pela atitude em si e pela forma como se dá toda a movimentação) típicas de desenhos animados e quadrinhos japoneses; o problema é que são apenas coisas pontuais e o filme não investe reaalmente nelas como projeto.
Já perto do fim, a mudança de tom é drástica e horrível. De repente tudo vira um grande drama familiar insuportável. Começam a surgir questões como a aceitação do padrasto como pai pelo garoto ou o afastar-se das pessoas que te amam para elas não sofrerem com o seu sorimento; mas tudo bastante de qualquer jeito, sem estabelecer laços com esses sentimentos, apenas calcando-se em estratégias facéis para atingir o melodrama.
Nos últimos minutos o filme volta ao garoto e suas questões adolescentes. E o plano final, apesar de parecer não fazer nenhum sentido de nehuma forma, guarda algum interesse.
quinta-feira, setembro 27, 2007
Mulher na Praia
Hong Sang-soo chegou aos Festivais brasileiros, enfim. É um desabafo aguardado por todos que sempre ansiaram pelos filmes do coreano, e que ao verem Mulher na Praia, mais do que nunca desejam que isso se torne uma regra. Mulher na Praia é definitivamente um dos melhores filmes dos últimos anos.
A comparação com Rohmer é fácil, mas evidente. Mas o ritmo e os caminhos de Hong são diferentes. Ele faz da imagem e dos cortes do filme algo incrivelmente natural, fluído, com os planos incrivelmente pensados. O trabalho com o zoom é digno de um mestre, moldando dramáticamente as seqüencias. Mulher na Praia é um filme muito bonito, divertido, e acredito mesmo que teria grande chance de fazer sucesso de aportasse no nosso circuitinho.
A comparação com Rohmer é fácil, mas evidente. Mas o ritmo e os caminhos de Hong são diferentes. Ele faz da imagem e dos cortes do filme algo incrivelmente natural, fluído, com os planos incrivelmente pensados. O trabalho com o zoom é digno de um mestre, moldando dramáticamente as seqüencias. Mulher na Praia é um filme muito bonito, divertido, e acredito mesmo que teria grande chance de fazer sucesso de aportasse no nosso circuitinho.
Uma Velha Amante
Sobre a superfície de um típico filme de época, Catherine Breillat urde mais um ensaio sobre o poder da carne. No caso do corpo de Asia Argento, a última atriz que se escalaria no centro de um filme de época e cuja mera presença animalesca e profundamente contemporânea causa um curto-circuito na lógica do gênero, lógica esta que Breillat espertamente iguala a das regras da sociedade francesa do século XIX. Pois esta história de amor doentio é também uma ode a presença física de Argento, assim como um ensaio sobre relação de amor e ódio que a psique do homem freqüentemente desenvolve com a sexualidade feminina. Cineasta e atriz trabalham em perfeita sintonia resultando num dos filmes mais arejados e sofisticados do festival. Breill segue uma grande provocadora, aqui produzindo um dos seus espetáculos mais físicos, diretos e desestabilizadores de onde menos se espera.
Floresta dos Lamentos
Floresta dos Lamentos é um filme assustador. A força que atingem suas imagens e a carga emocional que o filme carrega são de desestabilizar qualquer um. Kawase faz uma obra de uma entrega admirável; câmera e atores entram em comunhão total e o que acontece na tela parece nos absorver por completo, causando impacto imediato e inevitável. Ao final, a vontade é permanecer na sala o maior tempo possível para habitar, nem que por apenas mais alguns minutos, o espaço onde esse filme, por uma hora e meia, aconteceu.
(Francisco Guarnieri)
(Francisco Guarnieri)
quarta-feira, setembro 26, 2007
Old Joy começado
Graças à infeliz idéia de impedir que jornalistas retirem ingressos no mesmo dia do filme, tive que iniciar o festival com a desagradável prática da carteirada (não é ilegal, muito menos antiético, mas é chato - temos que esperar todos entrarem e, se sobrar lugar, entramos). A gerente do Espaço Unibanco 3, mesmo tendo entrado apenas umas 50 pessoas na sala (que cabe mais de 100), esperou o filme começar para liberar a pequena fila de jornalistas que se formou do lado de fora. Perdemos cerca de 1 minuto de Old Joy, ou seja, alguns planos, incluindo o de abertura - a maneira como Kelly Reichardt apresenta o filme. Por que não podemos tirar ingressos para filme que passa no mesmo dia? Por que não deixar que entremos antes do apagar das luzes? Comecei com o pé esquerdo, mas creio que tudo melhora a partir de sexta-feira. Por que sexta-feira? Pura intuição.
I'm Not There
Diante de um filme como I’m Not There não tenho como deixar de respirar aliviado pela Paisà não pedir, em nossa cobertura, por críticas longas, porque o afresco construído por Todd Haynes não é um filme para o qual se possa fazer justiça na correria de um festival de cinema. É um filme que pede que retornemos a ele múltiplas vezes, que se admita que no momento estejamos bem distante de compreende-lo. Mas o que podemos extrair de I’m Not There num primeiro encontro? Que não é um filme sobre Bob Dylan, mas através de Dylan; que estejamos diante talvez do mais sofisticado filme sobre as possibilidades da idéia de um cinema político recente; e sobretudo que é um filme com uma carga de invenção, de momentos assombrosos como poucas vezes temos chances de encontrar.
Medo da Verdade
Na saída da sessão, o Guilherme me disse que gostaria de ter gostado do filme. Esta frase diz muito sobre esta estréia na direção de Ben Affleck; trata-se de um filme com boas intenções, idéias melhores ainda e com base num texto policial bem forte, mas infelizmente postas a perder pela falta de jeito do cineasta estreante. Trata-se de um dos filmes mais mal decupados recentes, e se Affleck se sai relativamente bem em cenas mais simples onde suas limitações para construir planos consegue ser contrabalanceada pelo bom trabalho dos atores ou a boa ambiência (a cena final, por exemplo, é ótima), nos momentos onde o filme pede por uma seqüência mais elaborada, ou mesmo construir um clima que dependa de onde a câmera vai ou da montagem, as limitações do filme se tornam impossíveis de serem ignoraradas.
segunda-feira, setembro 24, 2007
Entrevista
Entrevista começa aparentando ser um filme bastante interessante. Da situação que os dois personagens estão vivenciando, nascem ótimos momentos; uma série de situações onde Steve Buscemi (em mais um trabalho por trás das câmeras) consegue um bom ritmo para a narrativa, não deixando o interesse pelos personagens cair durante boa parte do filme. O problema vem nos minutos finais. Em certo momento, o filme parece tranformar os personagens em meros joguetes, impondo a eles situações extremas, catárticas. Aí a coisa já descamba um pouco e o interesse se esvai na monotonia caótica que o filme atinge. E no final em si, a coisa piora: os dois eram verdadeiros babacas; não havia ali, realmente, um momento de catarse, e sim uma busca apenas por ser mais esperto que o outro. Sinceramente, não consigo entender a visão de Buscemi a respeito do ser humano.
Uma Moça Dividida em Dois
Chabrol é possivelmente o grande cineasta do espaço cênico. Seus personagens entram e saem de cena de forma marcada, precisa, consciente, e nada disso faz seus filmes menos fluentes. Chabrol acredita na mentira. Daí que seus personagens sejam tão marcados, exagerados, patéticos, extraordinários. Se alguém no mundo hoje faz cinema, esse alguém é Chabrol.
Hallam Foe
Com poucos longas no currículo já fica claro que o projeto estético de David Mackenzie é o de se tornar um Alan Parker do circuitinho. Hallam Foe é um filme que se interessa exclusivamente em produzir o tipo de imagem que fica bonita quando reproduzida em jornais e revistas. Mackenzie é inegavelmente bom nisso, mas qual é razão de existir de um filme tão desinteressado em imagens em movimento como este? Porque o conceito de plano de Mackenzie só causa o impacto que deseja de uma maneira pictorial muito inócua e passageira. Hallam Foe só escapa da fragilidade em alguns poucos momentos graças aos esforços de Jamie Bell, mas ele pouco pode fazer com o material que tem em mãos e com o cineasta tão desinteressado em anima-lo de alguma maneira, mas os stills com certeza devem ter ficado bonitos.
domingo, setembro 23, 2007
A Casa de Alice
Chico Teixeira comete aqui um filme bastante arriscado, onde ele opõe um tipo de dramaturgia que poderia facilmente descambar para algo como Contra Todos, com a sensibilidade com que aborda o material. A Casa de Alice tem muitos pontos fortes, a começar com a relação íntima e acolhedora com que se relaciona com seus atores, e Teixeira conduz tudo com considerável segurança (exceção feita a figura do pai que parece mais uma falha de imaginação) até seu final inevitável. Se o filme tem um limite é justamente um certo determinismo na sua lógica e a maneira como Teixeira se sente por vezes confortável demais dentro do nicho estético que reclama (podemos chamá-lo do cinema pós-Dardennes), mesmo que com inegável competência. Mas é na relação que Teixeira estabelece com aquela casa e com os corpos que por ali passam que A Casa de Alice encontra sua razão de ser. No cinema brasileiro estamos sempre assombrados pela síndrome do grande filme, isto A Casa de Alice pode até não ser, mas é um belo exemplar de um cinema intimista brasileiro, do qual volta e meia se cobra, basta olhar suas imagens mais do que o que se transcorre nelas.