quinta-feira, abril 17, 2008

BAFICI, dias 7 e 8: Cinema Filipino


O cinema filipino que historicamente viveu do trabalho ocasional de alguns peucos cineastas (Lino Brocka, Mario O’Hara, etc) vem passando por uma renascimrnto graças as possibilidades do cinema digital e uma jovem geração de cineastas com disposição para filmar barato de forma radical e sem concessões. O resultado já começa a chamar a atençaõ de alguns programadores e criticos mundo afora, a seleção de filmes filipinos presente aqui no BAFICI sendo só um exemplo disso. Primeiro, vale destacar a figura de Raya Martin. O jovem cineasta tem só 24 anos, mas está aqui no festival exibindo seu quarto e quinto longa-metragem (Box Office Next Atraction e Possible Lovers) e colhendo muitos elogios. A critica internacional sempre pronta para fazer uma comparação fácil vem chamando-o de Apichatpong Wheresetakhul filipino, o que não é muito útil, a despeito de ambos dividirem um gosto por narrativas bipartidas e o cinema de Andy Warhol.

Possible Lovers é um filme muito simples: um jovem gay está sentado num sofa em companhia do rapaz em que esta interessado e por cerca de 90 minutos tenta tomar coragem para agir. É um filme tão minimo que é garantir de enlouquecer a maior parte do público (o bastante tolerante público do festival abandonou a sessão em massa), mas é muito mais também: como romance warholiano é de uma capacidade de observação rara, cada movimento de respiração do rapaz importa e sempre que ele ameaça mover a mão podemos sentir a sala de cinema inteira anciosa. É também um thriller muito tenso, onde a espera pela ação nos segura com os olhos grudados na tela.

Box Office Next Attraction é um filme mais amplo com cerca de três horas de duração, multiplas locações e atores e até alguns movimentos de camera. Uma das coisas que mais impressionavam em Possible Lovers era uso de fora de campo atráves dos sons externos que se tornavam os condutores principais da narrativa, já este Box Office Next Attraction é um filme numa relação constante justamente com o que esta fora da tela. Quando o filme inicia somos justamente lançados no contracampo de uma filmagem, ou seja no lugar de assistirmos o filme, vemos Martin e sua equipe rodando algo que nunca sabemos o que é. A equipe vai atravessa multiplas locações, posicionamento de cameras, certas tomadas são rapidas outras longuissimas, mas ao longo de todo este tempo temos apenas uma camera fixa voltada para a camera que esta sendo usada e o movimento da equipe entorno dela. O filme segue de forma tão concentrada que quando algo aparentemente diferente acontece – um travalling, num primeiro momento desprovido de motivação, de um carro em movimento – ele nos chega como um completo choque. Quando o cineasta finalmente nos apresenta o filme que estava sendo filmado – uma narrativa bem simples sobre a noite de um jovem filmada em completo constraste com tudo que viamos até ali num preto & branco estilizado e silencioso – algo surpreendente acontece nosso conhecimento do que esta transcorrendo do lado oposto da imagem reveste a narrativa de um valor intimo ainda maior do que ela teria por si mesma. Martin é um cineasta para se observar com atenção.

O filme filipino mais ambicioso do festival, porém, é mesmo Death in the Land of Encantos de Lav Diaz. Trata-se de um grande filme (literalmente já que tem 9 horas de duração), onde Diaz parte de uma situação veridica, o tufão Durian que devastou a região onde a ação se passa matando milhares de pessoas, para urdir uma ficção alegorica sobre o retorno de um poeta a sua região natal. É espantoso o uso que o cineasta faz da duração, apesar de seus 540 minutos, o filme nos cansa, mas aos poucos nos envolve nos coloca dentro do seu ritmo peculiar: há longas sequencias de discussão entre o poeta e seus dois amigos artistas que vivem na região, seguidas de outras igualmente longas onde nada acontece. O filme é cheio de flashbacks, momentos potencialmente de fantasia, trocas que duas ou três horas finalmente fazem sentido quando descobrimos novas informação. Duração e variação se tornam formas de modular um mundo todo própria. A região devastada em si é impressionante como cenário e genuína co-protagonista, quase desprovida de vegetação ou construções que ainda estejam de pé. O espaço que vai pouco a pouco se transformando numa paisagem mental para o poeta cuja narrativa o leva mais e mais rumo a questão o que é ser filipino e o peso que ela carrega. Filme formidavel, ao qual espero voltar com mais atenção depois do festival.

Mais simples e convencional, mas mesmo assim muito talentoso, é Tirador de Brilhante Mendoza. Um filme social todo passado numa favela, mas que entrecorta as amardilhas do gênero através de uma completa secura de olhar e de uma comprensão de cinema como um grande espetaculo físico. A sequencia inicial da batida policial por si só vale o esforço de procurar o filme. Outro exemplar da vitalidade deste cinema, que esperamos seja também descoberto pelos programadores dos nossos festivais.

terça-feira, abril 15, 2008

BAFICI, dias 5 e 6: Retratos


Para entender porque Lisandro Alonso é um grande cineasta, talvez vale a pena comparar seu novo filme Liverpool, que teve sua primeira exibição nesta noite no festival, com Charly de Isild Le Besco que também assiste hoje. Ambos são narrativas opacas sobre personagens sobre o qual pouco sabemos que se lançam numa jornada, ambos são filmes com momentos fortes onde o filme se restrige a observar seus personagens; mas Liverpool é um belissimo e Charly não se sustenta. Isto tem muita relação com a maneita como mistério entorno desses personagens funciona: para Alonso, o personagem simplesmente é aquilo que ele apresenta diante da camera, para Le Besco ele é esta opacidade que ela resolveu destacar. Trata-se de um boa formula para extrair algumas cenas fortes – Paul Thomas Anderson não cansa de abusar dela -, mas não sustenta um filme; já em Liverpool não temos cenas, mas cinema.

Alonso é um dos nossos grandes retratistas, sua arte consiste escolher um personagem e um universo e observa-lo. Poucos fazem isso tão bem. A primeira vista, uma discrição sugere um filme similar a Los Muertos, o que há de narrativa envolve um marinheiro que após anos no mar, faz uma viagem até a Patagonia para rever sua familia; só que o marinheiro esta muito distante do ex-presidiario do filme anterior e a patagonia não tem nada a ver com a região que aquele se passava e são estes dois elementos – personagem e lugar – que movem este cinema. Alonso é provavelmente o menos acessivel dos jovens cineastas argentinos de talento, na medida que sua arte depende muito da nossa curiosidade, da nossa disposição de dar um salto com ele junto da aventura – e não é exagero dizer que Alonso faz filmes de aventuira, no mais expressivo sentido do termo – de acompanhar este personagem que está ali sendo retratado junto a camera. Quando a camera de Liverpool para junto a seu marinheiro e o acompanha com toda atenção enquanto ele enche a cara, assiste um show de strip, pega carona na caçamba de um caminho ou se senta na cabeceira da cama da mãe doente, temos esta experiencia rara de ver um ser humano se materializando ali diante de nós, captado por um cineasta com a generosidade para dar vazão expressiva para toda a potencia daquela figura diante de nossos olhos. É um trabalho mais seguro e expansivo que os filmes anteriores dele, mas o olhar alerta e aputado segue o mesmo.

Acompanhando a retrospectiva de Nicolas Klotz esta sendo exibido o muito interessante Les Amants Cinema, dirigido por sua filha Helena Klotz. O filme segue Klotz e sua esposa e roteirista Elizabeth Perceval durante a produção de A Questão Humana, mas não se trata de um mero making of de DVD. Já começando com a sua sequencia inicial em que vemos o casal por minutos escutando uma longa canção num vinil percebemos que Helena Klotz tem um olhar bem especifico para obra do pai e que sabe articular um discurso a partir dela de maneira discreta a partir da simples observação, há muito insight contido no que a rigor consiste simplesmente de um homem ouvindo um de seus discos. O filme como um todo prosegue neste tom e o que há de melhor nele é justamente acompanharmos o processo criativo de Klotz com muito pouco do filtro habitual de filmes do gênero. Há também varias sequencias de longas discussões do casal (geralmente Elizabeth reclamando de algo e o cineasta partindo em defesa de sua decisão). Estamos longe de um Onde Jaz seu Sorriso? – a obra-prima de Pedro Costa sobre casal Straub/Huillet editando Gente da Sicilia – mas como retrato de um casal de artistas desenvolvendo o seu trabalho é um filme dos mais envolventes.

Falando em Costa, ele participa de Memories, filme produzido por um festival de cinema da Coreia do Sul, que também conta com episódios dirigidos por Harun Farocki e Eugene Green. Trata-se do único filme em episódios que me lembro de ter visto em que todos os curtas são pelo menos excelentes. A contribuição de Costa A Caça do Coelho esta bastante proximo d Terrafal, sua cointribuição para O Estado do Mundo, inclusive repartindo com aquele filme algumas cenas~, mas é um filme mais focado e rico que aquele curta (talvez consequencia de Costa ter mais tempo para desenvolver suas idéias). È uma expansão do lado fantasmagórico de Juventude em Marcha e mais um lembrete de que assim como Alonso, Pedro Costa é um grande cineasta de retrato. Respite, a contribuição de Farocki que abre o filme parte de material filmado por um cinegrafista judeu num campo de prisioneiros na Holanda durante a II Guerra a pedido do comandante alemão que queria produzir um institucional sobre a eficiencia do lugar. Farocki constroi o seu filme a partir da nossa consciencia do sentido histórico deste material e a distancia entre ele o que esta na tela e a maneira como via cartelas de contexto/comentário e montagem, ele extrai delas algo bem mais pesado do que a intenção original. Mas o grande filme de Memories é mesmo Correspondences de Eugene Green, uma espécie de Marienbad encontra literatura francesa do século XIX que encontra a Web. Green sempre será para muitos pouco mais que um cineasta excentrico, mas para quem tiver disposição de aceitar sua proposta raramente encontramos tão bela exposição de obsessão romântica. Num desses exemplos de como o BAFICI é um festival bem programado Memories foi exibido junto ao último curta do casal Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, Europa. 2005 – 27 octobre. São 5 planos identicos, mas rodados em horas distintas do dia, com a camera se movendo no local onde dois jovens pobre morreram eletrocutados fugindo da polícia. Como panfleto político é de uma precisão assustadora, é também tanto uma mudança radical de rumo (até por ser rodado em vídeo) e uma destilação das preocupações estéticas do casal. Uma bela despedida.

domingo, abril 13, 2008

BAFICI, dia 4: Experimentos


Uma das muitas vantagens de um festival como o BAFICI é que as apostas da curadoria terminam colocando certos experimentos num contexto mais amplo. Temos a oportunidade diária de encontrar com determinados filmes que mergulham com tudo dentro de suas propostas radicais. Neste sentido, é sempre bom poder retomar contato com o cinema de Shinji Ayoama, cuja exibição nos festivais brasileiros sempre foi bastante irregular. Seu novo filme Sad Vacation é dos seus melhores trabalhos.

O título se refere à canção que Johnny Thunders escreveu para o falecido Sid Vicious e o filme como todo tem uma construção bem musical, enfileirando situações com completa liberdade. No cinema de Ayoama não há contradição que não possa ser ultrapassada. Sad Vacation é um filme sobre responsabilidade e família que nunca chega a estes temas da forma esperada. Tramas importantes são abandonadas de forma seca, generosidade encontra uma profunda crueldade, um espirito quase à Capra convive lado a lado com uma violência latente. A sequência seguinte permanece sempre inesperada. É um trabalho sentido, personalissímo, mesmo que seu significado se mantenha com freqüência obscuro para nós. Enquanto o filme se move rapidamente rumo à desgraça, Ayoama atinge um tom surpreendentemente solar e se agarra a ele. Como a canção de Thunders que lhe dá nome, é de uma elegíaca alegria.

O BAFICI também inclui na sua programação este ano uma retrospectiva de Ken Jacobs, um dos principais nomes do cinema de avant garde americano, e ontem foi dia de conferir Tom, Tom, the Piper’s Son (69), uma de suas obras mais famosas. Jacobs parte de um filme do mesmo nome realizado em 1905 que assistimos na integra no começo e depois procede em desconstrui-lo. Durante mais de 90 minutos vemos cada frame do filme original sendo observado pelo cineasta por cada angulo; Jacobs avança, atrasa, da zooms, freeze frames, o filme se decompõe diante de nosso olhar. O mais elementar proto-cinema vira nas mãos de Jacobs um exercicio sensorial radical. Tom, Tom nos põe em contato com o lado mais material do cinema, nos obriga a reajustar nosso olhar e celebra o experimental inerente a qualquer filme.

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