sexta-feira, outubro 05, 2007

... e mais cotações


Como sempre, em ordem de preferência.

(Mas não se esqueçam das que estão nos posts anteriores)

* * * * *

A Floresta dos Lamentos (Naomi Kawase)
I'm Not There (Todd Haynes)
Sempre Bela (Manoel de Oliveira)
Go Go Tales (Abel Ferrara)
Primavera Numa Cidadezinha (Fei Mu)
Eu Não Quero Dormir Sozinho (Tsai Ming-liang)
Andarilho (Cao Guimarães)

* * * *

Síndromes e um Século (Apichatpong Weerasehtakul)
Mulher na Praia (Hong Sang-soo)
Cristóvão Colombo - O Enigma (Manoel de Oliveira)
Não Toque no Machado (Jacques Rivette)
Lust, Caution (Ang Lee)

* * *

Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto (Sidney Lumet)
Jogo de Cena (Eduardo Coutinho)
O Engenho de Zé Lins (Vladimir Carvalho)
Dr. Plonk (Rolf De Heer)
A Via Láctea (Lina Chamie)
Delirious (Tom DiCillo)
Antiga Alegria (Kelly Reichardt)
J.C.Chavez (Diego Luna)
Déficit (Gael Garcia Bernal)
Desejo e Reparação (Joe Wright)

* *

A Etnografia da Amizade (Ricardo Miranda)
Uma Velha Amante (Catherine Breillat)
Meu Nome é Sabine (Sandrine Bonnaire)
Jia Zhang-ke Vai Pra Casa (Damien Oumouni)
Amor Fantasma (Nina Menkes)
O Sol (Alexander Sokurov)
Shortbus (John Cameron Mitchell)
Cem Pregos (Ermanno Olmi)
Piaf - Um Hino ao Amor (Olivier Dahan)
O Antigo Jardim (Im Sang-soo)

*

Caixas (Jane Birkin)
Deserto Feliz (Paulo Caldas)
Humilhação (Masahiro Kobayashi)
Vá Logo e Volte Tarde (Régis Wargnier)
Hana (Hirozaku Kore-eda)
Valente (Neil Jordan)

Desistência:

Invisíveis (vários diretores), aos 20 minutos do segundo tempo, para lanchar, e depois dos episódios de Coixet, Wenders e Aranoa

cotações


* * * * *
Sindromes e um Século
Mulher na Praia
Paranoid Park
Sempre Bela
I'm Not There

* * * *
Uma Moça Dividida em Dois
Cristovão Colombo
Papel Não Embrulha Brasa
Eu Não Quero Dormir Sozinho
O Expresso Darjeeling

* * *
De Volta a Normandia
O Nome Dela é Sabine
Tropa de Elite
Nascido e Criado
Shortbus
As Testemunhas
O Estado do Mundo

* *
Planeta Terror
O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford
For Your Consideration
Entrevista
Medo da Verdade

*
Uma Velha Amante
Andarilho
Sombras Elétricas

MICO
Elvis Pelvis

Meu Festival em revista


*****
Lady Chatterley (Pascale Ferran)
Go Go Tales (Abel Ferrara)
Sempre Bela (Manoel de Oliveira)
I'm Not There (Todd Haynes)
Sindromes e um Século (Apichatpong Whersetakuhl)
Não Toque no Machado (Jacques Rivette)
Mulher na Praia (Hong Sang-soo)
Em Paris (Cristophe Honore)

****
Uma Moça Dividida em Dois (Claude Chabrol)
Uma Velha Amante (Catherine Breillat)
Paranoid Park (Gus Van Sant)
Antiga Alegria (Kelly Reichardt)
Antes que o Diabo Saiba que Você esta Morto (Sidney Lumet)
O Sol (Alexandr Sokurov)
O Expresso Darjeeling (Wes Anderson)
Cristovão Colombo - O Enigma (Manoel de Oliveira)
Os Cem Pregos (Ermanno Olmi)
Jogo de Cena (Eduardi Coutinho)
Antes que Eu Esqueça (Jacques Nolot)
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Cristian Mungiu)
Planeta Terror (Robert Rodriguez)
A Floresta dos Lamentos (Naomi Kawase)

***
Onde Andará Dulce Veiga? (Guilherme de Almeida Prado)
Nascido e Criado (Pablo Trapero)
A Casa de Alice (Chico Teixeira)
Married Life (Ira Sachs)
As Testemunhas (André Techiné)
O Nome Dela é Sabine (Sandrine Bonnaire)
For Your Consideration (Christopher Guest)
Andarilho (Cao Guimarães)

**
O Estado do Mundo (Vários)
Desejo e Reparação (Joe Wright)
Valente (Neil Jordan)
A Via Lactea (Lina Chamie)
Meu Nome é Dindi (Bruno Safadi)
Medo da Verdade (Ben Affleck)

*
Hallam Foe (David Mackenzie)
Humilhação (Masahiro Kobayashi)
Controle, a História de Ian Curtis (Anton Corbijn)
A Cada um Seu Cinema (Vários)

MICO
Smiley Face (Greg Araki)

quinta-feira, outubro 04, 2007

Fechando com chave de diamante


O dia está indo muito bem até aqui. O melhor do Festival, sem dúvida.

Comecei com o novo do Ang Lee, Lust, Caution, que é cinemão histórico sem a carga pejorativa que a expressão pode significar. O filme cresce muito a partir do envolvimento sexual da atriz com o vilão vivido por Tony Leung - que está excepcional. O último plano fecha com muita classe um filme que se desenrola com fortes doses de sexo quase explícito e a velha atenção do diretor para detalhes enriquecedores da encenação.

Depois, no mesmo Palácio 1, Antes Que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet, mais um filme que usufrui das idas e vindas no tempo, obedecendo a fluxos narrativos de acordo com o humor de cada personagem. Philip Seymour Hoffman é o filho cinematográfico de Albert Finney, estranho que tenham demorado a sacar isso. E Lumet, velha raposa, faz piada com a semelhança. Velho e bom Lumet.

Em seguida, Primavera Numa Cidadezinha, de Fei Mu, clássico chinês (de 1948) que eu ia ignorar, pois achava que seria exibido em DVD, como quase todos os outros clássicos. Não fosse o Ruy Gardnier a me arrastar para a sessão (porque eu sou sempre muito resistente à mudanças de programação de última hora, em quase tudo na minha vida) e eu teria perdido um filmaço, com algumas seqüências belíssimas. É uma história pouco convencional - apesar das aparências iniciais - de adultério, com conseqüências que chegam muito perto do trágico. O marido traído espiritualmente, mesmo no final, não é um homem cruel, e para piorar, é o melhor amigo do homem pelo qual sua mulher se apaixona. Essa situação agrava ainda mais a situação para os amantes. O melhor do filme é que nada é preto no branco. Tudo tem suas sutilezas, suas complicações, que implicam em outras complicações, que fazem os personagens mover em terreno escorregadio, sem base para suas ações.

Daqui a pouco, minha última sessão do Festival - Go Go Tales, de Abel Ferrara. Não tinha como terminar de melhor maneira. Amanhã, já em São Paulo, eu e Filipe devemos postar nossas cotações, a exemplo do que fizemos eu e Guilherme no ano passado.

Paranoid Park


Paranoid Park é tanto a continuação natural do projeto mais recente do seu cinema como um filme reflexo de toda sua obra. Impossível não pensar em My Own Private Idaho em tantos momentos, Elefante necessariamente em muitos outros, Gênio Indomável inclusive por seqüências quase idênticas, com direito ao Eliott Smith - só que a banda sonora é ainda mais experimental, até mesmo mais do que no Elefante. Pois se lá os sons construiam uma atmosfera através de uma noção mais obviamente instrumental, desta vez o plano é mais incerto, sons cada vez mais diferentes se misturam. Há alguns planos inacreditáveis, experimentos com foco magistrias, mas são os videos de skate, as memórias, que são, francamente, fodas demais.

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias


Outro dia eu estava almoçando com dois amigos críticos de cinema, ambos veteranos de cobertura de Cannes, e eles me mencionaram a sua curiosidade a respeito da recepção local de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, filme visto por eles no primeiro dia de festival e sem nenhuma referencia. É sempre impressionante como o mecanismo brutal do consumo de filmes impeça com que olhemos 4 Meses com aquele olhar, para todos os que o viram no Festival do Rio ele inevitavelmente existira ou como a chegada de um novo talento já respaldada com a Palma de Ouro em Cannes ou como um filme a ser combatido pelo mesmo motivo. É uma pena que 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias não possa existir simplesmente pelo que esta na tela, já que o que vemos lá é um potente exemplar de realismo física à Dardenne, que se pode ser acusado de até certo ponto lançar mão de uma certa formula comprovada (não é acidente que o fotografo e o montador do filme tenham trabalhado juntos antes em A Morte do Sr. Lazarescu, o até então maior sucesso de crítico do jovem cinema romeno), é de uma riqueza de pequenos detalhes, de uma precisão no que radiografa dos entornos da descida ao inferno de sua protagonista e com tamanha facilidade para nos instalar nos ritmos dela ao longo desse dia interminável, que torna impossível negar-lhe o talento. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias é um filme descampado, todo ele previsto no retrato de um sentimento de desamparo, sua seqüência-chave não é nenhuma das que se relacionam diretamente com o aborto (este servindo mais como um gancho narrativo, inclusive tendo como momento mais frágil do filme justamente a seqüência com o feto morto), mas a ida da protagonista a festa de aniversário da mãe do seu namorado, onde o absoluto desconforto dela vai aos poucos deixando claro a falta de sustentação da sua própria posição ali. Mangiu trabalha muito bem com seus atores para garantir aos seus personagens, uma existência maior do que de meros títeres da trama e executa a sua aposta estética com grande força e talento.

Controle, a História de Ian Curtis


Sobre Controle, estréia do fotografo e diretor de videoclipes Anton Corbijn como cineasta, basta dizer que é uma biografia sobre Ian Curtis em que Love Will Tear Us Apart entra no momento que Curtis informa sua esposa que não a ama mais. Uma biografia careta, com vergonha de ser-lo e sem o cacife para alçar vôos mais altos ou o know how para realizar bem o básico que se propõe (com exeção da força da interpretação mimética de Sam Riley). Corbijn entre todos os possíveis filmes sobre Ian Curtis opta por realizar o mais óbvio deles, da fotografia P&B artística ao retrato do cantor como um pobre coitado que casou muito cedo. Nos seus piores momentos o filme beira o constrangedor, em outros garante que possamos ao menos afirmar com segurança que é superior ao entrecho do A Festa Nunca Termina, de Winterbottom, que lida com Curtis.


Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto


Este é o último filme que esperaríamos a esta altura do veterano Lumet. Sobre uma superfície de filme de roubo com estrutura pseudo-modernoso, o cineasta retoma seu interesse sobre ressentimentos familiares num filme duríssimo. Na segunda metade vamos aos poucos percebemos como o filme puxa o nosso tapete e como aquilo que a primeira vista é só um competente jogo de gênero é levado ao cineasta ao extremo das suas implicações. Por exemplo, Lumet transforma sua estrutura com jogos de ponto de vista e idas e vindas no tempo num poderoso acessório para representar uma verdadeira descida ao inferno. Antes que o Diabo Saiba que Você esta Morto é um filme que impressiona sobretudo pela sua disposição de levar ao limite os seus preceitos (o final é exemplar disso), fazendo uso de uma dureza de registro, assim como de um elenco inspiradíssimo (Albert Finney, Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke). Lumet pode nunca ter primado pela regularidade, mas este novo filme esta lá junto de Um Dia de Cão e O Príncipe da Cidade entre seus melhores trabalhos.

A lan não ajuda, mas muitos filmes precisam ser comentados


Saí do DiCillo, que é bem simpático por sinal, com uma baita vontade de escrever. Aí parei numa Lan House do Catete, que funciona até 1 da manhã. Funciona? Mais ou menos. Só para abrir a página do blogger levei dez minutos. Um saco. Bem, vai tudo em pílulas então, que tá mais de acordo com a correria do festival (e já que amanhã tem um último dia com quatro filmes, todos de diretores que me interessam, dois dos quais correm o risco de serem muito bons).

Delirious, de Tom DiCillo é um pouco idiota quando quer amarrar as pontas e forçar uma brodagem que ainda não estava nem perto de se confirmar. Com meia hora de filme, já temos o inevitável "foi mal, cara, devia ter te dado força", com o tal cara deixando a fúria para se mostrar compreensivo. Um outro momento idiota desses acontece com uma hora de filme, mas no geral ele vai bem, sem grandes pretensões que não a de divertir com um recheio de referências pops... um Kevin Smith que não perdeu o fôlego.

Antes o Kore-eda, de quem nunca fui admirador, com seu pior filme, o bobo toda vida Hana. Interminável, comercialóide - no pior sentido do termo - e com uma música infantil irritante que aparece sempre que a gente teme que ela vá aparecer.

No início do dia a coisa foi melhor, com Eduardo Coutinho e seu Jogo de Cena, que seria melhor se fosse uma outra atriz no lugar de Fernanda Torres. Ok, podem achar que é birra, que eu já tive com ela, mas passou, tanto que achei seu trabalho muito bom em Casa de Areia. Nanda deixa claro o jogo pretendido por Coutinho, o que talvez até tenha sido intenção dele, mas não gostei... paciência. O filme, entretanto, tem força, especialmente quando deixa que as até então anônimas brilhem. Marilia Pêra e Andréa Beltrão também estão ótimas.

Em seguida o filmaço de Jacques Rivette, Não Toque no Machado. Foi o melhor do dia, austero, rigoroso, e ao mesmo tempo um dos filmes menos difíceis dele. Um único senão fica por conta de Jeanne Balibar, atriz rivetteana por excelência, mas que no filme está um tanto deslocada (que me perdoem os fãs dela, mas eu tenho que ser fiel ao que achei numa primeira visão), especialmente no início do longo flashback.

Ontem teve a decepção com o Doillon wannabe Caixas, de sua ex-mulher, Jane Birkin, num filme que emula até a maneira de colocar os créditos do diretor de Ponette, mas não consegue deixar de ser um sub-produto de Bergman. Teve também a confirmação de que Régis Wargnier já pode ser considerado carta fora do baralho. Nem com um retorno ao policial à anos 70 (Corneau, Boisset, Tavernier, Deray) ele acerta a mão. Vá Logo e Volte Tarde até engana por um tempo, mas constrange durante boa parte de sua metade final. O que é a cena em que Marie Gillain grita na rua, para o policial que tenta prender seu meio irmão?

Teve ainda a boa surpresa Dr. Plonk, do maluco Rolf de Heer, capaz de fazer coisas interessantes e horríveis. Uma comédia de cinema mudo com momentos engraçadíssimos, que me fizeram lembrar de Harold Lloyd. E Joe Wright, que havia acertado com Orgulho e Preconceito, volta num filme irregular - Desejo e Reparação -, mas que quando acerta tem muita classe. A música é irritante, mas Wright trabalha com ela de forma interessante, e também com os estampidos que servem de trilha sonora, especialmente no excepcional final do primeiro ato, com a marcação sendo feita pela máquina de escrever.

Acabei escrevendo um monte, e a lan me deixou finalmente em paz.

terça-feira, outubro 02, 2007

Cine Glória


Ontem, após o assombro que é o filme do Todd Haynes, fui conferir a projeção do Cine Glória, meio esquecido pelo cinéfilo que acompanha o Festival. Foram dois filmes:

Jia Zhang Vai pra Casa, de Damien Ounouri, é interessante e informativo, acompanha o diretor em visitas ás locações de O Batedor de Carteiras e Plataforma, e mostra cenas dos dois, e de In Public e Prazeres Desconhecidos também. É imperdível apenas para quem tem uma relação obsessiva com o diretor, e quer saber como ele fala, se veste, sorri, suas influências (para quem ainda não havia notado: Ozu e Bresson, mas há uma que nem todos percebem - Hou Hsiao-hsien).

Amor Fantasma, de Nina Menkes, deve ficar com o título de filme mais bizarro do Festival. Uma mulher se relaciona sem sentir prazer com um homem meio bruto e insensível (ok, não é feminista como parece) e com a irmã abilolada. A famosa cena da levitação que está no atraente cartaz do filme termina com uma surpresa explosiva, e o filme tem alguns planos muito felizes em sua procura pela estilização. Em outros momentos, a diretora, que também opera a câmera, parece não saber muito bem o que quer, como em uma cena no cassino, em que o zoom parece desgovernado, agindo sem o menor critério. Para quem curte uma excentricidade, talvez Amor Fantasma seja a melhor pedida. Mas fica o aviso de que o filme é mais bizarro do que propriamente bom.

The Times They are A-Changing


I'm Not There é mesmo tudo isso. Para quem não tinha o diretor Todd Haynes em tão alta conta, e duvidava que dele pudesse vir uma obra-prima, foi uma surpresa e tanta, a maior do festival. O que mais me impressionou foi a habilidade em costurar a obra de Bob Dylan, espalhando as referências entre suas personalidades. Curiosamente quem sobrou com a fase religiosa foi Christian Bale (eu estava apostando que se ela fosse retratada seria com Heath Ledger). Entre as inúmeras seqüências de antologia está uma em que ele (vivido por Cate Blanchett), brinca com os Beatles. Ele é chamado, os Beatles saem do jardim do hotel, e começam a ser perseguidos por uma multidão de jovens tietes. Sem dúvida o filme pede revisão antes de qualquer texto mais aprofundado.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Go Go Tales


Acho Go Go Tales um filme bastante complicado. Mas complicado não no sentido de que existam complicações que prejudiquem o filme; e sim, complexo de ser visto e “compreendido”. Toda a ação ocorre na boate Paradise, mas em nenhum momento conseguimos dominar geograficamente esse lugar. A coisa toda é um tanto quanto enigmática; os espaços estão ali, são imagens extremamente fortes, porém pouco esclarecedoras. E isso parece-me extremamente importante para o filme: o Paradise é um labirinto de imagens e possibilidades, um mundo à parte do que chamaríamos de “realidade”. A única pessoa a parecer apta a dominar toda a capacidade “surreal” desse paraíso é Ray Rubin, personagem dos mais interessantes que vi surgir, uma figura tão enigmática quanto esse espaço que ostenta iluminado em sua entrada: “Ray Rubin’s Paradise”. E é exatamente isso: aquele é o paraíso de Ray, o lugar onde, com as mais diversas ações acontecendo, com um verdadeiro caos instaurado, esse homem consegue ir do momento de maior tranqüilidade a estouros emocionais latentes. No final, o monólogo mais que genialmente interpretado pro Willem Dafoe (inspiradíssimo a todo momento como Ray), chegando ao ápice com o sorriso ao achar o bilhete premiado – momento antológico, que fez o público romper em aplausos. Um filme com uma força estranha, mas muito presente, fruto de um cineasta que domina e se entrega como poucos ao que faz.

Domingo de carteiradas


O quinto mandamento do cinéfilo carioca avisa que sábados e domingos são dias complicados para se tentar a famigerada carteirada. Mas como o Botafogo saiu do ar justamente no sábado, quando fui tirar os ingressos de domingo, tive que usar o expediente durante a tarde, e acabei extendendo para o Espaço de Cinema e Palácio, durante a noite.

Foi um dia de decepções (Cem Pregos, já comentado pelo Filipe, e que é muito pouco para quem já fez O Posto), surpresas (Déficit, a estréia de Gael Garcia Bernal como diretor) e dois filmes que me entediaram em alguns momentos, mas são fortes (Uma Velha Amante) ou problemáticos (Deserto Feliz).

Sobre Uma Velha Amante, o filme da Catherine Breillat - diretora dos muito superiores Anatomia do Inferno e Breve Travessia - deixo para o Filipe escrever, pois ele é muito mais entusiasmado com o filme. Apesar dos aborrecimentos que uma ou outra cena me causou, reconheço os momentos de força do filme, especialmente quando os coadjuvantes conduzem a narrativa. Mas a performance de Asia Argento pela primeira vez me desagradou.

Déficit, de Gael Garcia Bernal, é surpreendente porque parece uma celebração de uma inconsequência típica da juventude, mas necessária, em certos momentos, a qualquer um que não queira enlouquecer. É um filme de verão, encontro de amigos para farrear num final de semana de calor numa cidade turística mexicana. Gael se apaioxona por uma argentina, a encantadora Luz Cipriota, e para conquistá-la faz de tudo para que sua namorada se perca no caminho, e chegue com muito atraso à sua casa de férias, ou nunca chegue. Durante sua estratégia um tanto atrapalhada de despiste e conquista - o que confere a maior parte da graça do filme - acompanhamos belos momentos com os amigos dele e da irmã chegando perto de vários limites. Infelizmente, na parte final do filme, tais limites cobram o preço, e as conseqüências surgem avassaladoras. Com tantas festas de arromba sem que nada de mal aconteça, Gael, como muitos diretores, preferiu filmar uma em que todos os excessos são punidos, e aí o que era inconsequente fica amargo, mas sem que estejamos sequer próximos de um Dino Risi, que faz a mesma operação no genial Aquele que Sabia Viver, com um resultado muito superior.

Deserto Feliz me incomodou principalmente pela necessidade de se explorar os tempos mortos antes de qualquer aproximação com a personagem da adolescente que entra para a prostituição. O desejo primeiro é o de criar uma grife, uma associação com filmes elogiados anteriormente como Cinema, Aspirinas e Urubus e Baixio das Bestas. Mas Paulo Caldas insiste tanto nos truques de estilo, como na micro câmera com lente grande angular que persegue o personagem de Peter Ketnath, ou no scope esmaecido, ou ainda nos diálogos bem soltos das prostitutas, e que poderiam render muito mais se houvesse uma dramaturgia sendo trabalhada desde o início. Não se pode dizer que ele foi feito na cola dos outros filmes citados, inclusive porque sua produção se iniciou há quatro anos, mas em comparação, fica claro que o que falta a Deserto Feliz é uma noção maior de como nos aproximar da protagonista. E a culpa certamente não é dela, que está muito bem no filme.

domingo, setembro 30, 2007

Planeta Terror - outra visão


Não pretendia fazer este comentário a respeito do novo filme de Robert Rodriguez. A razão é muito simples: sou fã e não via com bons olhos a idéia de não recomenda-lo, quiçá critica-lo vêementemente, como farei. Até por acreditar que o filme possui força o suficiente para ser, pelo menos, digno.

Mas diante do que escreveu o Filipe, eu não vejo saída a não ser contra-argumentar. Pois se há uma visão no filme que considero inconcebível é a de que ele seria uma boa homenagem a John Carpenter. Primeiro, porque não é um filme carpenteriano sobre qualquer aspecto - o máximo que pode-se afirmar, é que há uma noção de grupo rebelde se unindo num espirito anárquico que casa com ideais carpenterianos, e que em pequenos momentos houve uma trilha que se assemelha no estilo. E é só. É um conceito muito básico, e deu. Não existem relações carpenterianas entre os personagens, e nem mesmo de andamento de narrativa. Em termos de imagem, a comparação é uma piada, sim. Não porque seja mal filmado, mas por que as formas de filmar não tem nada a ver. Sem falar que a mera idéia de que se parta para uma homenagem a Carpenter, levando isso a sério - o que eu acho que o Rodriguez não queria fazer, embora diga em entrevistas que queria homenagea-lo - e não rodar em cinemascope, é uma falta de noção total. Comparar El Wray aos personagens de Kurt Russell ou a Nada e outros heróis, é o mesmo que comparar qualquer outsider a eles. Pra mim essa comparação é um desconhecimento da essência carpenteriana. El Wray é quase a mesma persona que o David Arquette fazia em Revanche Rebelde, que é um bom filme, o primeiro longa de Rodriguez. Pra fechar o assunto, que não puxaria se o Filipe não tivesse o feito antes, digo sem menor medo: Serenity é muito mais Carpenter do que Planeta Terror jamais será.

Agora, então, os porques. Porque filmar em HD e colocar riscos de película digitalmente, sinceramente, me incomoda demais. Porque afirma uma noção fetichista no pior sentido sobre uma relação com um grupo de filmes, como se eles fossem feitos já com riscos e aparência mal cuidada dos negativos. É ser muito mais grindhouse que os próprios filmes que referencia. Ou até mesmo, um falso grindhouse. Eu acho Revanche Rebelde ou El Mariachi bastante dignos do título se tivessem sido feitos em outro momento da história do cinema. A impressão que fica do filme é quase de que ele seria uma espécie de paródia aos filmes do grindhouse, como se deles ficasse só o aspecto mais tosco, que aqui vira piada. Parece uma sessão de esquetes, e só engrena como um filme grindhousiano lá pro meio, que é quando ele começa a acreditar naquilo que está filmando. No terreno da especulação, eu palpitaria que ele será gostado pelos fãs de filmes grindhouse, mas será muito mais curtido pelos não-fãs. É um filme divertido, na sua porra-louquice, e realmente tem um final muito bonito. Mas a sensação de ter visto alguém trocar os pés pelas mãos ao tentar homenagear um movimento como o da grindhouse e terminar tendo em muitos momentos quase feito pouco caso dele me foi inevitável.

O enigma Kawase


Os filmes de Naomi Kawase me parecem tão simples quanto se pode conseguir, sem que essa simplicidade signifique que eles não almejem, ou intuitivamente queiram provocar, muita reflexão. Seus filmes pedem revisão, porque a grandeza que deles se desprende não é facilmente rastreada, mas é inevitavelmente o resultado de uma sensibilidade de outro mundo. Se descrevermos a cena final de A Floresta dos Lamentos, entrecortada por diversos planos com a câmera na mão, tudo parece meio ridículo, mesmo se a colocarmos num contexto. No entanto, a cena, do jeito que está lá, tem uma força rara de se ver em qualquer tempo. O trabalho com a câmera na mão deveria ser melhor estudado (e eu pretendo fazer um texto sobre isso), mas já dá pra adiantar que é o contraponto necessário ao modismo de Biers, Coixets e outros mais. Talvez seja o melhor filme dela, mas ainda não vi Hotaru (Firefly) e uns dois documentários

Planeta Terror


A arte de Robert Rodriguez – se é que faz sentido nos referirmos a ela assim – sempre foi construída de dejetos do cinema de gênero americano, mais do que nunca isto vale neste Planeta Terror que leva este projeto de cinema aos limites da imagem-fetiche. Poderia ser uma camisa de força que estrangulasse o filme como a devoção a Frank Miller fizera com Sin City, mas aqui temos Rodriguez de volta a forma e se divertindo muito enquanto costura uma homenagem a John Carpenter, cuja obra transpassa cada plano de Planeta Terror. Este é tanto um filme de curtição onde Rodriguez abraça seus impulsos mais adolescentes, como um filme que pode ter um epílogo tão bonito como o que Rodriguez constrói aqui, assim como um filme que tem como uma das suas maiores razões de ser produzir um Kurt Russell mexicano.

Os Cem Pregos


Os Cem Pregos é um filme velho. Esta é a primeira constatação que tiramos deste que Ermanno Olmi prometer ser seu último filme; e não há nada de errado com isso. Os Cem Pregos parece existir em suspenso completamente a parte das tendências do cinema contemporâneo, um pouco como um Sete Mulheres de Ford a seu tempo; muito justo, já que assim como Ford, Olmi é um mestre que não deve satisfações a ninguém. Os Cem Pregos é um filme sobre o sagrado, sobre o ato de destruir o sacro numa Itália onde faze-lo é uma impossibilidade, mas Olmi aceita o desafio e faz um belo filme com seu ritmo e imagens peculiares, com sua desenvergonhada crença de que pode fazer um filme direto e nada contemporâneo.

Antes que eu Esqueça


Pierre é um ex-gigolo de 58 anos, aidético, com um corpo decadente, desesperado porque a família do homem que lhe sustentou pela maior parte da vida lhe negou sua parte da herança, seu cotidiano parece existir exclusivamente para conversas com velhos amigos e a procura por garotões. Pierre é interpretado pelo diretor Jacques Nolot e é a razão de existir de Antes que eu Esqueça. Há no filme uma adequação/simbiose com seu personagem central impressionante,cada movimento de câmera, cada corte, cada pausa existindo para nos instalar na vida de Pierre. E Nolot realiza está operação toda com imensa entrega e talento. Uma das boas surpresas do festival.

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