sábado, janeiro 26, 2008
Filmes vistos (em ordem de preferência)
LONGAS
* * * *
O Grão, de Petrus Cariry
Falsa Loura, de Carlos Reichenbach
Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte
* * *
Cleópatra, de Júlio Bressane
Alucinados, de Roberto Santucci
Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
* *
Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo
Meu Nome é Dindi, Bruno Safadi
Crítico, de Kleber Mendonça Filho
Amigos de Risco, de Daniel Bandeira
Nome Próprio, de Murilo Salles
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
*
Ô, de Casa, de Clarisse Alvarenga
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald
CURTAS
* * *
Ocidente, de Leonardo Sette
Corpo Presente: Beatriz, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori
Saindo de Casa, de Roberta Arantes
Café com Leite, de Daniel Ribeiro
Antonio Pode, de Ivan Morales Jr.
Saliva, de Esmir Filho
Trópico das Cabras, Fernando Coimbra
A Psicose de Valter, de Eduardo Kishimoto
De Resto, de Daniel Chaia
Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra
Lumen, de William Salvador
Sentinela, de Afonso Nunes
O Lobinho Nunca Mente, de Ian SBF
Antes que Seja Tarde, de André Queiroz
* *
Outubro, de Murilo Hauser
Espalhadas pelo Ar, de Vera Egito
Areia, de Caetano Gotardo
Pipa, de Leonardo Bello
É Hoje, de Marcelo Ikeda
*
Esconde Esconde, de Álvaro Furlani
Décimo Segundo, de Leonardo Lacca
Sistema Interno, de Carolina Durão
* * * *
O Grão, de Petrus Cariry
Falsa Loura, de Carlos Reichenbach
Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte
* * *
Cleópatra, de Júlio Bressane
Alucinados, de Roberto Santucci
Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
* *
Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo
Meu Nome é Dindi, Bruno Safadi
Crítico, de Kleber Mendonça Filho
Amigos de Risco, de Daniel Bandeira
Nome Próprio, de Murilo Salles
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
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Ô, de Casa, de Clarisse Alvarenga
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald
CURTAS
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Ocidente, de Leonardo Sette
Corpo Presente: Beatriz, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori
Saindo de Casa, de Roberta Arantes
Café com Leite, de Daniel Ribeiro
Antonio Pode, de Ivan Morales Jr.
Saliva, de Esmir Filho
Trópico das Cabras, Fernando Coimbra
A Psicose de Valter, de Eduardo Kishimoto
De Resto, de Daniel Chaia
Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra
Lumen, de William Salvador
Sentinela, de Afonso Nunes
O Lobinho Nunca Mente, de Ian SBF
Antes que Seja Tarde, de André Queiroz
* *
Outubro, de Murilo Hauser
Espalhadas pelo Ar, de Vera Egito
Areia, de Caetano Gotardo
Pipa, de Leonardo Bello
É Hoje, de Marcelo Ikeda
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Esconde Esconde, de Álvaro Furlani
Décimo Segundo, de Leonardo Lacca
Sistema Interno, de Carolina Durão
Meu Nome é Dindi e Sábado à Noite (novamente)
Sobre Meu Nome é Dindi ainda não escrevi. Um pouco porque senti que minha decepção estava em total desarmonia com o que todos os amigos presentes acharam do filme, um pouco por achar que o filme de Safadi preza muito mais o fluxo de emoções, e uma torrente de fúria e desejo de cinema (como bem notou Eduardo Valente) que estava muito além de minhas possibilidades para o dia (enfraquecido por uma crise de rinite que me impossibilitou de ver Otávio e as Letras, na sessão anterior - é nisso que dá interromper um tratamento que mal havia começado).
Este post é para dar conta de que os dois filmes cresceram na memória. Principalmente Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, que havia me decepcionado pela expectativa de um filme totalmente diferente - porrada no estômago, furioso - do que o que encontrei - filme de contemplação, tempos esgarçados. Como esperava algo muito menos palatável, demorei para entrar no clima do filme. A proposta já é suficientemente decodificada para platéias habituadas a acompanhar festivais, e por isso me causou essa ligeira frustração por não encontrar um verdadeiro OVNI. Com o tempo, percebi suas qualidades, sua habilidade em manter um tom único ao longo de todo o filme, sem fazer concessões ao que se espera de uma lanchonete noturna sendo filmada numa madrugada.
O filme de Bruno Safadi é um tanto mais complicado, pois a homenagem à Belair sugere um fluxo ainda maior de paixões - como foi levantado pelo próprio diretor em debate - do que o encontrado no filme. Não é o caso de querer que o filme seja algo que ele não quer ser, mas de tentar assimilar a frustração de expectativas - o motivo deste post. Uma coisa comentada por aqui é que acompanhar os debates fazem com que o filme se explique melhor em nossas cabeças. Entendo que às vezes isso aconteça, mas é mais raro do que se diz por aí. O filme se resolve melhor em nossas cabeças em qualquer circunstância, com ou sem debate. E é por isso que às vezes só entendemos o que achamos dos filmes depois da elaboração de um texto crítico. O debate serve para entendermos procedimentos, ouvirmos curiosidades, e estabelecer relações diversas, e às vezes para ajudar a melhor compreensão de um filme. O debate é parte do processo de aperfeiçoamento de nossa percepção, não um orientador.
Este post é para dar conta de que os dois filmes cresceram na memória. Principalmente Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, que havia me decepcionado pela expectativa de um filme totalmente diferente - porrada no estômago, furioso - do que o que encontrei - filme de contemplação, tempos esgarçados. Como esperava algo muito menos palatável, demorei para entrar no clima do filme. A proposta já é suficientemente decodificada para platéias habituadas a acompanhar festivais, e por isso me causou essa ligeira frustração por não encontrar um verdadeiro OVNI. Com o tempo, percebi suas qualidades, sua habilidade em manter um tom único ao longo de todo o filme, sem fazer concessões ao que se espera de uma lanchonete noturna sendo filmada numa madrugada.
O filme de Bruno Safadi é um tanto mais complicado, pois a homenagem à Belair sugere um fluxo ainda maior de paixões - como foi levantado pelo próprio diretor em debate - do que o encontrado no filme. Não é o caso de querer que o filme seja algo que ele não quer ser, mas de tentar assimilar a frustração de expectativas - o motivo deste post. Uma coisa comentada por aqui é que acompanhar os debates fazem com que o filme se explique melhor em nossas cabeças. Entendo que às vezes isso aconteça, mas é mais raro do que se diz por aí. O filme se resolve melhor em nossas cabeças em qualquer circunstância, com ou sem debate. E é por isso que às vezes só entendemos o que achamos dos filmes depois da elaboração de um texto crítico. O debate serve para entendermos procedimentos, ouvirmos curiosidades, e estabelecer relações diversas, e às vezes para ajudar a melhor compreensão de um filme. O debate é parte do processo de aperfeiçoamento de nossa percepção, não um orientador.
Nome Próprio
Comentário feito quando vi o filme na Mostra SP de 2007:
Há um enorme motivo para ver o novo filme de Murilo Salles, e ele se chama Leandra Leal. É simplesmente a melhor atuação de uma atriz jovem no cinema nacional em muitos anos. Leandra torna crível uma personagem que, por não parecer nada real, com suas loucuras e inconstâncias exageradas no humor, é tão de carne que sentimos que podemos tocá-la na tela. Falta ao filme uma preocupação maior com a posição da câmera, que poderia estar em qualquer lugar, sem a menor diferença. Isso faz com que o filme seja ainda mais de Leandra, num tour-de-force inacreditável. Dizer que sua nudez é gratuita é - mesmo se não levarmos em conta o processo de auto-limpeza pelo qual passa a personagem - é como dizer que a blusa vermelha do cara que a hospeda no começo é inverossímel, ou seja, uma bobagem.
Há um enorme motivo para ver o novo filme de Murilo Salles, e ele se chama Leandra Leal. É simplesmente a melhor atuação de uma atriz jovem no cinema nacional em muitos anos. Leandra torna crível uma personagem que, por não parecer nada real, com suas loucuras e inconstâncias exageradas no humor, é tão de carne que sentimos que podemos tocá-la na tela. Falta ao filme uma preocupação maior com a posição da câmera, que poderia estar em qualquer lugar, sem a menor diferença. Isso faz com que o filme seja ainda mais de Leandra, num tour-de-force inacreditável. Dizer que sua nudez é gratuita é - mesmo se não levarmos em conta o processo de auto-limpeza pelo qual passa a personagem - é como dizer que a blusa vermelha do cara que a hospeda no começo é inverossímel, ou seja, uma bobagem.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
Dulce Veiga, Corpo e Amigos de Risco
Onde Andará Dulce Veiga? é um retorno à forma de Guilherme de Almeida Prado. Se o filme tem algumas cenas que beiram o constrangedor - por exemplo os que mostram a representação de uma banda de rock -, é muito forte nos momentos em que se abre à possibilidade do ridículo. Especialmente no final, que lembra Os Guarda-Chuvas do Amor. Talvez eu faça um texto para a Contracampo (meu outro lar), por isso paro por aqui. Mais também no texto final do evento, a ser publicado em meados de fevereiro.
Corpo, de Rosanna Foglia e Rubens Rewald, é um filme que não me despertou o menor interesse, e talvez seja desonesto tentar algo crítico sobre ele. O melhor a fazer é me calar, para não cometer injustiças.
Amigos de Risco, de Daniel Bandeira, é bem interessante. Sob uma granulação sem vergonha, e um escuro sujo e urbano, três amigos se complicam durante uma madrugada. O filme começa a engrenar quando um incidente os obriga a tomar um rumo com urgência, e dessa urgência surgem algumas outras situações, uma delas, a dos agiotas, é meio besta, mas as outras - polícia, amigo que se recusa a ajudar, ambulância que passa pela rua deserta, são muito bem inseridas na trama.
Corpo, de Rosanna Foglia e Rubens Rewald, é um filme que não me despertou o menor interesse, e talvez seja desonesto tentar algo crítico sobre ele. O melhor a fazer é me calar, para não cometer injustiças.
Amigos de Risco, de Daniel Bandeira, é bem interessante. Sob uma granulação sem vergonha, e um escuro sujo e urbano, três amigos se complicam durante uma madrugada. O filme começa a engrenar quando um incidente os obriga a tomar um rumo com urgência, e dessa urgência surgem algumas outras situações, uma delas, a dos agiotas, é meio besta, mas as outras - polícia, amigo que se recusa a ajudar, ambulância que passa pela rua deserta, são muito bem inseridas na trama.
Duas decepções
Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, tem uma proposta muito interessante, que ele leva a cabo da maneira mais rigorosa possível. O filme capta uma noite de sábado em Fortaleza como se a cidade fosse habitada por fantasmas, que às vezes se materializam para comer ou beber. Isso não é problema. O que me incomoda é que me parece um filme já formatado para ser um sucesso de crítica - mais ou menos o que acho dos filmes de Eduardo Coutinho, aliás - codificado como obra de um autor difícil e que não faz concessões. Faltou algo que o colocasse na mira de possíveis alvos. Algo que o tirasse do simples status de obra para poucos. Algo que provocasse o risco de ser incompreendido, ou mesmo odiado. É digno, mas eu esperava mais, pelo que o Cléber Eduardo tinha falado.
Crítico, de Kleber Mendonça Filho, é outro de que eu esperava mais, e quem viu os curtas do diretor só poderia esperar o máximo. Mas o filme é correto demais, certinho demais em sua edição que alterna depoimentos (alguns bons, outros patéticos - caso de Sérgio Bianchi) com imagens de arquivo. É interessante, mas não acrescenta muito ao que o filme de Maria de Medeiros (Bem me Quer, Mal me Quer) dizia.
Crítico, de Kleber Mendonça Filho, é outro de que eu esperava mais, e quem viu os curtas do diretor só poderia esperar o máximo. Mas o filme é correto demais, certinho demais em sua edição que alterna depoimentos (alguns bons, outros patéticos - caso de Sérgio Bianchi) com imagens de arquivo. É interessante, mas não acrescenta muito ao que o filme de Maria de Medeiros (Bem me Quer, Mal me Quer) dizia.
quinta-feira, janeiro 24, 2008
Link
http://www.cinequanon.art.br/mostra_detalhe.php?id=270&id_festival=50
Minha contribuição para a cobertura do Cinequanon, sobre os três primeiros dias da Mostra. Reforço aqui que meu favorito para ganhar o prêmio dos juris (jovem e da crítica) dentro da sessão Aurora é O Grão, a excelente estréia de Petrus Cariry no longa-metragem.
Entre os curtas, os preferidos do público em cada sessão nunca casam com os meus, mas dos seis finalistas o melhor é mesmo Trópico das Cabras, de Fernando Coimbra.
Minha contribuição para a cobertura do Cinequanon, sobre os três primeiros dias da Mostra. Reforço aqui que meu favorito para ganhar o prêmio dos juris (jovem e da crítica) dentro da sessão Aurora é O Grão, a excelente estréia de Petrus Cariry no longa-metragem.
Entre os curtas, os preferidos do público em cada sessão nunca casam com os meus, mas dos seis finalistas o melhor é mesmo Trópico das Cabras, de Fernando Coimbra.
O Grão
O belíssimo filme de Petrus Cariry conta com uma fotografia notável de Ivo Lopes Araújo, e é uma bela história de perda e separação. Uma avó que se vai, uma filha que se casa, um cachorrinho que encanta, uma tradição que se mantém com o homenzinho da família. Cariry pensa o plano em composições verticais, como Pedro Costa, e homenageia Limite em vários planos, notadamente os que mostram o cercado que lembra um barco à deriva. Um filme de belas imagens, mas que escapa do perigo da estetização excessiva, que poderia sufocar a narrativa. Em alguns momentos ele parece abandonar seu projeto estético, fazendo ruídos com a decupagem de algumas cenas. O exemplo máximo é quando a avó conta a história para o menino, e de um plano estático corta para um plano médio que enquadra apenas a avó. Esse ruído às vezes ameaça ir contra o filme, sua estética, seu andamento respeitoso ao tempo do lugar. Mas em uma dessas decupagens temos um momento genial. Num plano geral o menino com o brinquedo. Muda o eixo, e em segundo plano, atrás do menino que ainda segura o brinquedo, vemos desfocada a jovem experimentando um vestido de noiva. Corta para ela, de um novo eixo, de costas para a câmera, mas com o rosto refletido no pequeno espelho da parede. O sobreenquadramento, uma constante de O Grão - que remete também a Max Ophuls e Fassbinder - está nesse plano soberbo, que sugere mais uma despedida, mais uma tristeza para a mãe que, marginalizada pelo enquadramento e pelas opções da vida, só pode ancorar-se em paredes descascadas, e vislumbrar um horizonte que em nada lhe é favorável.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Mais dois belos curtas
Saindo de Casa, de Roberta Arantes, é O Anjo Exterminador refeito por David Lynch. Mas o começo sugere Jacques Tati, ou até mais Elia Suleiman, sem a ironia, mas com um senso da paranóia que cerca a personagem. O mais interessante é a mudança de registro, do que poderia sugerir uma comicidade, pela repetição, mas que se transforma num quase terror, com um belo trabalho de som e uma montagem que acentua o desespero. O final, com a câmera no escuro a fitar a porta que se abre e fecha com indecisão, é particularmente forte, e há um clima de cotidiano ameaçador que se alinha perfeitamente ao crescendo nervoso do filme.
Antonio Pode, de Ivan Morales Jr., lembra uma parábola torta ao estilo "Amar é..." (aquelas figurinhas que as colegiais adoravam colecionar), mas com uma queda para o nonsense e o onírico que lhe faz muito bem. Lembra um monte de coisas, mas não consegui chegar a nenhum nome específico. A diretora de arte elucidou: a maior referência visual foi Roy Andersson, o diretor sueco de Canções do Segundo Andar e Vocês, os Vivos. Acho que eu nunca chegaria a essa conclusão se ela não tivesse falado.
Antonio Pode, de Ivan Morales Jr., lembra uma parábola torta ao estilo "Amar é..." (aquelas figurinhas que as colegiais adoravam colecionar), mas com uma queda para o nonsense e o onírico que lhe faz muito bem. Lembra um monte de coisas, mas não consegui chegar a nenhum nome específico. A diretora de arte elucidou: a maior referência visual foi Roy Andersson, o diretor sueco de Canções do Segundo Andar e Vocês, os Vivos. Acho que eu nunca chegaria a essa conclusão se ela não tivesse falado.
terça-feira, janeiro 22, 2008
Uma boa safra de curtas em 35 mm.
Alguns curtas que merecem destaque entre os exibidos na noite de ontem:
Trópico das Cabras, de Fernando Coimbra
Não sou dos maiores entusiastas do filme, mas devo reconhecer que seus momentos fortes são realmente fortes, e que ele nunca se deixa levar por um viés do humanismo mais pueril. Trata-se de uma relação problemática, em ruínas, filmada com as cores de uma crescente frustração carnal.
Ocidente, de Leonardo Sette
O melhor curta da noite. Reflexos dos sentimentos com uma noção de entorno muito forte - pela paisagem que o trem percorre -, e das lembranças que ficam atreladas aos momentos duros de cada relacionamento amoroso.
A Psicose de Valter, Eduardo Kishimoto
A canção "Cavalgada", obra-prima de Roberto e Erasmo Carlos, dá o tom do filme. A letra, de um erotismo que faz Wando chorar de inveja, serve para finalizar a noitada de um homem sedento por sexo, e de outro que se saciou com uma prostituta. Olhares se cruzam na Augusta boêmia, e as estrelas mudam de lugar.
Saliva, de Esmir Filho
Revisto e confirmado. É disparado o melhor filme de Esmir Filho. Os medos e as impressões da pré-adolescente são filmados com total liberdade às sensações de um primeiro beijo, molhado, invadido pela saliva do outro, distante dos beijos mais secos que ela se acostumou a ver em Malhação.
Café com Leite, de Daniel Ribeiro
Um casal homossexual se acarinha na cama de uma manhã qualquer. Ao contrário de mim, o filme não problematiza essa relação. O drama é outro, no caso, a morte dos pais de um deles, e a necessidade de suprir a carência do irmãozinho tornado órfão, que quer dormir entre o casal que deveria, com o tempo, substituir pai e mãe em sua hierarquia de afetos. Um curta sensível como poucos, e que de tão mansinho cresce um bocado na memória.
Trópico das Cabras, de Fernando Coimbra
Não sou dos maiores entusiastas do filme, mas devo reconhecer que seus momentos fortes são realmente fortes, e que ele nunca se deixa levar por um viés do humanismo mais pueril. Trata-se de uma relação problemática, em ruínas, filmada com as cores de uma crescente frustração carnal.
Ocidente, de Leonardo Sette
O melhor curta da noite. Reflexos dos sentimentos com uma noção de entorno muito forte - pela paisagem que o trem percorre -, e das lembranças que ficam atreladas aos momentos duros de cada relacionamento amoroso.
A Psicose de Valter, Eduardo Kishimoto
A canção "Cavalgada", obra-prima de Roberto e Erasmo Carlos, dá o tom do filme. A letra, de um erotismo que faz Wando chorar de inveja, serve para finalizar a noitada de um homem sedento por sexo, e de outro que se saciou com uma prostituta. Olhares se cruzam na Augusta boêmia, e as estrelas mudam de lugar.
Saliva, de Esmir Filho
Revisto e confirmado. É disparado o melhor filme de Esmir Filho. Os medos e as impressões da pré-adolescente são filmados com total liberdade às sensações de um primeiro beijo, molhado, invadido pela saliva do outro, distante dos beijos mais secos que ela se acostumou a ver em Malhação.
Café com Leite, de Daniel Ribeiro
Um casal homossexual se acarinha na cama de uma manhã qualquer. Ao contrário de mim, o filme não problematiza essa relação. O drama é outro, no caso, a morte dos pais de um deles, e a necessidade de suprir a carência do irmãozinho tornado órfão, que quer dormir entre o casal que deveria, com o tempo, substituir pai e mãe em sua hierarquia de afetos. Um curta sensível como poucos, e que de tão mansinho cresce um bocado na memória.
Deserto Feliz republicado
Comentário sobre Deserto Feliz, que passou domingo aqui em Tiradentes, feito na época do Festival do Rio:
Deserto Feliz me incomodou principalmente pela necessidade de se explorar os tempos mortos antes de qualquer aproximação com a personagem da adolescente que entra para a prostituição. O desejo primeiro é o de criar uma grife, uma associação com filmes elogiados anteriormente como Cinema, Aspirinas e Urubus e Baixio das Bestas. Mas Paulo Caldas insiste tanto nos truques de estilo, como na micro câmera com lente grande angular que persegue o personagem de Peter Ketnath, ou no scope esmaecido, ou ainda nos diálogos bem soltos das prostitutas, e que poderiam render muito mais se houvesse uma dramaturgia sendo trabalhada desde o início. Não se pode dizer que ele foi feito na cola dos outros filmes citados, inclusive porque sua produção se iniciou há quatro anos, mas em comparação, fica claro que o que falta a Deserto Feliz é uma noção maior de como nos aproximar da protagonista. E a culpa certamente não é dela, que está muito bem no filme.
Deserto Feliz me incomodou principalmente pela necessidade de se explorar os tempos mortos antes de qualquer aproximação com a personagem da adolescente que entra para a prostituição. O desejo primeiro é o de criar uma grife, uma associação com filmes elogiados anteriormente como Cinema, Aspirinas e Urubus e Baixio das Bestas. Mas Paulo Caldas insiste tanto nos truques de estilo, como na micro câmera com lente grande angular que persegue o personagem de Peter Ketnath, ou no scope esmaecido, ou ainda nos diálogos bem soltos das prostitutas, e que poderiam render muito mais se houvesse uma dramaturgia sendo trabalhada desde o início. Não se pode dizer que ele foi feito na cola dos outros filmes citados, inclusive porque sua produção se iniciou há quatro anos, mas em comparação, fica claro que o que falta a Deserto Feliz é uma noção maior de como nos aproximar da protagonista. E a culpa certamente não é dela, que está muito bem no filme.
Ainda Orangotangos
Como Leonardo Mecchi disse no debate de hoje, ao saber que o longa de Gustavo Spolidoro seria constituído de um único plano-seqüência, é inevitável o temor de que se trata da exploração de um fetiche, o que por si só não depõe contra o filme, mas serve para nos deixar com um pé atrás sobre seus procedimentos. Assim como Cléber Eduardo (que afirmou ter mudado de opinião depois de rever o filme), numa primeira visão, fiquei com a impressão de que o fetiche se sobressaiu, pois não havia motivo para que fosse assim filmado que não o do truque de estilo. Como ainda não o revi, devo ser fiel à minha primeira impressão.
O plano-seqüência, por limitar algumas possibilidades da dramaturgia, empobrece algumas relações entre os personagens, justamente no miolo do filme, que deveria mesmo ter seus momentos em "banho maria" - porque um filme feito de um só plano-seqüência não pode ser uma sucessão de clímaxes, sob o risco de perder o espectador em menos de metade da duração. Assim, alguns episódios soam arrastados, como o do casal que bebe perfume - com um "desfecho" que lembra uma cena de Faces, de John Cassavetes - ou oda menina que brinca com o porteiro de um prédio residencial e comercial.
Ou seja, apesar de ter uma unidade clara de estilo - o plano-seqüência - Ainda Orangotangos não deixa de evitar uma certa irregularidade típica dos filmes em episódios. Seu maior trunfo, evitar o tédio monocórdico, acaba se virando contra o filme, pois provoca uma gangorra de emoções de personagens ora engraçados, ora enfadonhos. A esperteza de Spolidoro foi deixar os melhores episódios para o começo e o fim, dando a impressão de que o filme é melhor do que realmente é.
O plano-seqüência, por limitar algumas possibilidades da dramaturgia, empobrece algumas relações entre os personagens, justamente no miolo do filme, que deveria mesmo ter seus momentos em "banho maria" - porque um filme feito de um só plano-seqüência não pode ser uma sucessão de clímaxes, sob o risco de perder o espectador em menos de metade da duração. Assim, alguns episódios soam arrastados, como o do casal que bebe perfume - com um "desfecho" que lembra uma cena de Faces, de John Cassavetes - ou oda menina que brinca com o porteiro de um prédio residencial e comercial.
Ou seja, apesar de ter uma unidade clara de estilo - o plano-seqüência - Ainda Orangotangos não deixa de evitar uma certa irregularidade típica dos filmes em episódios. Seu maior trunfo, evitar o tédio monocórdico, acaba se virando contra o filme, pois provoca uma gangorra de emoções de personagens ora engraçados, ora enfadonhos. A esperteza de Spolidoro foi deixar os melhores episódios para o começo e o fim, dando a impressão de que o filme é melhor do que realmente é.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Cleópatra
O novo filme de Júlio Bressane é desconcertante, inconseqüente, aborrecido e genial em alguns momentos. Ora lembra uma sátira avacalhada de Tabu ou Os Sermões, ora se aproxima muito mais de um Derek Jarman que veio ao Brasil e se embebedou de Os Monstros de Babaloo. Quando é genial, pode ser Bressane rindo de si mesmo, ou indo a fundo na proposta estética de todo o seu cinema. Proposta que pede a participação exaustiva do espectador, que é convidado a montar o filme que se apresenta inflado a seus olhos. Quando é infame, fica ameaçado de jogar por terra qualquer possibilidade de empatia com o espectador. Com esse risco, Bressane fez um de seus filmes mais problemáticos e ousados. A simples escalação de Miguel Falabella, Bruno Garcia e Taumaturgo Ferreira já é uma declaração de intenções. Mas Bressane não se dá por satisfeito, e mostra, logo no começo, uma cabeça cortada, mostrando a que veio. Lembro apenas de A Agonia - seu melhor filme - a superar Cleópatra no quesito "quebrar o bom senso". Pena que nem tudo corra às maravilhas para que a ousadia funcionasse durante toda a projeção. Em alguns momentos o efeito sai pela culatra, e o que era para ser transgressivamente estúpido se torna apenas estúpido. E que me perdoem os inúmeros fãs da moça, mas não gosto do trabalho da Alessandra Negrini em boa parte das cenas.
domingo, janeiro 20, 2008
Longa vida ao cinema de Belmonte
Ontem foi o dia de Meu Mundo em Perigo, o novo filme de José Eduardo Belmonte. Com Eucir de Souza, Rosanne Mulholland e Milhem Cortaz arrasando, não dá nem para pensar em ignorar o elenco, a escolha de cada um para seus respectivos personagens. Os atores estão perfeitos numa história de tentativa de superação pela necessidade de enfrentamento dos traumas - caso da personagem de Rosanne, a mudinha, que a certa hora volta para casa de sua família para enfrentar a recepção de seus familiares. O personagem de Eucir também deve enfrentar muitas coisas, mas ele recua, até que encontra a mudinha afastada de casa. Mas o filme é esvaziado de qualquer espécia de explicação das motivações de seus personagens. Sabemos que eles sofrem, e como sofrem, mas pouco sabemos das condições que eles têm para passar pelo sofrimento. Meu Mundo em Perigo lembra, por seu despreendimento a uma dramaturgia mais convencional e pela adesão completa aos corpos dos atores - mesmo em seus detalhes - tanto Cão sem Dono quanto o cinema de Cassavetes, não por acaso citado no debate de hoje. Mas é outro filme que eu gostaria de rever antes de pronunciar algo mais crítico ou analítico.
Antes vimos Alucinados, o intrigante filme de Roberto Santucci, que esteve na mesa em minha companhia para discutir o filme - em um debate que contou com participações especiais do público. Muitos não entenderam a opção do diretor pela constante alternância de registros, entre o comentário social e a ação pura e simples. Mas o fato é que Santucci soube evitar diversas armadilhas que o encaminhamento das cenas ocasionou, e se saiu muito bem na alternância final, e mais radical, da saída do sequestro puro e simples para algo muito mais complexo, que exigia uma densidade dramática que o filme cumpre com vigor.
Antes vimos Alucinados, o intrigante filme de Roberto Santucci, que esteve na mesa em minha companhia para discutir o filme - em um debate que contou com participações especiais do público. Muitos não entenderam a opção do diretor pela constante alternância de registros, entre o comentário social e a ação pura e simples. Mas o fato é que Santucci soube evitar diversas armadilhas que o encaminhamento das cenas ocasionou, e se saiu muito bem na alternância final, e mais radical, da saída do sequestro puro e simples para algo muito mais complexo, que exigia uma densidade dramática que o filme cumpre com vigor.