quinta-feira, novembro 02, 2006
I Prêmio da Crítica Independente
Ontem se realizou o primeiro Prêmio da Crítica Independente na Mostra de SP, uma iniciativa formada em sua grande maioria pelas revistas eletrônicas que formam hoje o pensamento cinematográfico no Brasil: Contracampo, Cinética, Almanaque Virtual e Cinequanon. E claro, formado também pela revista Paisà, já que somos todos formados enquanto criticos por algum destes veículos (e invariávelmente ainda fazemos parte deles, em maior ou menor escala). Além da ilústre presença de nossos convidados especiais, o crítico da Folha de São Paulo, Inácio Araújo, e a pesquisadora Sheila Schvarzman.
Juventude em Marcha de Pedro Costa faturou num segundo turno disputado o título de melhor filme da Mostra. Na categoria revelação quem faturou foi Anche libero va bene, longa de estréia do italiano Kim Rossi Stuart. Como Destaque da Mostra, foi escolhido os Diários de David Perlov e a exibição de De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio. Na categoria de filme brasileiro Andrea Tonacci e o seu Serras da Desordem ganhou com uma votação massiva, sem chances para os concorrentes. Pela votação muito apertada no segundo turno da categoria principal, Síndromes e Um Século, de Apichatpong Weerasethakul, ganhou uma Menção Honrosa. E foi dada em comum acordo pelo grupo um prêmio de Menção Desonrosa para as inacreditáveis projeções dos filmes de Jia Zhang-ke na Mostra, Still Life (principalmente) e Dong.
Juventude em Marcha de Pedro Costa faturou num segundo turno disputado o título de melhor filme da Mostra. Na categoria revelação quem faturou foi Anche libero va bene, longa de estréia do italiano Kim Rossi Stuart. Como Destaque da Mostra, foi escolhido os Diários de David Perlov e a exibição de De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio. Na categoria de filme brasileiro Andrea Tonacci e o seu Serras da Desordem ganhou com uma votação massiva, sem chances para os concorrentes. Pela votação muito apertada no segundo turno da categoria principal, Síndromes e Um Século, de Apichatpong Weerasethakul, ganhou uma Menção Honrosa. E foi dada em comum acordo pelo grupo um prêmio de Menção Desonrosa para as inacreditáveis projeções dos filmes de Jia Zhang-ke na Mostra, Still Life (principalmente) e Dong.
terça-feira, outubro 31, 2006
Dois indecisos e uma incógnita
O dia do meu aniversário (presentes serão bem-vindos) começou com o último de Alexander Sokurov, O Sol. É melhor que Taurus, ainda que isso não signifique muito. Sokurov insiste com a câmera flutuante, sem que saibamos porque ela está flutuando se esse movimento só faz com que nos irritemos. Tem os belos planos de sempre, principalmente quando o diretor resolve parar de mexer a câmera, mas o filme é um dos maiores convites ao sono que vi nos últimos anos, e não tem a força alegórica que poderia se achar em Moloch e Mãe e Filho. Parece que depois de Arca Russa Sokurov perdeu definitivamente a mão.
Encerrando o dia vi Dia Noite, Dia Noite, de Julia Loktev. Filme que tem uma proposta interessante, e um trabalho de câmera muito bem pensado em seu aparente desleixo. Mas que se acovarda, deixando de ser um filme forte sobre o sacrifício humano e sobre a chegada ao limite para que se dê meia volta.
No meio, uma incógnita: Síndromes e Um Século, filme de Apichatpong Weerasethakul que arrebatou quase todos os amigos, críticos ou não, e que é indiscutivelmente muito bom. Só que é um OVNI, que eu só entenderei depois de umas duas ou três revisões. Ainda não sei se é mesmo uma obra-prima, mas que é imperdível, isso eu sei que ele é. Talvez algum redator se anime a mandar suas impressões por aqui.
Encerrando o dia vi Dia Noite, Dia Noite, de Julia Loktev. Filme que tem uma proposta interessante, e um trabalho de câmera muito bem pensado em seu aparente desleixo. Mas que se acovarda, deixando de ser um filme forte sobre o sacrifício humano e sobre a chegada ao limite para que se dê meia volta.
No meio, uma incógnita: Síndromes e Um Século, filme de Apichatpong Weerasethakul que arrebatou quase todos os amigos, críticos ou não, e que é indiscutivelmente muito bom. Só que é um OVNI, que eu só entenderei depois de umas duas ou três revisões. Ainda não sei se é mesmo uma obra-prima, mas que é imperdível, isso eu sei que ele é. Talvez algum redator se anime a mandar suas impressões por aqui.
domingo, outubro 29, 2006
Still Life
Antes de falar do novo filme de Jia Zhang-ke, um dos mais importantes jovens cineastas do cinema hoje (e vencedor do último festival de Veneza), um aviso a respeito de sua projeção. Sem qualquer aviso prévio, o público foi pego de surpresa por uma cópia tosca, que, além de não estar em película - o filme foi rodado em digital, o que diminui a gravidade da situação - estava em Beta. As cores estão sangrando em diversos momentos, e há até pixelização na tela. Pobre de quem teve que pagar R$15 pela sessão.
Still Life tem momentos brilhantes, como nos melhores filmes de Jia. Especialmente na sua primeira meia-hora, cheia de pequenos achados. Quando Jia faz o movimento para a outra narrativa, o filme decai e perde seu tom por algum tempo. O talento de Jia segue evidente, mas o filme carece de uma força visual que sobrava em Plataforma, Prazeres Desconhecidos ou O Mundo. O trabalho de Yu Lik-wai com o digital ainda é primoroso, aqui atirando para um outro estilo do suporte, mais próximo de uma imagem que se espera dele. O conceito mais forte em torno do filme é o do fim de um caminho, reínicio de outro (nos dois casais em cena, na cidade que agora está submersa e precisa se reeguer). São diversas as imagems de demolição, de uma arquitetura vindo abaixo. É um filme que merece revisão, especialmente porque visto em má condição.
Still Life tem momentos brilhantes, como nos melhores filmes de Jia. Especialmente na sua primeira meia-hora, cheia de pequenos achados. Quando Jia faz o movimento para a outra narrativa, o filme decai e perde seu tom por algum tempo. O talento de Jia segue evidente, mas o filme carece de uma força visual que sobrava em Plataforma, Prazeres Desconhecidos ou O Mundo. O trabalho de Yu Lik-wai com o digital ainda é primoroso, aqui atirando para um outro estilo do suporte, mais próximo de uma imagem que se espera dele. O conceito mais forte em torno do filme é o do fim de um caminho, reínicio de outro (nos dois casais em cena, na cidade que agora está submersa e precisa se reeguer). São diversas as imagems de demolição, de uma arquitetura vindo abaixo. É um filme que merece revisão, especialmente porque visto em má condição.
A bela, os roqueiros, as rappers e outros personagens
Hoje foi dia de rever Belle Toujours, uma obra-prima de Manoel de Oliveira. O curioso é que quando o filme finalmente fica próximo a Buñuel - menos de A Bela da Tarde, mais de um espírito sarcástico-surrealista - , o tempo de corte passa a ser totalmente Oliveira. A cena do jantar, com o silêncio sádico de Piccoli, e a tensão no rosto de Bulle Ogier (uma outra pessoa, afinal), tem a decupagem típica dos filmes do mestre português, mas uma série de procedimentos que rendem uma justa homenagem a Buñuel: a galinha que aparece no corredor, Piccoli presenteando os garçons com dinheiro alheio, o corredor como passagem para o desconhecido, a caixa que comporta um inseto, ou algo que faz o zunido de um inseto. Mas os enquadramentos são Oliveira puro, com sombras e incidências bem marcadas de luz. Além do mais, não há reenquadramentos, como é comum em Buñuel. Oliveira sacou que, para homenagear Buñuel, não era necessário emular sua câmera despojada, mas apenas tirar o máximo de sua própria caligrafia estética, sem fazer grande alarde dessa caligrafia. O melhor filme da Mostra até aqui, ainda que minha teimosia tivesse demorado dois dias para reconhecer.
Ontem vi Mundo Novo, filme bem irregular de Emanuele Crialese, em que os bons momentos se escondem em camadas de pretensão social por vezes irritante. Também vi a grata surpresa Hamaca Paraguaya, rigoroso filme de Paz Encina no qual o único pecado me pareceu ser... não ser rigoroso o suficiente nos últimos vinte minutos de filme, quando os diálogos se tornam desnecessariamente repetitivos. Rigor com repetição não é uma combinação tão fácil de dar certo. Decepcionante foi A Scanner Darkly, de Richard Linklater, filme que raramente se justifica em sua opção pela rotoscopia. Mas parece que estou sozinho dentro da redação da Paisà (pelo menos da que atualiza o blog), já que Guilherme, Filipe e Francisco gostaram bastante. Preferi o tratado sobre a incidência de luz que é Honra de Cavalaria, filme bem simpático de Albert Serra. Tem momentos em que o ritmo, ou a ausência de, causa certo tédio, mas o retrato metafórico de Don Quixote tem força, seja nos enquadramentos desconcertantes, que reforçam a presença da natureza, seja na escuridão parcial que se apodera de alguns planos.
Adorei Antonia, não só o único trabalho que me agrada plenamente de Tata Amaral, como um grande filme. Pouco tenho a acresentar ao que o Francisco disse posts abaixo, a não ser que Thaíde tem um dos melhores desempenhos masculinos do cinema brasileiro recente. Pena que um outro filme brasileiro, 1972, de José Emílio Rondeau, não tenha me provocado o mesmo entusiasmo. Bem longe disso. A música é bacana, a pesquisa iconográfica é primorosa, e sente-se a paixão do casal pelo ambiente roqueiro daqueles anos repressivos (além de Rondeau, Ana Maria Bahiana é a outra cara por traz do projeto). Mas a dramaturgia é paupérrima, jogando por terra o carinho que a câmera revela com os personagens.
Ontem vi Mundo Novo, filme bem irregular de Emanuele Crialese, em que os bons momentos se escondem em camadas de pretensão social por vezes irritante. Também vi a grata surpresa Hamaca Paraguaya, rigoroso filme de Paz Encina no qual o único pecado me pareceu ser... não ser rigoroso o suficiente nos últimos vinte minutos de filme, quando os diálogos se tornam desnecessariamente repetitivos. Rigor com repetição não é uma combinação tão fácil de dar certo. Decepcionante foi A Scanner Darkly, de Richard Linklater, filme que raramente se justifica em sua opção pela rotoscopia. Mas parece que estou sozinho dentro da redação da Paisà (pelo menos da que atualiza o blog), já que Guilherme, Filipe e Francisco gostaram bastante. Preferi o tratado sobre a incidência de luz que é Honra de Cavalaria, filme bem simpático de Albert Serra. Tem momentos em que o ritmo, ou a ausência de, causa certo tédio, mas o retrato metafórico de Don Quixote tem força, seja nos enquadramentos desconcertantes, que reforçam a presença da natureza, seja na escuridão parcial que se apodera de alguns planos.
Adorei Antonia, não só o único trabalho que me agrada plenamente de Tata Amaral, como um grande filme. Pouco tenho a acresentar ao que o Francisco disse posts abaixo, a não ser que Thaíde tem um dos melhores desempenhos masculinos do cinema brasileiro recente. Pena que um outro filme brasileiro, 1972, de José Emílio Rondeau, não tenha me provocado o mesmo entusiasmo. Bem longe disso. A música é bacana, a pesquisa iconográfica é primorosa, e sente-se a paixão do casal pelo ambiente roqueiro daqueles anos repressivos (além de Rondeau, Ana Maria Bahiana é a outra cara por traz do projeto). Mas a dramaturgia é paupérrima, jogando por terra o carinho que a câmera revela com os personagens.