sexta-feira, novembro 16, 2007

A premiação



Foi mais uma premiação brega, como todas as premiações. Mas foi uma das mais divertidas. A confusão parecia estar instalada desde o início, quando Marcelo Tas chamou um tal de Manaus para apresentar o primeiro prêmio, e ninguém subia no palco. Tava esperando alguma representação da cidade, uma fantasia qualquer. Nada. Quebrou o gelo geral, e toda a formalidade se acabou nos primeiros minutos.
O que iria seguir já estava sob o signo de um trem descarrilhado, e isso é muito bom de se ver. É o humano subjugando o ensaiado, a ribalta vencendo o black tie. Um triunfo da brasilidade, tão avessa a formalidades, e completada com pompa pelo inglês Richard Brock, que confundiu mais ainda. E quanto mais ele explicava, mais se enrolava.
Confesso que me comovi com a comoção do Rambo brasileiro (na foto, deitado), que subiu ao palco junto do diretor do curta digital que documenta parte de sua carreira, curta premiado por juri e público. Ele estava se sentindo um astro no palco, e nós vibrávamos com ele, essa figura simpatica que conviveu conosco no Hotel, sempre atencioso, sempre sorridente, sempre pronto para fazer o que dele esperavam, números com sua bazuca artesanal.
Fiquei comovido também com Cristiane Garcia, e as outras pessoas que subiram ao palco para receber o prêmio por Nas Asas do Condor. A emoção deles era contagiante, eles pareciam prestes a explodir. Talvez tudo se amplifique porque a platéia é realmente muito calorosa por aqui. Aplaude com vontade, urra, vibra com cada premiação. Uma festa.
Mas chega de rodeios, e vamos logo aos prêmios.
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Curta digital (público e juri)
A Incrível História de Coti - Rambo de São Jorge, de Anderson Mendes
Curta 35 mm (público)
Nas Asas do Condor, de Cristiane Garcia
Curta 35 mm (juri)
Vida Maria, de Márcio Ramos
Documentário (público)
Navegar Amazônia - Uma Viagem com Jorge Mautner, de Jorge Bodansky e Evaldo Mocarzel
Documentário (juri)
Bushman's Secret, de Rehad Desai e Richard Wicksteed
& Before the Flood, de Jos the Putter
Documentário (Grande Prêmio do Juri)
Jaglavak - Prince of the Insects, de Jérôme Raynaud
Longa de Ficção (público)
O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Ricceli
Longa de Ficção (juri)
Horse Thieves, de Micha Wald
& Assembly, de Feng Xiaogang
Longa de Ficção (Grande Prêmio do Juri)
Sounds of Sand, de Marion Hansel
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Ou seja, apesar dos dois empates terem sido com filmes que, ou não vi (documentários), ou não gostei (longas), o prêmio principal foi para o belo filme da Marion Hansel, aqui representado pelo título em inglês (apesar da produção ser franco/belga). Meu favorito era Lucky Miles, mas o filme da Hansel fica muito bem com o prêmio, que foi bem merecido. Agora é tentar ver alguns outros filmes que passaram por aqui para arrematar a cobertura no site, e fazer um texto mais analítico sobre a posição do Festival e sua proposta, bem como sua programação, na revista impressa que sai entre os dias 10 e 12 de dezembro. Nos vemos por lá.

Far North


O último filme visto no Amazonas Film Festival foi o fraco Far North, dirigido por Asif Kapadia. É um filme inglês, rodado em terras geladas do norte (como o próprio título indica), e cheio de clichês narrativos, desde a câmera lenta para realçar ações extremas até a música new age insuportável que tem seu volume aumentado no clímax. Michele Yeoh comsegue criar algum interesse, mas o desenrolar das situações é extremamente sem graça, e pedia por um diretor com mais habilidade no trato do que poderiam ser saborosas implausibilidades. No filme, elas são apenas infames, e provocam risos amarelos quando deviam apavorar, ou causar um incômodo estranhamento.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Peladão e Jesse James


Hoje foi dia de ver um documentário televisivo bizarro: O Futebol Como Deus Criou - O Peladão do Amazonas, de Albert Knechtel. Produzido para o canal da National Geographic, o filme mostra as semelhanças entre o peladão realizado no estado do Amazonas e o futebol profissional. O peladão consiste em um campeonato enorme em que os times amadores tem que escolher rainhas para os representarem em um campeonato de beleza que corre paralelamente, e às vezes interfere no de futebol. Por mais que se vanglorie de ter uma boa representatividade dos índios, e de ser democrático, também existem acusações de favorecimentos e injustiças. A candidata branca leva mais uma vez o prêmio que a morena índia julgava merecer, e os times de índios sempre levam tapas dos juízes nas partidas decisivas - é o que o filme conta. De sobra, um plano bizarro. Como a rainha ganha um carro zero no final, o filme mostra a morena que pegou o segundo lugar no ponto de ônibus, por ter perdido o carro. Bem ingênuo, mas muito interessante em sua postura abertamente crítica dentro de um painel que parecia ser elogioso.

Também visto O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, de Andrew Dominic, um longo e cansativo "western de arte", que apesar das aparências - e dos adjetivos empregados - é bem competente. Casey Afleck está soberbo como o covarde do título, e um único senão pode ser no carregamento de tintas do personagem de Jesse James, com suas alterações bruscas de humor. Brad Pitt nem sempre dá conta delas, mas quando dá, arrebenta. Samuel Fuller levou pocuo mais da metade do tempo para narrar quase a mesma história, e fez uma obra-prima. Dominik respeita claramente o filme de Fuller, mas parece dialogar mais com o relato escrito - o respeito literário é evidente - sem deixar de apresentar belas composições visuais, especialmente no longo final melancólico. Demora a engrenar, e perde um tempo desnecessário para apresentar os personagens secundários, e por isso sua duração acaba pesando, mesmo com a sensível melhora da segunda metade.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Dira, Boorman, os filmes e os filmes


Dira Paes tinha quinze anos quando passou no teste para um papel em Floresta de Esmeraldas. Aqui, ela reencontra John Boorman, diretor do filme, em um passeio de barco, a caminho do encontro das águas (um dos espetáculos mais fascinantes da natureza). Na mão deles, o diário de filmagens, que na verdade contém todas as etapas do filme, da gestação ao lançamento comercial. No dia seguinte, em outro passeio de barco, desta vez para o sentido contrário, rumo ao norte do Rio Negro, Dira o presenteou com alguns dvds de filmes brasileiros (lembro que 2 Filhos de Francisco, Ó Paí Ó e Celeste e Estrela estavam entre eles).

Últimos filmes vistos:

Assembly, filme grandioso chinês, dirigido por Feng Xiaogang (mesmo diretor de O Banquete). Grandioso demais, eu diria. Muito bem filmado, com a estética atual para filmes de guerra, cortes rápidos e efeitos de montagem que ao mesmo tempo que atenuam a violência, entregam muito mais de seu teor. Ou seja, quando um braço é decepado, a montagem usa um efeito que nunca sei bem qual é, mas que repica a imagem, como um strobble imperceptível. Vemos claramente que o braço é decepado, e como o trabalho de maquiagem é mais realista que antigamente, atenua-se o choque com esse efeito. Não incomoda, ao contrário da panorâmica que é feita em determinado momento para mostrar que um soldado perdeu as duas pernas. O filme melhora quando os anos passam, e as feridas que não sangram começam a se manifestar com mais força. Mas é grandioso demais, pesado demais, com cara de filme dirigido por um comitê investidor.

His Majesty Minor, de Jean-Jacques Annaud, é muito melhor do que eu esperava. Claro, não chega a ser um bom filme. A opção pela parábola e pelo retorno fabulesco aos mitos alterna o tom infantil com um erotismo que parece meio adolescente. Mas é um filme que dá pra ver do início ao fim, o que não se pode dizer de vários filmes de Annaud (a maioria, infelizmente). Antes que me perguntem, salvo dessa maioria Guerra do Fogo e O Urso, dois filmes bem simpáticos)

Si le Vent Soulève les Sables, de Marion Hänsel, é um duro filme rodado na África. Fala das delimitações de territórios que favoreciam os interesses dos colonizadores, nunca das tribos colonizadas. A África se tornou, assim, um continente onde tribos diferentes foram obrigadas a conviver num mesmo país, obedecendo às mesmas regras, o que gerou diversas guerrilhas. Uma família foge de uma dessas guerrilhas, em busca de um lugar melhor para se viver. Enfrenta o deserto gigantesco, mas também exércitos da situação, bem como de rebeldes. cada um toma um filho da família. Uma história que tinha tudo para cair no sentimentalismo, com trilha chorosa, situações catárticas, soluções cinematográficas de quinta. Mas Hänsel, se não é uma diretora de primeira, sabe muito bem conduzir o filme num tom sempre sóbrio, com belos planos - sem ser chamativos para essa beleza - e uma escolha de elenco primorosa. Em uma cena chave, a pequena Shasha tem que percorrer um longo caminho a pé para provar aos rebeldes que o caminho não tem minas explosivas. Como ninguém sabe se o caminho tem minas ou não, o suspense é garantido. E Hänsel filma o trajeto todo de forma seca, sem música, em completo silêncio. É de se corroer de tensão na poltrona. Não sei se desbanca Lucky Miles como o meu favorito entre os filmes de competição, mas é um filme que não merecia ser ignorado como foi durante suas exibições na última Mostra SP.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Manaus entre o fogo e o gelo, e a boa surpresa com Lucky Miles


O primeiro choque foi com o clima. Manaus é tão úmido que faz o Rio de Janeiro - minha referência anterior de umidade - parecer desértico. Mas o ar condicionado é forte em todos os lugares - uma benção.

Duas imagens cinematográficas:

- a vista do encontro das águas do avião, e a vista do Rio Negro depois, chegando já no aeroporto.

- a vista do encontro das águas do barco, intercalada com a vista do belo reencontro de Dira Paes com John Boorman, que a havia revelado em A Floresta das Esmeraldas (que será devidamente revisto até o final do festival).

Traduzir em palavras essas duas experiências seria uma traição, portanto, vamos aos filmes.

(devo comentar o reencontro entre a atriz e o diretor em um dos posts futuros)

Até agora pude ver apenas dois. O primeiro é o novo de Carlos Alberto Ricceli, O Signo da Cidade. Já apelidado de Crash brasileiro - infelizmente falo do filme de Paul Haggis, não da obra-prima do Cronenberg. O filme até que engana nos primeiros quinze minutos. Depois é um festival de frases de efeito e cartilha do "bem filmar" que joga a pretensão absurda do filme por terra. Aviso: vi o filme lutando contra o sono, logo, não estava em condições de elaborar algo minimamente crítico a respeito dele. Mas me pareceu uma bomba de proporções gigantescas, com fotografia lavada e péssimas soluções dramatúrgicas.

Hoje a coisa melhorou um bocado. Lucky Miles é a surpreendente estréia de Michael James Rowland, diretor nascido na Austrália, mas radicado na Coréia do Sul, com uma história de imigrantes ilegais que se aventuram pelo deserto australiano. Com ritmo surpreendente, direção muito bem levada e momentos cômicos, o filme se constrói como uma divertida parábola ( o filme realmente decola quando sobram um cambojano, um iraquiano e um indonésio ) sobre a tolerância e a camaradagem. Os ahados espertinhos não incomodam, pelo contrário. Em um dos momentos, a câmera assume rapidamente o ponto de vista de um lagartão, arrancando risadas da platéia. Em outro, o ponto de vista é de um jipe, que escorrega para um lago. São poucos os momentos em que acontece esse tipo de truque, e talvez por isso eles funcionem tão bem. São inesperados, e estão a serviço da narrativa. Faz parte da proposta humorística essa alternância da subjetividade da câmera. Foi o segundo choque do Festival - mais pela baixíssima expectativa. Entrei pronto para festejar se o filme fosse assistível, e no final estava comemorando por ter visto um pequeno belo filme.

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