quarta-feira, junho 20, 2007
A obra-prima chamada Andarilho
Se minha torcida em futebol fosse tão forte quanto a de ontem, meu time teria muito menos problemas. Não é que o filmaço que eu estava torcendo para ver no cinema mineiro atual apareceu ontem, de um diretor que pode ser considerado uma espécie de guru para a nova geração de cineastas experimentais do estado, Cao Guimarães. Um filme que acredita no poder de um plano, na extensão desse plano até que sua geometria fique evidente na tela - basta notar o fantástico plano final, com suas linhas e divisões, e o tempo de sua duração. Andarilho encerrou a 2ª. Mostra de Ouro Preto nos dando a certeza de que muita vibração positiva saiu da cidade histórica, seja pelos debates, sempre muito interessantes e esclarecedores, seja pela seleção afiada de curtas e longas. O filme de Cao Guimarães dialoga com a produção recente de Minas Gerias, e por mais que eles neguem, é bobeira não se aproveitar de algumas características em comum para que se gere um movimento. Acredito que Minas, e o Brasil, por consequência, só têm a ganhar capitalizando as semelhanças e realçando as diferenças nos filmes, deixando que os críticos se debrucem sobre as conexões possíveis, e vendo como elas se harmonizam, ou não, dentro de cada filme em particular. Também ficou claro em Ouro Preto que a aposta que já rendia bons frutos em Tiradentes - uma aposta pela reflexão e pelo cinema acima de tudo, acima de badalações e frivolidades -, encontrou uma fórmula quase perfeita, e que por isso mesmo deve ser constantemente retrabalhada para que não vire uma fórmula engessante, e sim um caminho a seguir. Andarilho, assim, coroa essa opção corajosamente, provando que ainda podemos esperar muito de nosso cinema. A prova é a recepção calorosa de grande parte do público, mesmo sendo um filme pouco acessível ao público comum. Mais sobre ele no final do mês, no texto final da mostra.
Todos os filmes recentes exibidos na 2ª. Mostra de Ouro Preto, em ordem de preferência e as onipresentes estrelinhas:
(itálico indica que o filme já havia sido visto anteriormente)
Andarilho, de Cao Guimarães * * * * *
Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca * * * * *
Jonas e a Baleia, de Felipe Bragança (curta) * * * *
Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim * * *
Person, de Marina Person * * *
Trecho, de Helvécio Marins (curta) * * *
Heleza Zero, de Joel Pizzini (curta) * * *
Vai Indo que Eu Já Vou, de Rubem Barros e Marcelo Perez (curta) * * *
A Chuva nos Telhados Antigos, de Rafael Conde (curta) * * *
Joyce, de Caroline Leone (curta) * * *
À Plenos Pulmões, de Patricia Moran (curta) * * *
Bolo de Morango, de Júlia Jordão (curta) * *
Santiago, de João Moreira Salles * *
Pugile, de Danilo Solferini (curta) * *
Tori, de Andrea Midori Simão e Quelany Vicente (curta) * *
Outono, de Pablo Lobato (curta) * *
Baixio das Bestas, de Cláudio Assis * *
Descaminhos, de Marilia Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, João Flores, Maria de Fátima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud * *
Cidade Dual, de Leo Ayres *
O Caminho do Homem, de Chico de Paula *
Sol de Amén, de Ives Albuquerque (curta) *
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomas Farkas e Ricardo Dias (curta) *
Proibido Proibir, de Jorge Duran *
Filmes dos anos 50 exibidos em Ouro Preto
(itálico indica os que foram vistos antes da Mostra)
Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos * * * * *
O Grande Momento, de Roberto Santos * * * *
Tudo Azul, de Moacyr Fenelon * * * *
Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos * * *
O Saci, de Rodolfo Nanni * * *
Todos os filmes recentes exibidos na 2ª. Mostra de Ouro Preto, em ordem de preferência e as onipresentes estrelinhas:
(itálico indica que o filme já havia sido visto anteriormente)
Andarilho, de Cao Guimarães * * * * *
Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca * * * * *
Jonas e a Baleia, de Felipe Bragança (curta) * * * *
Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim * * *
Person, de Marina Person * * *
Trecho, de Helvécio Marins (curta) * * *
Heleza Zero, de Joel Pizzini (curta) * * *
Vai Indo que Eu Já Vou, de Rubem Barros e Marcelo Perez (curta) * * *
A Chuva nos Telhados Antigos, de Rafael Conde (curta) * * *
Joyce, de Caroline Leone (curta) * * *
À Plenos Pulmões, de Patricia Moran (curta) * * *
Bolo de Morango, de Júlia Jordão (curta) * *
Santiago, de João Moreira Salles * *
Pugile, de Danilo Solferini (curta) * *
Tori, de Andrea Midori Simão e Quelany Vicente (curta) * *
Outono, de Pablo Lobato (curta) * *
Baixio das Bestas, de Cláudio Assis * *
Descaminhos, de Marilia Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, João Flores, Maria de Fátima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud * *
Cidade Dual, de Leo Ayres *
O Caminho do Homem, de Chico de Paula *
Sol de Amén, de Ives Albuquerque (curta) *
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomas Farkas e Ricardo Dias (curta) *
Proibido Proibir, de Jorge Duran *
Filmes dos anos 50 exibidos em Ouro Preto
(itálico indica os que foram vistos antes da Mostra)
Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos * * * * *
O Grande Momento, de Roberto Santos * * * *
Tudo Azul, de Moacyr Fenelon * * * *
Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos * * *
O Saci, de Rodolfo Nanni * * *
terça-feira, junho 19, 2007
Seminário com alguns cineastas mineiros
Terminou há pouco um seminário dos mais instigantes, sobre as estéticas (no plural, como bem definiu Cléber Eduardo) que permeiam alguns dos recentes filmes produzidos no estado de Minas Gerais. As falas foram do mais ríspido (Helvécio Marins) ao mais polido (Rafael Conde), mas o que ficou claro é que quase todos, alguns por motivos distintos, se incomodam com uma tendência à classificação que, segundo eles, coloca a todos em uma caixinha. Helvécio disse que isso não existe nem nunca existiu com o cinema carioca ou o paulista, o que não é bem a verdade. Existe uma série de classificações impostas, às vezes sem muito rigor ou justiça, aos filmes produzidos no Rio de Janeiro, que ultimamente tem a predominância da comédia de costumes com padrão da Globo Filmes. Com a maior participação da O2, e a associação desta e de outras produtoras de São Paulo ou Rio com a Globo Filmes ou majors (Fox, Buena Bista, Columbia), existe hoje uma certa conformidade de estilo que apenas às vezes se liberta de uma prisão do gosto médio imposto por esse padrão de cinema industrial pregado pelos executivos dessas grandes distribuidoras. A caixinha de Minas Gerais pelo menos é mais digna, ainda que sua produção seja irregular, e que fique claro, ainda mais depois do seminário de hoje, que os diretores mineiros tem muito mais o que dizer e mostrar do que a maioria de seus filmes sugerem. Isso dito, por mais que dê para identificar momentos de pura invenção e inquietação em filmes como Samba-canção, Acidente e Trecho, para ficar só nos que mais me agradam, ainda percebe-se uma certa insegurança, um certo tatear de caminhos que, espero, dê muitos bons frutos num futuro próximo. Daqui a pouco tem Andarilho, o novo filme de Cao Guimarães (de Acidente). Torço muito para que finalmente seja um filme mineiro digno da herança assumida de Carlos Alberto Prates Correia (Cabaret Mineiro, Perdida, Minas Texas), já que Descaminhos decepcionou, até mesmo por ter um início (o primeiro epísódio) impressionante e promissor. Como muito bem disse Cao Guimarães no seminário, o filme parece mesmo sofrer um descaminho com o passar dos episódios, e, por incrível que pareça, esse descaminho talvez venha da incrível simbiose entre episódios tão distintos.
O Saci
Ontem houve reexibição de O Saci, filme de uma das estrelas da Mostra - no sentido da animação contagiante e da lição de simpatia -, Rodolfo Nanni. Engraçado que Nanni, no primeiro seminário, havia dito que se ofereceu para trabalhar na Vera Cruz, mas Franco Zampari lhe disse que ele só fazia filme de criança. Engraçado porque o filme tem um certo artificialismo nos diálogos que muito se assemelham aos que eram padrão nos filmes da produtora de São Bernardo, ainda que ele se coloque naturalmente entre os melhores feitos por lá. Muito bacana ver os personagens que ilustraram a infância de muita gente na pele de outros atores. E o filme ainda nos coloca muito bem na atmosfera de magia do sítio do pica-pau amarelo.
segunda-feira, junho 18, 2007
Cidade Dual e Santiago
Ontem foi dia dos documentários problemáticos. Primeiro, Cidade Dual, de Leo Ayres (produtor dos videos-jornais da Mostra. O filme faz uma contraposição óbvia entre a vida em uma comunidade de classe média alta e uma pobre, relatando problemas existentes dos dois lados, e comparando as situações dentro de um panorama social que pretende ser amplo. Além da ingenuidade da estrutura, há ainda planos discutíveis, sendo o pior de todos aquele que tem o depoimento da mãe com o filho deficiente mental em primeiro plano. A cena provoca risadas da platéia, e a simples inclusão desse enquadramento sugere, como disse o amigo Marcelo Miranda, uma de duas coisas: ou o diretor foi extremamente ingênuo de deixar a cena mesmo sabendo de sua possibilidade enviezadamente cômica para as platéias atuais, que adoram rir de qualquer coisa no cinema; ou pior, a intenção mesmo de fazer graça. Acredito piamente na primeira opção, pois a segunda jogaria por terra a opção estrutural do filme, e deixaria de ser ingenuidade para ser outra coisa. Vale dizer ainda que alguns momentos são interessantes, especialmente no rap social perto do final do filme.
Santiago é um pouco mais complicado, e deve ser mais explorado por mim mesmo numa crônica-ensaio que pretendo escrever para a próxima edição da Paisà. Mas adianto que me incomodou a opção de João Moreira Salles de se assumir cruel e manipulador, usando seu mordomo como pura marionete de seus desejos autorais. Não sei até que ponto esse incômodo me afasta do filme, que tem, sim, vários momentos a se reter. Mas confesso que achei que o artifício resvala na demagogia, na exposição do arrependimento. De qualquer forma, eu só poderia escrever mais detidamente sobre o filme após uma revisão, ou duas. Mas não é o ideal para qualquer exercício crítico?
Santiago é um pouco mais complicado, e deve ser mais explorado por mim mesmo numa crônica-ensaio que pretendo escrever para a próxima edição da Paisà. Mas adianto que me incomodou a opção de João Moreira Salles de se assumir cruel e manipulador, usando seu mordomo como pura marionete de seus desejos autorais. Não sei até que ponto esse incômodo me afasta do filme, que tem, sim, vários momentos a se reter. Mas confesso que achei que o artifício resvala na demagogia, na exposição do arrependimento. De qualquer forma, eu só poderia escrever mais detidamente sobre o filme após uma revisão, ou duas. Mas não é o ideal para qualquer exercício crítico?
domingo, junho 17, 2007
O René Clair brasileiro
No blog do Inácio Araujo houve uma comparação de um filme atual, Um Lugar na Platéia, de Daniele Thompson, com os filmes de René Clair. Pois a comparação me parece muito mais pertinente se for realizada com Tudo Azul, de Moacyr Fenelon. O filme de 1951 foi restaurado em 2004, e alguns diálogos que estavam perdidos foram redublados com o auxílio de deficientes auditivos que fizeram leitura labial. Trata-se de um experimento livre a quase anárquico, adiantado para 1951, com direito a beijo de boca aberta, adultério consentido pela esposa, repetidas sugestões de que a outra pessoa deveria se suicidar, e outras liberdades. A enorme seqüência de números musicais cansa um pouco no final, mas não chega a atrapalhar a fruição desse belo filme.
Seminário: Anos 50 - Transição para o Moderno
O primeiro seminário da Mostra de Ouro Preto permitiu experiências essenciais: a divulgação de informação com a melhor didática possível - o que é natural, pois todos na mesa têm experiência como professor; a reorganização de idéias permitida por um novo contato com informações já antes lidas e apreendidas; e a discussão proporcionada pela declaração de Nelson Pereira dos Santos de que ele não fazia parte do cinema novo, e nunca fez. Se pensarmos bem, são apenas dois ou três filmes que poderiam ser naturalmente entendidos como parte daquele momento chave. Mas parecia impossível dissociar o cinema desse grande autor do movimento encabeçado por Glauber Rocha. Esse pensamento, norteado pela declaração do Nelson, foi explorado ou pelo menos comentado em quase todas as falas. O curador Cléber Eduardo, que estava mediando o seminário,foi hábil em ter deixado as duas falas menos pesquisadas e elaboradas para o final. Assim, as falas elucidativas e brilhantes de Luis Alberto Rocha Melo, José Carlos Avellar e Arthur Autran receberam um contraponto interessante com as falas mais soltas e baseadas na experiência de Inácio Araujo e Daniel Caetano. A fala de Rocha Melo centrou-se na carreira de Alinor Azevedo, fundador da Atlantida e importante roteirista do período. Alinor era considerado o Zavattini brasileiro, em alusão a um dos mais influentes escritores do neo realismo italiano. Autran falou da produção crítica do período, fazendo um recuo aos anos 40 e uma ponte aos 60 e destacando o trabalho de Alex Viany e Antonio Moniz Viana. Avellar fez uma interessante observação sobre a involução que o cinema sonoro apresnetou até os anos 50, com a música servindo apenas como reforço das emoções, e não oferecendo um contraponto às imagens. Nesse sentido, segundo Avellar, ele estaria se limitando a algo que Eisenstein fazia sem som, com o simples bater de ondas nas rochas. Obviamente a ponte com o cinema contemporâneo foi inevitável, já que ainda hoje a trilha sonora é usada quase que exclusivamente para o mesmo sentido de atribuir a emoção que a imagem por si só não conseguiria, o que é lamentável e limitador na maior parte do cinema comercial de hoje. Caetano divagou em torno de sua amizade com Nelson Pereira, e a partir daí ofereceu muitas possibilidades de reflexão, algumas a partir de seus próprios pensamentos, outras a partir do que está na cabeça do Nelson. Inácio fez, como de hábito, uma fala simples e solta, uma delícia para encerrar o debate, com muita opinião e propriedade. Como brinde, ainda tivemos a presença, no finalzinho, do diretor de O Saci, Rodolfo Nanni, simpático e alegre octagenário. A parceria da Universo Produção com o curador Cléber Eduardo parece finalmente ter atingido o ponto com esta 2ª. Mostra de Ouro Preto. Se em Tiradentes a aposta havia sido na reflexão sobre uma certa contemporaneidade, e os debates, apesar de muito prestigiados, haviam decepcionado um pouco, pois era esperado uma maior discussão estética que só veio em parte, aqui a coisa parece ter começado com o pé direito, com doses iguais de sabedoria, didatismo e desejo de transmitir e dividir o repertório demonstrado pelos participantes.