sábado, janeiro 13, 2007
Uma sessão inspirada
Ontem eu estava extremamente cansado por andanças debaixo de um sol seco e forte no dia anterior, além de uma noite mal dormida - pois fiquei esperando uma van imaginária que me levaria a São Paulo para ver Cartas de Iwo Jima, e essa van, como eu devia ter desconfiado, era mesmo imaginária. Resultado: nova cabine perdida. Resolvi dormir mais um pouco e, depois do almoço, descansar no hotel, já que a sessão de curtas era com filmes de outros tempos. Nada contra os tais outros tempos, ainda mais que o primeiro da sessão seria o belo Aruanda; mas eu não estava no clima para ver filmes tão díspares do restante do festival. Melhor me preparar mentalmente para a aguardada sessão das oito.
Realmente, foi uma sessão primorosa, que começou com o delicado e emotivo Tinha a Gata Gioconda, e terminou com o quase genial Eletrodoméstica. No meio, belos filmes como A Resistência do Vinil e No Princípio era o Verbo, além das experiências, no mínimo, alentadoras de Deu no Jornal e De Glauber para Jirges. Sobre o último, apesar do inevitável interesse que provoca, senti uma incômoda sensação de facilidade, pois seria quase impossível fazer um filme com esse tema (as cartas trocadas entre Jirges Ristum, pai do diretor, André Ristum, e Glauber Rocha) que não fosse ao menos bom de se ver. A montagem de Eryk Rocha acentua a semelhança com o superior A Rocha que Voa, e isso contribuiu para que minhas impressões viessem enviezadas, cheias de ressalvas, apesar de eu ter curtido o filme. Sobre Deu no Jornal, acho o tipo de filme que não melhora na revisão, mas que também não pode ser desprezado como simples piada. Porque de fato nem é uma piada, mas um crescendo de idéias que só podia terminar em gozo. A coragem de realizar o único final digno é o maior mérito do filme. Tinha a Gata Gioconda é uma delícia de se ver, e um pensamento bem claro por trás de sua realização; e A Resistência do Vinil me provocou reações emocionadas, por ser um tema tão próximo de mim (venda e coleção de vinis). Por isso não sei se tenho condições de analisá-lo de modo mais frio, ou de realizar uma breve crítica. Mas ficou evidente o excelente trabalho de edição, dando um sentido especial ao desenvolvimento das entrevistas, e ao clima de decadência de um tipo de cultura, a das lojas de discos, que promovem encontros apaixonados e atraem tanta gente carente.
Chegamos então às duas pepitas da sessão: No Princípio Era O Verbo e Eletrodomésticas. O primeiro é uma tocante ode à palavra, e ao conversar livremente, à transmissão de sabedoria, à troca de conhecimento, desde os mais embasados até os chutes, as lendas. Muito do que se diz no filme parece estar ali apenas para tornar mais clara a importância dos encontros, a necessidade do contato com outras pessoas. Há uma tensão evidente no menino que entra dentro de uma caixa e sai atravessando ruas e praças debaixo dela, até chegar ao bar onde se desenvolve a maior parte do filme. São pequenos encontros, pessoas que aprendem com o outro, aprendem com a necessidade de negar o outro, com a saudável arte da discussão, com a transmissão de valores, de crenças...um filme a que se deve voltar com mais freqüência. Eletrodoméstica empolga com seu estranhamento tão típico da observação das pequenas coisas, dos detalhes do cotidiano. Um estranhamento causado também pela falta de vergonha em se assumir como um filme de representação de observações, mais do que de desenvolvimento de narrativas. Kleber Mendonça Filho confirmou hoje, em debate com os realizadores, seu desinteresse pelo compromisso de contar uma história. Porque sabe que a vida não é feita de histórias, mas de pequenos detalhes, gestos que normalmente passam despercebidos, mas que dão dimensão psicológicas às pessoas. Por que não falar em personagens? Não seria o caso de negar a narrativa, a necessidade da trama, mas de mostrar que as pessoas são personagens, logo, os personagens devem ser pessoas. Claro, a menos que o desejo seja fazer filmes de gênero, ou entretenimento clássico ficcional com ou sem profundidade psicológica. O que é inegável, é que tanto em No Princípio era O Verbo quanto em Eletrodoméstica, o que temos é a noção mais rica possível de um ser humano, pelo simples ato de se abrir a eles, de tentar entendê-los sem defrontá-los com grandes dramas da vida. Essas pessoas podem ser grandes mesmo nas pequenas coisas do dia-a-dia, e é nessas pequenas coisas, e no modo como elas podem ser observadas, que reside boa parte do encanto que elas podem exercer.
Realmente, foi uma sessão primorosa, que começou com o delicado e emotivo Tinha a Gata Gioconda, e terminou com o quase genial Eletrodoméstica. No meio, belos filmes como A Resistência do Vinil e No Princípio era o Verbo, além das experiências, no mínimo, alentadoras de Deu no Jornal e De Glauber para Jirges. Sobre o último, apesar do inevitável interesse que provoca, senti uma incômoda sensação de facilidade, pois seria quase impossível fazer um filme com esse tema (as cartas trocadas entre Jirges Ristum, pai do diretor, André Ristum, e Glauber Rocha) que não fosse ao menos bom de se ver. A montagem de Eryk Rocha acentua a semelhança com o superior A Rocha que Voa, e isso contribuiu para que minhas impressões viessem enviezadas, cheias de ressalvas, apesar de eu ter curtido o filme. Sobre Deu no Jornal, acho o tipo de filme que não melhora na revisão, mas que também não pode ser desprezado como simples piada. Porque de fato nem é uma piada, mas um crescendo de idéias que só podia terminar em gozo. A coragem de realizar o único final digno é o maior mérito do filme. Tinha a Gata Gioconda é uma delícia de se ver, e um pensamento bem claro por trás de sua realização; e A Resistência do Vinil me provocou reações emocionadas, por ser um tema tão próximo de mim (venda e coleção de vinis). Por isso não sei se tenho condições de analisá-lo de modo mais frio, ou de realizar uma breve crítica. Mas ficou evidente o excelente trabalho de edição, dando um sentido especial ao desenvolvimento das entrevistas, e ao clima de decadência de um tipo de cultura, a das lojas de discos, que promovem encontros apaixonados e atraem tanta gente carente.
Chegamos então às duas pepitas da sessão: No Princípio Era O Verbo e Eletrodomésticas. O primeiro é uma tocante ode à palavra, e ao conversar livremente, à transmissão de sabedoria, à troca de conhecimento, desde os mais embasados até os chutes, as lendas. Muito do que se diz no filme parece estar ali apenas para tornar mais clara a importância dos encontros, a necessidade do contato com outras pessoas. Há uma tensão evidente no menino que entra dentro de uma caixa e sai atravessando ruas e praças debaixo dela, até chegar ao bar onde se desenvolve a maior parte do filme. São pequenos encontros, pessoas que aprendem com o outro, aprendem com a necessidade de negar o outro, com a saudável arte da discussão, com a transmissão de valores, de crenças...um filme a que se deve voltar com mais freqüência. Eletrodoméstica empolga com seu estranhamento tão típico da observação das pequenas coisas, dos detalhes do cotidiano. Um estranhamento causado também pela falta de vergonha em se assumir como um filme de representação de observações, mais do que de desenvolvimento de narrativas. Kleber Mendonça Filho confirmou hoje, em debate com os realizadores, seu desinteresse pelo compromisso de contar uma história. Porque sabe que a vida não é feita de histórias, mas de pequenos detalhes, gestos que normalmente passam despercebidos, mas que dão dimensão psicológicas às pessoas. Por que não falar em personagens? Não seria o caso de negar a narrativa, a necessidade da trama, mas de mostrar que as pessoas são personagens, logo, os personagens devem ser pessoas. Claro, a menos que o desejo seja fazer filmes de gênero, ou entretenimento clássico ficcional com ou sem profundidade psicológica. O que é inegável, é que tanto em No Princípio era O Verbo quanto em Eletrodoméstica, o que temos é a noção mais rica possível de um ser humano, pelo simples ato de se abrir a eles, de tentar entendê-los sem defrontá-los com grandes dramas da vida. Essas pessoas podem ser grandes mesmo nas pequenas coisas do dia-a-dia, e é nessas pequenas coisas, e no modo como elas podem ser observadas, que reside boa parte do encanto que elas podem exercer.
A última sessão competitiva
A última sessão de exibição de curtas-metragens em competição, ocorrida na noite de ontem aqui em Atibaia, pode tranquilamente ser considerada a melhor até aqui. As grandes estrelas do festival - e que, provavelmente, abocanharão boa parte dos prêmios - foram guardadas para o final, o que costuma ser praxe nesse tipo de evento. Porém, a qualidade dos filmes exibidos não chegou a ser nenhuma surpresa. Dos quatro curtas em 35 mm, eu já conhecia dois e tinha boas referências dos demais. Fizeram parte da sessão: De Glauber para Jirges, de André Ristum (cujo 14 Bis já havia sido exibido na noite anterior, fora de competição), No Princípio era o Verbo, de Virgínia Jorge, Deu no Jornal, de Yanko Del Pino e Eletrodomésticas, de Kleber Mendonça Filho. Compondo a seleção de vídeos, nesta mesma sessão, estiveram presentes: Tinha a Gata Gioconda, único curta atibaiense em competição, de Ivan Spacek; Lectures, curta realizado com uma câmera de celular por Consuelo Lins; A Resistência do Vinil, de Eduardo Castro.
Dentre os vídeos, vale dar destaque para o documentário A Resistência do Vinil. Talvez o Sérgio possa comentar com mais propriedade sobre ele, ou pelo menos, sob um viés mais emotivo. Mas vamos lá. O que há de legal nesse vídeo: 1) O ritmo é ótimo. Deu para sacar que o diretor tinha muito material para pouco tempo. Pois ele não ficou enrolando, botou os caras para falar; 2) Havia um envolvimento pessoal do autor com seu projeto, além de vivência e conhecimento sobre o tema, o que contribuiu para a seleção das pessoas certas e das informações mais interessantes; 3) Falar de música e discos de vinil sempre é algo que cativa.
O curta autobiográfico de André Ristum é uma bela composição de imagens que tem como pano de fundo a leitura de parte da correspondência enviada por Glauber Rocha a Jirges Ristum, enquanto este morou na Europa com a família. Já havia visto este filme no Festival de Curtas de São Paulo e gostado. As cenas recuperadas dos arquivos pessoais do cineasta são, com certeza, as mais interessantes, e são também decisivas para que ele alcance o tom saudosista que parece ter como propósito.
Deu no Jornal é um filme-sacada. Uma animação realizada com uma técnica de animação muito simples (desenhos feitos à caneta sobre o jornal), mas que consegue se resolver muito bem em sua proposta estética.
No Princípio era o Verbo e Eletrodomésticas foram os dois melhores curtas apresentados na sessão. Embora, a princípio, pareçam muito diferentes em suas propostas, têm aspectos em comum que os colocam entre os grandes curtas brasileiros do último ano. Em primeiro lugar, apostam em seus personagens e conseguem fazê-los brilhar em situações que não se colocam dentro de um eixo sobre o qual a história é contada de forma esperada e previsível. Pelo contrário, não sentem nenhum receio em abandonar essas amarras para se construirem principalmente dos grandes momentos que concedem a seus personagens. Se um dos dois trabalhos ganharem o grande prêmio, o Festival de Atibaia poderá, talvez, se redimir da grande frustração que foi conceder o prêmio principal, em 2006, a O Princípio do Fim do Mundo de Gustavo Spolidoro, em detrimento de Vinil Verde, também de Kleber Mendonça.
Dentre os vídeos, vale dar destaque para o documentário A Resistência do Vinil. Talvez o Sérgio possa comentar com mais propriedade sobre ele, ou pelo menos, sob um viés mais emotivo. Mas vamos lá. O que há de legal nesse vídeo: 1) O ritmo é ótimo. Deu para sacar que o diretor tinha muito material para pouco tempo. Pois ele não ficou enrolando, botou os caras para falar; 2) Havia um envolvimento pessoal do autor com seu projeto, além de vivência e conhecimento sobre o tema, o que contribuiu para a seleção das pessoas certas e das informações mais interessantes; 3) Falar de música e discos de vinil sempre é algo que cativa.
O curta autobiográfico de André Ristum é uma bela composição de imagens que tem como pano de fundo a leitura de parte da correspondência enviada por Glauber Rocha a Jirges Ristum, enquanto este morou na Europa com a família. Já havia visto este filme no Festival de Curtas de São Paulo e gostado. As cenas recuperadas dos arquivos pessoais do cineasta são, com certeza, as mais interessantes, e são também decisivas para que ele alcance o tom saudosista que parece ter como propósito.
Deu no Jornal é um filme-sacada. Uma animação realizada com uma técnica de animação muito simples (desenhos feitos à caneta sobre o jornal), mas que consegue se resolver muito bem em sua proposta estética.
No Princípio era o Verbo e Eletrodomésticas foram os dois melhores curtas apresentados na sessão. Embora, a princípio, pareçam muito diferentes em suas propostas, têm aspectos em comum que os colocam entre os grandes curtas brasileiros do último ano. Em primeiro lugar, apostam em seus personagens e conseguem fazê-los brilhar em situações que não se colocam dentro de um eixo sobre o qual a história é contada de forma esperada e previsível. Pelo contrário, não sentem nenhum receio em abandonar essas amarras para se construirem principalmente dos grandes momentos que concedem a seus personagens. Se um dos dois trabalhos ganharem o grande prêmio, o Festival de Atibaia poderá, talvez, se redimir da grande frustração que foi conceder o prêmio principal, em 2006, a O Princípio do Fim do Mundo de Gustavo Spolidoro, em detrimento de Vinil Verde, também de Kleber Mendonça.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Sessão de abertura (com atraso) e sessão alemã
Mesmo tendo chegado apenas na quarta-feira em Atibaia, ontem pela manhã pude assistir à sessão de curtas-metragens exibidos na terça-feira à noite, primeiro dia de festival. Os trabalhos em 35 mms já eram relativamente velhos conhecidos, pelo menos para o pessoal que acompanhou a Mostra de Curtas de São Paulo em 2006. A sessão de películas estava assim: Yansan, de Carlos Eduardo Nogueira (um dos quatro curtas brasileiros selecionados em Clermont Ferrand); Joyce, de Carolina Leone; O som da luz e do trovão, de Petrônio Lorena e Tiago Scorza e Dos restos e solidões de Petrus Cariri. Quanto aos vídeos, na mesma sessão que os curtas acima citados, foram exibidos: Grinalda, um vídeo-improviso de Erly Vieira Jr; a animação Tem um dragão no meu baú, de Rosária Ferreira; e o documentário Arquitetos do mar.
Yansan acabou se destacando dos demais exatamente pelo seu caráter de "super-produção". O maior trunfo do filme é exatamente o domínio das técnicas formais do gênero animação, embora não deixe de resultar interessante a maneira como o autor usa o colorido estonteante das imagens em contraste com o tom sombrio e apocalíptico da narrativa em off de Milton Gonçalves.
O mérito de melhor filme exibido na sessão, porém, vai mesmo para o filme de Carolina Leone. A principal característica de Joyce é o fato de ele imergir totalmente no universo de sua personagem principal, uma garota de aproximadamente 12 anos. Joyce vive numa favela paulistana e o que filme mostra é apenas um curto período de tempo em sua vida. Apenas um final de tarde e uma noite são suficientes para que saibamos quem é a garota, do que ela gosta, como é sua rotina, como é sua relação com a família. Acompanhando sua trajetória, num determinado momento, nos pegamos completamente apaixonados por ela. Uma das grandes virtudes de uma obra cinematográfica é conseguir instigar o amor dos espectadores por seus personagens, para o bem ou para o mal. Mais do que apenas atestar a força e o poder de suas imagens, permitir que seus personagens, por piores que sejam, possam ser cativantes e, por que não, amados, é uma demonstração de sensibilidade e altruísmo que está presente em quase todos os grandes filmes. Voltando à Joyce, Carolina Leone permite que sua obra seja grande nesse sentido; sua personagem é forte porque a ela foi dada a chance de existir independentemente de amarras formais. E isso significa, existir a partir de sentimentos vivos e não enjaulados e pré-formatados. Vale não deixar de falar da cena mais bonita do filme (e que consegue sintetizá-lo tão despretensiosamente): um plongée mostra Joyce e a irmã dançando e cantando uma música em frente à tv (por acaso, um funk). Simples, porém não poderia ser mais emblemática em relação ao que o curta se propõe a ser. Nele, Joyce é mostrada, acima de tudo, como uma garota de 12 anos que pode dançar e cantar num microfone em frente à tv sem que isso seja ou signifique mais do que a reação normal de uma garota de 12 anos. Não há imposições por parte do filme para que a garota seja mais do que isso.
Quanto aos curtas alemães, sobre os quais o Sérgio me incumbiu de falar no post abaixo, devo dizer que os assisti, porém não numa situação muito favorável. O sistema de vídeo usado pelos alemães é o Pal-M, incompatível com o nosso NTSC, por isso, os filmes, que estavam em vídeo, foram projetados em preto-e-branco e alguns sem legendas. Tudo isso somado à péssima qualidade de som proporcionada pela improvisada sala de projeção do Centro de Convenções de Atibaia. Enfim...
Só para esclarecer, nem todos os curtas exibidos eram alemães, alguns eram belgas, mas todos estiveram presentes no Festival Internacional de Emden, Alemanha, em 2006 – aliás, Atibaia cada vez mais consolida seu perfil de festival que se caracteriza muito mais pela retrospectiva de títulos marcantes que surgiram durante o ano, do que por apresentar novidades ao panorama audiovisual brasileiro (título que, aliás, o Festival de Brasília reivindica a qualquer custo).
Mas, indo ao que interessa de fato, foi uma sessão cujos filmes apresentaram qualidade e teor de inventividade não mais do que medianos. As surpresas da exibição ficaram por conta dos curtas (todos alemães) Clube de Chicxu (Chicxulub), O dilema (Einstimmige Entscheidung) e da animação Kater (já exibida aqui no Brasil no Festival Anima-mundi). No geral, o nível dos curtas exibidos não pode, de forma alguma, ser considerado muito superior à produção brasileira. Se uma seleção dos melhores filmes nacionais exibidos no Festival Internacional de Curtas de São Paulo fosse feita, por exemplo, certamente nossas obras não deixariam nada a desejar ao conjunto que vi ontem.
Yansan acabou se destacando dos demais exatamente pelo seu caráter de "super-produção". O maior trunfo do filme é exatamente o domínio das técnicas formais do gênero animação, embora não deixe de resultar interessante a maneira como o autor usa o colorido estonteante das imagens em contraste com o tom sombrio e apocalíptico da narrativa em off de Milton Gonçalves.
O mérito de melhor filme exibido na sessão, porém, vai mesmo para o filme de Carolina Leone. A principal característica de Joyce é o fato de ele imergir totalmente no universo de sua personagem principal, uma garota de aproximadamente 12 anos. Joyce vive numa favela paulistana e o que filme mostra é apenas um curto período de tempo em sua vida. Apenas um final de tarde e uma noite são suficientes para que saibamos quem é a garota, do que ela gosta, como é sua rotina, como é sua relação com a família. Acompanhando sua trajetória, num determinado momento, nos pegamos completamente apaixonados por ela. Uma das grandes virtudes de uma obra cinematográfica é conseguir instigar o amor dos espectadores por seus personagens, para o bem ou para o mal. Mais do que apenas atestar a força e o poder de suas imagens, permitir que seus personagens, por piores que sejam, possam ser cativantes e, por que não, amados, é uma demonstração de sensibilidade e altruísmo que está presente em quase todos os grandes filmes. Voltando à Joyce, Carolina Leone permite que sua obra seja grande nesse sentido; sua personagem é forte porque a ela foi dada a chance de existir independentemente de amarras formais. E isso significa, existir a partir de sentimentos vivos e não enjaulados e pré-formatados. Vale não deixar de falar da cena mais bonita do filme (e que consegue sintetizá-lo tão despretensiosamente): um plongée mostra Joyce e a irmã dançando e cantando uma música em frente à tv (por acaso, um funk). Simples, porém não poderia ser mais emblemática em relação ao que o curta se propõe a ser. Nele, Joyce é mostrada, acima de tudo, como uma garota de 12 anos que pode dançar e cantar num microfone em frente à tv sem que isso seja ou signifique mais do que a reação normal de uma garota de 12 anos. Não há imposições por parte do filme para que a garota seja mais do que isso.
Quanto aos curtas alemães, sobre os quais o Sérgio me incumbiu de falar no post abaixo, devo dizer que os assisti, porém não numa situação muito favorável. O sistema de vídeo usado pelos alemães é o Pal-M, incompatível com o nosso NTSC, por isso, os filmes, que estavam em vídeo, foram projetados em preto-e-branco e alguns sem legendas. Tudo isso somado à péssima qualidade de som proporcionada pela improvisada sala de projeção do Centro de Convenções de Atibaia. Enfim...
Só para esclarecer, nem todos os curtas exibidos eram alemães, alguns eram belgas, mas todos estiveram presentes no Festival Internacional de Emden, Alemanha, em 2006 – aliás, Atibaia cada vez mais consolida seu perfil de festival que se caracteriza muito mais pela retrospectiva de títulos marcantes que surgiram durante o ano, do que por apresentar novidades ao panorama audiovisual brasileiro (título que, aliás, o Festival de Brasília reivindica a qualquer custo).
Mas, indo ao que interessa de fato, foi uma sessão cujos filmes apresentaram qualidade e teor de inventividade não mais do que medianos. As surpresas da exibição ficaram por conta dos curtas (todos alemães) Clube de Chicxu (Chicxulub), O dilema (Einstimmige Entscheidung) e da animação Kater (já exibida aqui no Brasil no Festival Anima-mundi). No geral, o nível dos curtas exibidos não pode, de forma alguma, ser considerado muito superior à produção brasileira. Se uma seleção dos melhores filmes nacionais exibidos no Festival Internacional de Curtas de São Paulo fosse feita, por exemplo, certamente nossas obras não deixariam nada a desejar ao conjunto que vi ontem.
Dia 11 - dia de poucos curtas
O cartaz que dizia que a seleção de curtas de um festival da alemanha seria passado em DVD e sem legendas me fez voltar para o hotel, após uma caminhada debaixo de sol. Depois de um bom banho, energias repostas, esperamos a van que nos levaria de volta ao Centro de Convenções, onde eu veria 14 Bis, o novo e riquíssimo curta de André Ristum. Taí, podem chamar de novelão, desperdício de dinheiro para algo que todos sabem, mas eu não achei nada disso. O filme é meio quadradinho, e certinho demais, mas tem inegável interesse. São boas as idas e vindas no tempo, usadas de maneira inteligente, e com um bom ritmo (o que contribui para que saia tão quadradinho). Saí, infelizmente, no meio da sessão para ver Pro Dia Nascer Feliz, belo longa de João Jardim que passou em pré-estréia, como parte do festival. O principal do filme é que cada entrevistado, por menos tempo que apareça na tela, demonstra uma beleza interior tocante, graças ao tom conseguido por João Jardim, e à sucessão de imagens precisa, mesmo que por vezes pareça aleatória.
obs: Liciane viu os curtas alemães, que passaram com legendas, ao contrário do que ameaçava o cartaz, e promete mandar amanhã suas impressões.
obs: Liciane viu os curtas alemães, que passaram com legendas, ao contrário do que ameaçava o cartaz, e promete mandar amanhã suas impressões.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
II Festival de Atibaia - Dia 10 - Franceses e brasileiros
Nesta quarta, resolvi ir a Atibaia só depois do almoço, para ver a cabine do novo filme do Woody Allen, Scoop, mas o filme atrasou, fazendo com que eu quase perdesse a sessão de curtas franceses. Pouco inspirada, a seleção começou com um filme que, no máximo, pode ser chamado de simpático: Regards Libres, de Romain Delange, no qual diversas crianças fazem sua leitura particular de uma pintura moderna. Seguiu com um filme bem mais ou menos sobre uma grávida e suas inseguranças (Enceinte Jusqu'aux Dents, de Marie Donnio) e com o mais experimental da seleção, o irregular L'herbe Colle a Mes Coudes Respire le Soleil, filme de J. Descamps que tem uma premissa bem interessante, com um flerte no metrô, mas se perde nos enquadramentos pretensiosos, que buscam uma linguagem poética que o filme não adota por completo. Experimentalismo no meio do caminho entre a vanguarda total e o aprisionamento ao tradicional não dá pé. Poison d'Avril é uma bobagem cometida por Jimmy Bemon. Um filme mal decupado à beça, com enquadramentos que sempre nos afastam de uma possível apreensão, que era o que o filme parecia buscar o tempo todo. Mas em seguida vem a pérola do Senegal: Deweneti, de Dyana Gaye, uma lírica história sobre um menino mendigo de coração nobre, uma bela abordagem sobre sonhos e desejos, e sobre a sobrevivência diária e urbana, urgente. Belíssimo filme, disparado o melhor da seleção que termina com dois filmes agradáveis, mas limitados: Une Naissance, cujo maior interesse vem da ligação com a infância de ninguém menos do que Ingmar Bergman; e La Pelote de Laine, sobre um novelo de lã que liberta uma mulher aprisionada pelo marido. Dois filmes que poderiam ter ido mais longe do que foram.
Pior foi a sessão de brasileiros. A falta de tempo e o sono me impedem de me detalhar nos filmes, mas vale dizer que o único bom filme da selação, O Maior Espetáculo da Terra, de Marcos Pimentel, cresceu na revisão, por ser um filme de procedimentos simples, mas que alcança uma poesia mágica, e nunca calculada. Um filme de tempos, silêncios, reações de quem testemunha um espetáculo ao vivo, e a decadência que acompanha o mundo circense, mundo também sujeito à especulação do corpo feminino. Um dos mais belos curtas brasileiros dos últimos anos. Em compensação, Balada das Duas Moças de Botafogo piorou, com a narração lutando contra a sucessão de planos dos filmes, e o texto de Vinícius de Morais parecendo de um moralismo irritante, graças à pobreza com a qual foi feita a tradução em imagens de suas palavras. O restante vai do supersupersuperestimado Saba, uma espécie de sub sub sub Tsai ming-liang, sem a densidade do diretor malaio, ao zoom in-zoom out irritante de Primeira Vez, filme que lembra demais Cama de Gato, não só nos procedimentos de câmera, mas na falta de dimensão de personagens (exemplo maior: o carinha que tira a virgindade da protagonista, de uma grossura e falta de noção absurda) e por isso não tinha grandes chances de me conquistar. Com um ligeiro destaque para Trecho, que ameaça engrenar, mas também fica na experiência de meio caminho.
Pior foi a sessão de brasileiros. A falta de tempo e o sono me impedem de me detalhar nos filmes, mas vale dizer que o único bom filme da selação, O Maior Espetáculo da Terra, de Marcos Pimentel, cresceu na revisão, por ser um filme de procedimentos simples, mas que alcança uma poesia mágica, e nunca calculada. Um filme de tempos, silêncios, reações de quem testemunha um espetáculo ao vivo, e a decadência que acompanha o mundo circense, mundo também sujeito à especulação do corpo feminino. Um dos mais belos curtas brasileiros dos últimos anos. Em compensação, Balada das Duas Moças de Botafogo piorou, com a narração lutando contra a sucessão de planos dos filmes, e o texto de Vinícius de Morais parecendo de um moralismo irritante, graças à pobreza com a qual foi feita a tradução em imagens de suas palavras. O restante vai do supersupersuperestimado Saba, uma espécie de sub sub sub Tsai ming-liang, sem a densidade do diretor malaio, ao zoom in-zoom out irritante de Primeira Vez, filme que lembra demais Cama de Gato, não só nos procedimentos de câmera, mas na falta de dimensão de personagens (exemplo maior: o carinha que tira a virgindade da protagonista, de uma grossura e falta de noção absurda) e por isso não tinha grandes chances de me conquistar. Com um ligeiro destaque para Trecho, que ameaça engrenar, mas também fica na experiência de meio caminho.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
II Festival de Atibaia
Pessoal, estamos retornando as atividades do paisablog fazendo a cobertura do II Festival de Atibaia, onde serão exibidos uma grande variedade de curta-metragens. Logo depois, vamos a Tiradentes, nesse grande evento do cinema brasileiro. Ambos receberão matérias na próxima edição, além de uma cobertura de leve por aqui.