sábado, outubro 07, 2006

As benditas estrelinhas


As cotações dos filmes novos que eu vi no Festival do Rio, com a mudança da cotação do filme do Pedro Costa, que cresceu na memória; e sem contar as revisões de Luchino Visconti ou os filmes de Jodorowsky que eu já tinha visto:

em ordem de preferência

* * * * *
Os Anjos Exterminadores - Jean-Claude Brisseau
Exiled - Johnnie To
Juventude em Marcha - Pedro Costa

* * * *
Dália Negra - Brian De Palma
Um Casal Perfeito - Nobuhiro Suwa
Bamako - Abderrahmane Sissako
Find me Guilty - Sidney Lumet
Os Infiltrados - Martin Scorsese
Volver - pedro Almodóvar
The Host - Bong Joon-ho

* * *
A Última Noite - Robert Altman
Pouco a Pouco - Maziar Miri
El Laberinto del Fauno - Guillermo Del Toro
Eu me Lembro - Edgard Navarro
Alice - Marco Martins
12:08 Leste de Bucareste - Corneliu Porumbuiu

* *
Luzes na Escuridão - Aki Kaurismaki
Pequenas Flores Vermelhas - Zhang Yuan
A Estrela Que Não É - Gianni Amelio
A Terra Abandonada - Vimukthi Jayasundara
Atos dos Homens - Kiko Goifman

*
The Willow Tree - Majid Majidi
Coração Batendo no Escuro - Shunichi Nagasaki
O Tigre e a Neve - Roberto Benigni
Fast Food Nation - Richard Linklater
Flandres - Bruno Dumont

mico
A Fórmula de Peter Pan - Cho Chang-ho
Isabella - Pang Ho-cheung
Medo e Obsessão - Wim Wenders

P.S.: versão acrescida dos filmes que eu havia visto antes em cabines para a imprensa, e que passaram no festival

Itália, Irã, China


Três países de tradições de cinema bastante diferentes fecham meus comentários mais diretos sobre os filmes neste Festival. Tradições diferentes que não alteram o fato de que são três países que realmente representam o cinema hoje, locais sede das obras de alguns dos maiores cineastas vivos. Mas vou falar sobre algumas figuras que ainda cavam seu espaço, uns com mais notoriedade que outros.

Da Itália vem o novo filme de Emanuele Crialese, autor de Respiro, filme que arrebatou fãs tanto em sua passagem pelos festivais quanto em sua passagem de algum sucesso no circuito. Respiro era um filme mais seguro que este Mundo Novo, correndo menos riscos, mas ao mesmo tempo mais fechado em seu conceito de obra. O Mundo Novo é um filme complicado, que alterna alguns planos sensacionais (as pessoas sendo lentamente separados pelo mar) com uma mão pesada que raramente aparecia em Respiro, e um uso pra lá de equivocado da câmera lenta. A verdade é que mesmo as cenas mais fortes já carregam a mão pesada, apenas se aproveitando melhor dela. Trata-se de um filme estranho, irregular, que às vezes parece perto de se tornar algo notável e em outros momentos parece perto de se tornar insuportável. Mas confirma Crialese como um cineasta a ser seguido.

Surpreendente é o novo de Jafar Panahi, o Fora de Jogo. Não pela ausência de bons filmes no currículo, mas sim por se despreender um tanto mais da sombra de Abbas Kiarostami. É o primeiro filme 100% solo de Panahi em relação a Abbas, e isso fica claro em cena. O mestre segue sendo um espelho, mas ele parece finalmente pronto para trilhar um caminho mais pessoal. O filme é um achado de imediatismo, capturando um dia turbulento onde um grupo de meninas é barrado no estádio em que a seleção do Irã faria a partida decisiva que valeria a disputa da Copa do Mundo. O conteúdo político e as discussões em torno de certos tabus da cultura iraniana são trabalhados com extremo talento, uma afeição forte a todos os personagens em cena e um senso de humor curioso. Soma-se também diversos achados em algumas seqüências: os momentos em que um dos guardas narra a partida enquanto os personagens e nós apenas torcemos; alguns instantes de atuação que parecem verdadeiramente improvisados; a longa seqüência no banheiro do estádio; e principalmente o momento em que todas as amarras culturais se desprendem e a explosão de alegria das pessoas fica em primeiro plano. Demora um pouco a engrenar, enquanto não encontra sua locação chave (o local onde as meninas ficam presas), mas trata-se de um filme imperdível. O Ouro Carmin também era considerado comprado em 2003, então recomendo atenção mesmo com Fora de Jogo sendo exibido com legendas na cópia.

E fechando o ciclo, chegamos a China de Lou Ye. Como já havia dito em outra ocasião, o oriente não esteve numa fornada boa neste Festival, e Palácio de Verão não reverteu este triste panorama. Até é um filme de momentos, especialmente no seu primeiro ato, mas vira uma bobagem pra lá de cafona depois que o tempo passa, com direito a alguns dos tiques mais duros de engolir, vide a cena em que um personagem se suícida. Mas mesmo seu primeiro ato já não convence no todo, tendo força apenas em algumas poucas imagens (as festinhas). As cenas de sexo que deram o que falar em Cannes são mais um destes mitos midiáticos duros de engolir, mesmo que não sejam propriamente ruins. Não sou contra a narrativa a la novelão, mas com a completa falta de criatividade e cafonice reinando na encenação de tudo, fica duro entrar no jogo do filme.

Nos próximos dias um topzinho do Festival e uma crônica no site, pegando o Festival em geral.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Os três últimos filmes


Foi o último dia do Festival. Agora, só a repescagem, que perderemos, pois voltamos para São Paulo. O último dia foi marcado pela chegada de um calor absurdo, o que deixou as salas de cinema, com aquele ar condicionado sempre no talo, verdadeiros oásis.

Começando o dia vi o incrível filme de Nobuhiro Suwa, Um Casal Perfeito. Um trabalho quase inteiro na penumbra, com paredes e sombras insistindo em separar o casal. Todo o filme gira em torno de uma grande crise matrimonial, mas o casal só se mostrará perfeito se insistir em lutar contra a crise, como no belíssimo final do trem que parte. Parte para uma outra vida, que poderia ser vivida, sofrida, prazeirosa, mas que não teria a cumplicidade de quem se ama. Um grande filme, de estética rigorosíssima e uma interpretação corajosa e fenomenal de Valeria Bruni-Tedeschi. Amigos disseram que acharam-na uma chata de galochas. Eu só vi desespero e perseverança, como possíveis caminhos para se chegar a uma reconciliação. Pode até ser chato para o homem, um ser acostumado a lidar com as coisas de maneira mais simples e direta, mas era necessário para ela, mulher insegura (como provava sua postura nos momentos em que se mostrava semi-nua ao marido) e indecisa. Mulher. Jacques Doillon, um dos diretores franceses mais subestimados, faz uma ponta como um amigo que aparece numa reunião íntima entre alguns casais.

Depois foi a vez de A Terra Abandonada, filme de Vimukthi Jayasundara que tem momentos notáveis, principalmente por conta da maneira com que o diretor reenquadra os planos, deixando com que elementos inusitados à trama apareçam solenemente. São pessoas perdidas, num lugar remoto do Sri Lanka, tentando se ajustar em meio aos instintos sexuais - o filme é estranhamente sensual. Pesa contra um tom muito forte de filme para agradar platéias de festivais. Não chega a ser um neo-academicismo, mas sente-se um peso incômodo de "quero ser autor", antes que qualquer coisa relativa ao filme se adapte às imagens bonitas que são jogadas quase aleatóriamente de tão pretensamente poéticas. Talvez tenha um bom filme escondido debaixo do verniz.

Encerrando com The Host, de Bong Joon-ho, que todos já pintavam como um filmaço, e eu só fui conferir. É um filme irregular, mas com planos excepcionais. A seqüência da primeira aparição do monstro é das melhores do cinema oriental atual, e isso não é pouco. A queda em câmera lenta, e o detalhe da mão errada foram achados tragicômicos de imensa força visual. O filme cai um pouco no miolo, e tem um clímax que não está à altura das melhores seqüências, mas a tiração de sarro com o intervencionismo americano é lapidar. A presença do noticiário de TV lembra muito o artifício de crítica política brilhantemente usado em Robocop.

Cotações:

Um Casal Perfeito * * * *
A Terra Abandonada * *
The Host * * * *

amanhã mando uma relação com todos os filmes que vi no festival, como aperitivo para a crônica que aparecerá na semana que vem no site.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O novo Scorsese


O dia foi dedicado a Os Infiltrados (The Departed), novo filme de Martin Scorsese. Tornou-se lugar comum a opinião de que Thelma Schoonmaker está estragando os filmes recentes do diretor. O jargão "TS, aposente-se", esbravejada com fúria por Bruno Andrade, nunca foi tão reiterado por outros críticos amigos. Para meu desespero Scorseseano, esses amigos não entendem que o cinema recente do mestre precisa desse ritmo, se alimenta dele. É como se o afobado Scorsese precisasse de alguém que o levasse à velocidade de seu cérebro. Um histérico que tenta adotar o tempo de um monge budista, mas que é sabotado, conscientemente (tenho plena convicção disso), por sua montadora preferida.

Alguma coisa vai mal na primeira metade de Os Infiltrados. Desta vez, parece que a afobação não o ajuda, e ele parece se afogar num mar de planos curtos que normalmente imprimiam a justa medida de sua pulsão cinematográfica. A trama, Jack Nicholson, ou a reverência ao filme original de Hong-kong (Infernal Affairs)... esses elementos parecem pedir por um ritmo anti-scorseseano, de planos elaborados, mas um tanto mais pensados na câmera do que o habitual do diretor desde Vivendo no Limite. Scorsese parece ter encontrado o ritmo certo na segunda metade do filme, que é realmente um primor, de uma secura rara em sua filmografia.

quarta-feira, outubro 04, 2006

O melhor dia do festival


Ontem foi o dia de duas obras-primas do Festival. Dois filmes que se juntam a Juventude em Marcha, filme de Pedro Costa que cresceu na memória e exige revisão obrigatória caso vá para a 30ª Mostra SP, como os melhores do evento.

Mas o dia começou com uma aposta no escuro: Pouco a Pouco, de Maziar Miri, um filme bem agradável sobre um soldador que descobre que sua mulher desapareceu. A meia hora final, com o reaparecimento da mulher e a história que ela conta para se justificar ao marido garante o interesse do filme, que é fimado direitinho, com uma câmera segura e discreta, e uma montagem bem precisa, respeitando o tempo dos atores. Uma bela surpresa.

Depois, na pior sala do Festival (Botafogo 2), a obra-prima de Johnnie To, Exiled, sobre o qual Guilherme já se manifestou por aqui. Assino embaixo de suas palavras. Realmente o filme transpira uma paixão pelo cinema que é transmitida ao espectador. Ouvi dizer por aqui que o filme está confirmado na 30ª Mostra Internacional de São Paulo. Ou seja: programe-se bem para não perder o filme, e, se possível, rever.

O outro filme fundamental do Festival é Os Anjos Exterminadores, novo longa de Jean-Claude Brisseau. O filme retoma obsessões formais e temáticas do diretor, particularmente do essencial Coisas Secretas (2002). O que posso dizer é que Os Anjos Exterminadores é ainda melhor, e me deixou embasbacado ao término da projeção. É um cinema de sombras, que não teme elementos que o bom gosto reinante considera ofensivo. Na verdade, Brisseau está se lixando para o bom gosto, e seu filme explora o corpo feminino como poucos na história do cinema. Francamente, não se pode mais falar em Tinto Brass depois de ver o que Brisseau faz com as belas atrizes, ainda que aqui a porta para o imaginativo e para o sobrenatural esteja francamente aberta, fazendo com que mergulhemos na sombra. Inesquecível, e obrigatório.

cotações:

Pouco a Pouco * * *
Exiled * * * * *
Os Anjos Exterminadores * * * * *

terça-feira, outubro 03, 2006

Os obscuros


Impressionante o baixo nível dos filmes obscuros neste Festival do Rio. Salvo exceções como o português Alice, são raros os filmes que se quer valem o nosso tempo. A safra oriental está muito fraca, ignoraram os filmes dos mestres (Hou Hsiao-hsein, Hong Sang-soo) e trouxeram para o festival filmes incrívelmente ruins. Os dois campeões do tédio cinematográfico são A Fórmula de Peter Pan e Isabella. O primeiro já foi comentado aqui pelo Sérgio, o segundo foi visto ontem. Sua marca registrada são os planos em contra-plongée de nuvens ao som de sua clássica trilha insossa. Um inferno.

segunda-feira, outubro 02, 2006

os três filmes de ouro


Foram corridos os últimos dias de Festival. Por isso tenho postado pouco.
Entre os destaques recentes, vale confirmar as más impressões do Sérgio sobre Flandres, o último do Bruno Dumont. Se já haviamos perdido boa parte do interesse no cineasta com 29 Palms, Flandres vem para confirmar que Dumont é mais um caso de cineasta com talento, mas que o usa para imagens fétidas. Chega a ser fascinante como Dumont planeja o filme, compondo todos os planos detalhadamente, sempre buscando uma forma de pensa-lo em termos de espaço, até nos menores planos e reenquadramentos. Mas o talento para compor um plano espacialmente falando só piora aquilo que ele pretende mostrar, sua visão de mundo retrógada que acaba gerando diversos momentos patéticos de encenação. A cena em que a garota tenta agarrar o psiquiatra, em especial, é absurdamente tosca.

Este post existe também para recomendar aqueles que, para mim, são os três melhores do Festival. Primeiro, a pequena obra-prima de Sidney Lumet, Find Me Guilty, que esta pau-a-pau com Um Dia de Cão como seu melhor filme, um verdadeiro triunfo da mise-en-scène. Lumet reinventa o espaço fechado, a encenação e cria um espetáculo de cinema dos maiores.
Então veio Juventude em Marcha, uma obra seminal de Pedro Costa, cujo valor nos obriga a revê-lo e pensa-lo com mais calma. Seus longos planos levam o cinema ao limite, sua relação com espaço e o corpo dos atores é única. Além de um humor peculiar que gera diversos momentos geniais.
E para fechar, surgindo na última hora - adicionado à programação de surpresa - o gigante de Hong Kong: Johnnie To. A fera está de volta com Exiled, além de Election 2 que ficou de fora do Festival, mas está comprado. É mais um filme único e precioso de To, estilizado ao limite, sem qualquer vergonha de ser cinema e apenas cinema. Uma homenagem a Sam Peckinpah e Sergio Leone, e tantos outros. Um filme bonito, filmado como poucos, que mesmo nos seus exageros mais sarcásticos (a lata de Red Bull voando em primeiro plano) é brilhante.
Falo mais sobre os filmes comuns do Festival em outro momento.

domingo, outubro 01, 2006

Cacoetes de autor


Existem os cacoetes da crítica, claro. Não me excluo de, vez por outra, cair em alguns deles, e acredito ser impossível evitá-los em alguns momentos. A questão é: devemos evitá-los? Quase sempre a resposta me parece ser positiva. Se houver algum motivo para se buscar os clichês eu francamente os desconheço. Mas pode ser que haja um bom motivo, sei lá eu...

Dois filmes de diretores mais ou menos elogiados repetem seus clichês autorais com exaustão em seus últimos filmes. Tanto Bruno Dumont com Flandres, como Aki Kaurismaki com Luzes na Escuridão, dão insistentes voltas sobre tons e temas que sempre rondaram seus filmes. Dumont sempre se interessou pelos momentos de explosão de seus personagens. Se em seus primeiros filmes (os supervalorizados A Vida de Jesus e A Humanidade) só víamos as consequências dessas explosões, no execrável 29 Palms vemos as causas, e, no final, a explosão definitiva. Em Flandres pressentimos esse momento de explosão, mas ele chega em doses tímidas e um tanto constrangedoras para a garota que não consegue ficar sem transar e agarra o psiquiatra. Kaurismaki continua pintando um mundo cinzento, em que as únicas pessoas que sorriem são as maldosas. Os ingênuos heróis do diretor continuam sendo verdadeiros panacas, mesmo quando têm momentos de grande lucidez. Esse cinema depressivo já teve melhores dias, mas não se pode negar a força do plano final de Luzes na Escuridão, ainda que não sirva para redimir a sensação de "mais do mesmo" evidente em toda a projeção. É evidente que Kaurimaki se alimenta desses momentos déjà-vu, mas aqui chega a cansar. Ao menos esses dois filmes são curtos.

Também vi ontem, no Paissandu, O Tigre e a Neve, de Roberto Benigni. É como o Guilherme falou. tem bons momentos na primeira parte, e momentos hediondos na segunda. Sem que uma das partes esteja livre de ter qualquer um dos dois extremos. Mas é o seguinte: antes de Bagdá, tudo conspira a favor do filme, e os maus momentos são relevados com facilidade; em compensação, na segunda metade, os raros bons momentos já não encantam mais, pois já estamos mergulhados no tédio com as boas intenções sociais, mas que se revelam más intenções para com a linguagem cinematográfica.

Devo ter caído em alguns cacoetes críticos neste post, mas a tentativa de fugir deles talvez me levassem a cacoetes piores. Por isso, relevem, por favor.

Cotações:

Flandres *
O Tigre e a Neve *
Luzes na Escuridão * *

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