sexta-feira, outubro 27, 2006

Belle Toujours


É tradição: a Mostra não é mostra a não ser que apresente um filme novo de Manoel de Oliveira, que realiza aqui uma seqüência perversa para A Bela da Tarde de Buñuel. È mais uma obra-prima tardia do quase centenário cineasta. Um filme de grande beleza que se constroi a partir da lógica do intervalo que o separa do classico de Buñuel, esteja ele no rosto de Michel Piccoli (que esta magnífico, por sinal), na Paris pelo qual ele passeia ou nos estilos diferentes dos dois cineastas. Belle Toujours é um dos trabalhos mais leves de Oliveira (seus 70 minutos passam muito depressa), chegando por vezes a remeter mesmo a Vou Para Casa, mas com mais força. Um filme para se retornar outras vezes, com certeza. Talvez o melhor do festival.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Fica Comigo e Red Road


Fica Comigo se propõe a contar a história de uma mulher que viveu quase toda a sua vida sem ver nem ouvir. A história, sem dúvida, é bonita; já o filme... Temos, mais uma vez, a incompatibilidade de relações, de contatos, em foco; junto com isso, uma fotografia pálida e sem vida, tentando, de forma questionável, realçar as dificuldades em questão. Boa parte do filme é um grande engodo poético, com a história da protagonista sendo contada via legendas, enquanto cenas de sua vida no presente (e de histórias paralelas) vão passando; as imagens parecem não ser muito mais que uma muleta.
As histórias paralelas lidam diretamente com relações que não acontecem; os melhores momentos do filme estão numa delas, em que duas meninas têm uma paixão incompatível. Na outra, momentos fraquíssimos para apresentar a personagem como um homem rude e rejeitado pela família, que não consegue se aproximar de mulher amada, rica e elegante. As duas histórias, num momento digno do pior Iñarrítu, se cruzam, num dos piores planos dessa Mostra.
E o problema que incomoda durante toda a projeção: Eric Khoo compõe seu filme com planos parados e pretensiosos, quase o tempo todo. Mas não consegue filmar bem; vários planos se perdem na sua pretensão e os closes são especialmente ruins.

Red Road é um filme bastante chato e não passa muito disso. Começa focado no trabalho de sua protagnista: ela controla câmeras de vigilância que monitoram vários pontos da cidade; o filme continua nesse foco com a descoberta da mulher, através do monitoramento, que o homem que provocou a morte de seu marido e sua filha foi solto. Porém, na segunda metade do filme, Andrea Arnold parece esquecer a questão voyeurismo, mostrando que aquilo não passava de mero artifício para servir à sua história.
Se na primeira parte o interesse pelo filme já era pequeno, na segunda fica quase nulo. A protaganista vai atrás de uma vingança, que acaba virando, de qualquer jeito, uma redenção psicológica e familiar.

E dois comentários rapidíssimos:
Transe, de Teresa Villaverde, é um filme para o qual não consigo desenvolver, pelo menos ainda, nenhuma opinião. Há planos ótimos, rigorosos, e com um domínio ótimo da disposição dos elementos no quadro. Mas ainda ficam questões sobre andamento do filme, o plano após plano.
E Eu Não Quero Dormir Sozinho, já comentado pelo Sérgio, é um grande filme. Depois da péssima sequência final de seu filme anterior, Tsai faz aqui um dos mais belos planos finais de sua carreira.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Só Deus Sabe e Um Certo Olhar


Só Deus Sabe apela para os dispositivos mais simplórios para narrar histórias e tentar criar tensões climáticas.
Pra começar, o filme é muito mal decupado; cada plano vai se sobrepondo ao outro de qualquer maneira, sem conseguirmos compreender o objetivo daquilo, apenas nos jogando situações que, para comprar o filme, teríamos que aceitar sem nenhuma reflexão. Devido a isso, a questão dele se passar em países, culturas diferentes vira uma mera besteira; o filme, em nenhum momentos, dá conta de ambientar todos os lugares que ele se propõe a filmar.
A tentativa de Carlos Bolado de fazer alguma analogia entre as crenças religiosas mexicanas da personagem de Diego Luna com o candoblé é patética. Fazendo uso, em vários momentos, de montagem paralela, ele apenas joga na tela várias informações filmadas de maneira quase alegórica e tentando impôr um ar místico através da câmera e de músicas na trilha sonora.
Bom, isso sem falar nos usos de câmera lenta e rápida, constrangedores.

Um Certo Olhar tem seus bons momentos. Quase sempre os mais despretensiosos, quando Marc Evans se deixa levar pelo momento sem se importar com "mensagens" (seja social ou que sirva a narrativa do filme).
Porém, algumas coisas incomodam muito. O filme insiste em fazer comédia com situações que seriam típicas da convivência cotidiana com uma pessoal autista; algo que não seria necessariamente ruim, mas aqui Evans parece usar suas personagens pra conquistar o espectador, alternando o nível de consciência da personagem de Sigourney Weaver quando lhe interessa.
E a psicologia de botequim da personagem de Alan Rickman é irritante. São as formas mais simplórias de se abordar medos e traumas. Um homem que precisa reviver um trauma pra conseguir superá-lo, passando por cada etapa óbvia da redenção.

Anche Libero Va Bene


Italianíssimo primeiro longa do ator Kim Rossi Stuart. É um melodrama familiar muito bem conduzido, com tintas fortes e uma atenção bastante precisa para seu elenco (em especial, seu protagonista-mirim, Alessandro Morace). O retorno da mãe, que aparantemente mantém o hábito de abandonar e retornar à família, é o ponto de partida para a série de altos e baixos familiares que o filme de Stuart narra . O cineasta busca no exagero o seu ponto de equilibrio. Ele retira muito também de um olhar infantil - que se vê obrigado a tentar um entendimento com o mundo - de uma maturidade incomum (impressionante as cenas em que o pai trata a mãe com enorme grosseria na frente dos filhos).

terça-feira, outubro 24, 2006

Nova York


Duas indicações e uma contra-indicação do cinema independente que está sendo feito em Nova York. Começando contra: Voltando ao Passado, de Lynn Shelton, é uma coleção de planos constrangedores, cujo único interesse era o personagem do diretor de teatro, maluquinho da silva, mas que é abandonado na metade do filme, justamente quando surge a protagonista aos treze anos, para a protagonista no presente. Surreal? Sim. Digno de Buñuel? Nem pintado de ouro. Admiração Mútua, de Andrew Bujalski, é digno de todos os elogios que vem recebendo (na Film Comment principalmente). Ao contrário do Filipe, não acho tão disparatada a comparação com Cassavetes, no sentido de que o filme se impregna de um espírito independente novaiorquino muito forte. Mas concordo que o parentesco com Rohmer seja mais certeiro. E Half Nelson, de Ryan Fleck, se mantém quase que exclusivamente graças ao desempenho notável de Ryan Gosling, capaz de compensar alguns trejeitos irritantes de cineasta independente - principalmente no uso do foco. É um filme bem simpático, que ameaça descambar para o moralismo, mas sempre sai ileso.

Guerra Conjugal


Nunca tinha visto este belo filme de Joaquim Pedro de Andrade. Sua tristeza é impressionante, tanto mais porque se disfarça de uma alegria de comédia safada e carioca (o filme foi rodado no Rio de Janeiro). São sketches que podem até formar um fiapo de narrativa, mas são livres, e mostram um casal de idosos brigando, um outro se desentendendo - além de outras questões, por causa da diferença de idade -, e dois homens tentando transar com o maior número de garotas. Mas é de solidão que fala o filme, como fica claro no belíssimo plano final. As pessoas se juntam, sedentas de sexo, mas são carentes, solitárias mesmo em companhia. Os créditos fazem o invólucro de fábula nos relatos eróticos; e a espécie humana é retratada de uma forma cruel, mas com esperança. Destaque para o engravatado Carlos Gregório, que compõe um personagem patético, com a barra da calça muito curta, à Jerry Lewis, e um apetite sexual que só se resolve depois de transar com todos os tipos femininos, da mais obesa à mais idosa; e para o outro engravatado, vivido por Lima Duarte, e que a horas tantas é seduzido por um velho amigo de adolescência (Carlos Kroebber) que descobriu tardiamente a homossexualidade.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Antonia


Tata Amaral tem a sutileza de captar os mais delicados detalhes de suas personagens; mesmo nos momentos mais apoteóticos ou mais trágicos, a câmera se encanta com pequenos gestos e pequenas reações.
O filme acompanha um recorte da trajetória daquelas mulheres com extremo carinho e admiração, sem cair em metáforas sociais simplificadoras; apenas olha e se deixa levar.
E no final, apesar de todas as dificuldades, o sonho vence; não que a vida se torne perfeita, longe disso, mas as "Antonia" jamais perdem a linda capacidade de sonhar.

Tsai e Ferrara em grande forma


Tsai Ming-liang já não é mais esperado com entusiasmo por alguns amigos críticos. Pena. Ele não tem culpa de ter virado quase unanimidade no circuito de festivais. Seu novo filme, Eu Não Quero Dormir Sozinho, será certamente acusado de "mais do mesmo", como se isso em si fosse algo negativo. Fosse assim, Bach não seria a unanimidade em música erudita. O novo filme do diretor tem as mesmas composições de Adeus Dragon Inn e Que Horas São Aí? Seus planos continuam explorando o espaço da melhor forma possível, fazendo com que o ator sempre incida numa parte inesperada da tela, mas com destaque. Ele consegue mudar a direção de nosso olhar por pequenas alterações da luminosidade, e aí reside boa parte do encanto formal de seus filmes. Mas tem novidades, além de um tempo de corte diferente e antecipado em algumas cenas: desta vez o casal principal tenta fazer amor mesmo sob fumaças asfixiantes. Após o orgasmo de O Sabor da Melancia, seus personagens encontram forças para brigar pelo que amam. O filme ainda reserva um último plano espetacular, com uma dose de humor peculiar, que só dá mais sabor a este preciso e comovente experimento de um cineasta em seus domínios cinematográficos.

Sobre Mary fica difícil falar alguma coisa, a não ser que o filme é desconcertante, e um dos três melhores de Abel Ferrara. Vi pela segunda vez hoje, mas me parece que ele só vai ser absorvido plenamente com mais umas duas ou três visões. Após a sessão, pensei com Guilherme: existe algum filme em que a atuação de Forest Whitaker seja menos do que muito boa?

Encerrei o dia com um compacto de 90 minutos dos 100 oficiais de Sob o Signo de Escorpião, filme hermético e selvagem dos irmãos Taviani. Apesar de partir de uma premissa interessante, o filme é engolido por sua própria confusão narrativa. Ou os dez minutos que faltavam por causa da cópia sofrível teriam a chave para seu entendimento? Duvido.

domingo, outubro 22, 2006

Venha dormir lá em casa esta noite


O belo filme de Dino Risi é uma impressionante alegoria sobre o poder. Trata-se de mais um filme pessimista do diretor, permeado de grande humor por parte de Ugo Tognazzi, mas com um final aterrorizante. É um filme tão forte quanto Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso, de 1962), e tem Ornella Mutti como o personagem chave, que se porta como vítima mas aos poucos revela sua face dominadora, destacando o assustador plano que a mostra sentada na cadeira que representa um dos males, segundo o filme. A presença velada da religião, na figura de um bispo (suicida?) cujo fantasma ocupa ainda o quarto em que fica hospedado Patrick Dewaere - este, a vítima em potencial da alegoria, conseguirá se safar no final? Um filme obrigatório de um diretor sempre subestimado.

Também vistos hoje o fraco Proibido Proibir, já comentado abaixo pelo Filipe; o insuportável Climates, filme mais recente de Nuri Bilge Ceylan que não tem as coisas boas do anterior Distante, e se afunda em pretensões e tempos mortos; e o competente A Audiência Vai Começar, filme de Vincenzo marra que é parente próximo de Délits Fragants, de Raymond Depardon.

Fechei o dia com o belo filme de Jafar Panahi, Fora de Jogo, que cai em alguns momentos - a seqüência do banheiro é mediana - mas tem um dos finais mais belos do ano.

Proibido Proibir


Bastante decepcionante este segundo longa de Jorge Duran que havia sido bastante elogiado por amigos que o viram no Festival do Rio. Há boas intenções evidentes e bastante esforço do jovem elenco para lhe dar credibilidade, mas Proibido Proibir vai aos poucos se perdendo em suas fragilidades. O cineasta tem pouquissimo dominio sobre o universo que tenta registrar (o personagem do Caio Blat é especialmente difícil de comprar). Na segunda parte, Duran abandona os poucos pontos de interesse do seu filme e opta por valorizar uma subtrama policial e os ocasionais bons momentos desaparecem de vez. Outro problema grave é que Duran simplesmente não filma bem. Proibido Proibir é cheio de planos inexplicaveis como as subjetivas chapadas do personagem de Blat.

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