sábado, setembro 30, 2006
Um belo filme em um dia estranho
Relevem, por favor, este post extremamente pessoal. Foi a única forma que encontrei de relatar o dia de ontem, quando eu realmente estava com a capacidade de concentração muito aquém do que deveria. Falta de sono? Certamente foi o principal fator. Mas também um progressivo cansaço, que veio, dia a dia, minando minha resistência física e se aliando às noites de sono irregular.
O pobre Visconti foi prejudicado com isso. As Vagas Estrelas da Ursa me pareceu um filme ainda mais problemático do que eu havia achado em algum ano da primeira metade dos anos 90. Os zooms, antes de serem ousados, parecem toscos e indecisos. Visconti usa o zoom out para mostrar o cômodo no qual Claudia Cardinale havia entrado, mas logto usa o zoom in, para recondicioná-la em outro canto do cômodo. É uma operação de estranheza, que Visconti parece não saber como realizar. Claro, os momentos de grande cinema estão ali, seja na inteligente forma de captar o incesto (sempre com planos fechados, e um preto e branco que parece negar a suntuosidade de seu longa anterior, O Leopardo), seja na trilha de Cesar Frank, que o aproxima ainda mais do que buscava Antonioni. Mas em vez de emular o cinema do diretor de O Eclipse, Vagas Estrelas lembra mais um filme menor de Walter Hugo Khouri. Claro, foi o filme do dia em que eu mais lutei contra o sono e, por isso, não consegui evitar a dispersão em vários momentos. Por isso, admito que devo ter deixado algo importante passar.
Depois veio o filme de Pedro Costa, Juventude em Marcha. É dos melhores do festival até aqui. Claro, minha condição estava melhor que no filme do Visconti, e o modo com que ele trabalha com o tempo exige uma adaptação de nossa capacidade física e mental que sempre me pareceu mais fácil de se conseguir. Embarquei bem no ritmo do filme, que, segundo Cléber Eduardo, faz Manoel de Oliveira parecer o Tony Scott. Tem muita influência de Straub, um humor muito peculiar de Portugal (apesar de diferente, com muitos pontos de contato com o de Manoel de Oliveira e João Cesar Monteiro), e uma incrível capacidade de enquadramento, que busca a verticalização das coisas. Os momentos antológicos são a enésima leitura da carta de Ventura, quando o amigo vira e diz: "péssima carta, Ventura", a cena do disco tocando e a agulha pulando por causa de rabiscos frenéticos na mesa, e o quarto de família, com a menina dançando a musiquinha de umprograma infantil chamado Viva Franklin (ou só Franklin). É filme para ser revisto.
Como sempre, minha última sessão do dia foi a que melhor acompanhei. Historicamente, consigo a maior capacidade de concentração em filmes depois das 21h. El Laberinto del Fauno começou à meia-noite. Uma sessão maldita concorrida como nenhuma outra do festival até aqui, com três ou quatro lugares vagos. Trata-se de um bom filme de Guillermo Del Toro. Uma fábula que não é dirigida a toda a família, pela grande dose de violência e por exacerbar os momentos de perigo, fazendo com que a tensão nos acompanhe durante toda a sessão. Tem uns momentos catárticos desnecessários - o vilão é muito mau, logo, seu castigo será de extrema violência - e a primeira meia hora parece meio desigual como tom do resto do filme. Isso certamente foi proposital, pois Del Toro tinha a clara intenção de mergulhar a personagem de Ofélia no ambiente da fábula, de maneira irrestrita, como contraponto aos conselhos da mãe e do padastro. É filme que pode render boas elocubrações. Há muitas possibilidades de reflexão, desde o nome dos personagens até a ambientação de final da Segunda Guerra. E claras citações a outros filmes: O Iluminado (na perseguição dentro do labirinto), Na Companhia de Lobos (no subtexto - ou texto mesmo - da sexualidade de uma pré-adolescente) e outros filmes que me vieram durante a projeção, mas que agora esqueci.
Cotações:
As Vagas Estrelas da Ursa * * *
Juventude em Marcha * * * *
El Laberinto del Fauno * * *
O pobre Visconti foi prejudicado com isso. As Vagas Estrelas da Ursa me pareceu um filme ainda mais problemático do que eu havia achado em algum ano da primeira metade dos anos 90. Os zooms, antes de serem ousados, parecem toscos e indecisos. Visconti usa o zoom out para mostrar o cômodo no qual Claudia Cardinale havia entrado, mas logto usa o zoom in, para recondicioná-la em outro canto do cômodo. É uma operação de estranheza, que Visconti parece não saber como realizar. Claro, os momentos de grande cinema estão ali, seja na inteligente forma de captar o incesto (sempre com planos fechados, e um preto e branco que parece negar a suntuosidade de seu longa anterior, O Leopardo), seja na trilha de Cesar Frank, que o aproxima ainda mais do que buscava Antonioni. Mas em vez de emular o cinema do diretor de O Eclipse, Vagas Estrelas lembra mais um filme menor de Walter Hugo Khouri. Claro, foi o filme do dia em que eu mais lutei contra o sono e, por isso, não consegui evitar a dispersão em vários momentos. Por isso, admito que devo ter deixado algo importante passar.
Depois veio o filme de Pedro Costa, Juventude em Marcha. É dos melhores do festival até aqui. Claro, minha condição estava melhor que no filme do Visconti, e o modo com que ele trabalha com o tempo exige uma adaptação de nossa capacidade física e mental que sempre me pareceu mais fácil de se conseguir. Embarquei bem no ritmo do filme, que, segundo Cléber Eduardo, faz Manoel de Oliveira parecer o Tony Scott. Tem muita influência de Straub, um humor muito peculiar de Portugal (apesar de diferente, com muitos pontos de contato com o de Manoel de Oliveira e João Cesar Monteiro), e uma incrível capacidade de enquadramento, que busca a verticalização das coisas. Os momentos antológicos são a enésima leitura da carta de Ventura, quando o amigo vira e diz: "péssima carta, Ventura", a cena do disco tocando e a agulha pulando por causa de rabiscos frenéticos na mesa, e o quarto de família, com a menina dançando a musiquinha de umprograma infantil chamado Viva Franklin (ou só Franklin). É filme para ser revisto.
Como sempre, minha última sessão do dia foi a que melhor acompanhei. Historicamente, consigo a maior capacidade de concentração em filmes depois das 21h. El Laberinto del Fauno começou à meia-noite. Uma sessão maldita concorrida como nenhuma outra do festival até aqui, com três ou quatro lugares vagos. Trata-se de um bom filme de Guillermo Del Toro. Uma fábula que não é dirigida a toda a família, pela grande dose de violência e por exacerbar os momentos de perigo, fazendo com que a tensão nos acompanhe durante toda a sessão. Tem uns momentos catárticos desnecessários - o vilão é muito mau, logo, seu castigo será de extrema violência - e a primeira meia hora parece meio desigual como tom do resto do filme. Isso certamente foi proposital, pois Del Toro tinha a clara intenção de mergulhar a personagem de Ofélia no ambiente da fábula, de maneira irrestrita, como contraponto aos conselhos da mãe e do padastro. É filme que pode render boas elocubrações. Há muitas possibilidades de reflexão, desde o nome dos personagens até a ambientação de final da Segunda Guerra. E claras citações a outros filmes: O Iluminado (na perseguição dentro do labirinto), Na Companhia de Lobos (no subtexto - ou texto mesmo - da sexualidade de uma pré-adolescente) e outros filmes que me vieram durante a projeção, mas que agora esqueci.
Cotações:
As Vagas Estrelas da Ursa * * *
Juventude em Marcha * * * *
El Laberinto del Fauno * * *
sexta-feira, setembro 29, 2006
O velho e bom Lumet de volta
É isso mesmo. Sidney Lumet está de volta em alto estilo. Seu novo Find me Guilty, visto na sessão da meia noite, é um deleite. Um de seus melhores filmes (certamente superior a O Veredicto), com produção independente e um Vin Diesel cativante como o mafioso que se recusa a ser delator. Lumet filma as cenas de tribunal (80% do filme) com planos gerais, sempre com mais de uma pessoa no quadro (na maioria das vezes são mais de três pessoas) e muita informação visual. Podemos perceber as reações do juri, por exemplo, enquanto Vin Diesel quebra qualquer formalismo. mesmo o juíz é mostrado em momento de simpatia por aquele personagem espalhafatoso que fala tudo o que pensa, às vezes colocando em risco a estratégia de defesa dos 74 acusados. O filme ainda guarda momentos de humor como não lembro de ter visto em qualquer outro Lumet. Seria, talvez, seu filme mais ágil, mais leve, e, ao mesmo tempo, um trabalho bem elaborado de composição do espaço. Merece destaque o excelente ator Peter Dinklage, o principal advogado de defesa. Dinklage já havia se destacado no simpático O Agente da Estação, mas em Find me Guilty está ótimo. Como Buñuel, Lumet parece saber da inteligência espantosa e da personalidade imponente dos anões.
Os filmes anteriores empalidecem frente ao Lumet em grande forma. Se Atos dos Homens, de Kiko Goifman, não vai muito além do documentário preocupado e, de certa forma, oportunista, apesar de ter seus momentos (o velho que anuncia a volta de Jesus é mesmo um achado), Pequenas Flores Vermelhas, de Zhang Yuan, interessa pela estranheza alcançada no retrato de um mundo infantil que parece distante e onírico. Aquilo que vemos parece mais um sonho, um delírio sobre um passado inventado. Não é completamente feliz porque não consegue esse clima em todos os momentos. A primeira metade, por exemplo, é bem fraca, com as crianças sendo retratadas para parecerem fofinhas. Mas existe um desfocar constante que me atrai. O menino acompanha sempre fora de foco o desfile que ocorre em primeiríssimo plano. As peças vermelhas, que mal identificamos, passam por ele, espera-se o trivial foco em seu rosto, mas o diretor nega essa possibilidade. Ele, o menino, é envolto, como nós, numa atmosfera de estranheza pura, de fácil conexão com o belo filme de Lucile Hadzihalilovic, Inocência, visto no Festival do Rio do ano passado.
Daqui a quatro horas, uma nova chance ao estranho Vagas Estrelas da Ursa, do grande Visconti. São os zooms mais bizarros do cinema.
cotações:
Atos dos Homens * *
Pequenas Flores Vermelhas * *
Find me Guilty * * * *
P.S. Guilherme achou o Lumet uma pequena obra-prima. deve postar algo por aqui.
Os filmes anteriores empalidecem frente ao Lumet em grande forma. Se Atos dos Homens, de Kiko Goifman, não vai muito além do documentário preocupado e, de certa forma, oportunista, apesar de ter seus momentos (o velho que anuncia a volta de Jesus é mesmo um achado), Pequenas Flores Vermelhas, de Zhang Yuan, interessa pela estranheza alcançada no retrato de um mundo infantil que parece distante e onírico. Aquilo que vemos parece mais um sonho, um delírio sobre um passado inventado. Não é completamente feliz porque não consegue esse clima em todos os momentos. A primeira metade, por exemplo, é bem fraca, com as crianças sendo retratadas para parecerem fofinhas. Mas existe um desfocar constante que me atrai. O menino acompanha sempre fora de foco o desfile que ocorre em primeiríssimo plano. As peças vermelhas, que mal identificamos, passam por ele, espera-se o trivial foco em seu rosto, mas o diretor nega essa possibilidade. Ele, o menino, é envolto, como nós, numa atmosfera de estranheza pura, de fácil conexão com o belo filme de Lucile Hadzihalilovic, Inocência, visto no Festival do Rio do ano passado.
Daqui a quatro horas, uma nova chance ao estranho Vagas Estrelas da Ursa, do grande Visconti. São os zooms mais bizarros do cinema.
cotações:
Atos dos Homens * *
Pequenas Flores Vermelhas * *
Find me Guilty * * * *
P.S. Guilherme achou o Lumet uma pequena obra-prima. deve postar algo por aqui.
quinta-feira, setembro 28, 2006
Bamako e os outros
É meu terceiro dia no Festival. Mas ainda não consegui postar daqui do Rio. Parece que o blogger se arrasta quando é minha vez. Tudo bem...continuo insistindo. Sobre a decepção de Fast Food Nation na seção da meia-noite de ontem não tenho muito a acrescentar ao que o Guilherme falou. Fiquei bem interessado enquanto Greg Kinnear investivaga a procedência da carne, mas muito desinteressado quando o foco ia para os imigrantes. Realmente, um dos filmes mais fracos de Linklater. Em alguns momentos é constrangedor.
No primeiro dia havia visto o filme de Majid Majidi, The Willow Tree. Trata-se da história de um homem que faz transplante de córnea, e passa a se decepcionar ao ver que a vida que ele imaginava em sua cegueira era bem superior à vida que se abria a seus olhos. Um breve momento de interesse se dá no primeiro encontro com as pessoas que ele conhecia, com a incrível inabilidade que ele demonstra para esconder sua decepção com todas aquelas caras novas. Depois o filme se afunda com a mão pesada de Majidi, cada vez mais fora de forma.
O segundo e último da terça foi o novo de Gianni Amelio, diretor que raramente me faz a cabeça (gosto de As Chaves da Casa e Ladrão de Crianças, mas não me empolgo com seus filmes sociais). A Estrela que Não É tem um grande trunfo: Sérgio Castellito. É um ator sensacional, que transmite credibilidade ao mais tolo dos personagens. Ele tem que viajar para a China, à procura de uma máquina defeituosa. O filme adota um tom muito diferente quando ele chega, com uma música chinesa delicada tocando o tempo todo, e a história girando em círculos. Na meia hora final, o filme se perde totalmente.
Ontem foi a vez de Alice, um bom e triste filme português, cuja limitação maior é a direção de Marco Martins, a um passo do academicismo, mas com alguns momentos que certamente elevam o filme para algo acima da média. E Bamako, de Abderrahmane Sissako, belíssimo filme que exige muito do espectador. Quem não embarcar na falação certamente irá se afastar do filme. Os momentos antológicos são vários, com especial destaque para a reação dos presentes à cantoria do velho nativo, e para a cantora que dá as costas para a platéia para limpar as lágrimas que corriam de seus olhos. É um filme que pede revisão, como bem fez Ruy Gardnier, que achou obra-prima, afinal.
Antes da decepção de Fast Food Nation, conferi uma aposta que naufragou em um sem número de imagens pretensamente poéticas. A Fórmula de Peter Pan tem momentos constrangedores, provando que nem tudo que vem da Coréia deva ser visto. É o pior filme visto até aqui.
Cotações (de mico a cinco)
The Willow Tree *
A Estrela que não É * *
Alice * * *
Bamako * * * *
A Fórmula de Peter Pan (mico)
Fast Food Nation *
No primeiro dia havia visto o filme de Majid Majidi, The Willow Tree. Trata-se da história de um homem que faz transplante de córnea, e passa a se decepcionar ao ver que a vida que ele imaginava em sua cegueira era bem superior à vida que se abria a seus olhos. Um breve momento de interesse se dá no primeiro encontro com as pessoas que ele conhecia, com a incrível inabilidade que ele demonstra para esconder sua decepção com todas aquelas caras novas. Depois o filme se afunda com a mão pesada de Majidi, cada vez mais fora de forma.
O segundo e último da terça foi o novo de Gianni Amelio, diretor que raramente me faz a cabeça (gosto de As Chaves da Casa e Ladrão de Crianças, mas não me empolgo com seus filmes sociais). A Estrela que Não É tem um grande trunfo: Sérgio Castellito. É um ator sensacional, que transmite credibilidade ao mais tolo dos personagens. Ele tem que viajar para a China, à procura de uma máquina defeituosa. O filme adota um tom muito diferente quando ele chega, com uma música chinesa delicada tocando o tempo todo, e a história girando em círculos. Na meia hora final, o filme se perde totalmente.
Ontem foi a vez de Alice, um bom e triste filme português, cuja limitação maior é a direção de Marco Martins, a um passo do academicismo, mas com alguns momentos que certamente elevam o filme para algo acima da média. E Bamako, de Abderrahmane Sissako, belíssimo filme que exige muito do espectador. Quem não embarcar na falação certamente irá se afastar do filme. Os momentos antológicos são vários, com especial destaque para a reação dos presentes à cantoria do velho nativo, e para a cantora que dá as costas para a platéia para limpar as lágrimas que corriam de seus olhos. É um filme que pede revisão, como bem fez Ruy Gardnier, que achou obra-prima, afinal.
Antes da decepção de Fast Food Nation, conferi uma aposta que naufragou em um sem número de imagens pretensamente poéticas. A Fórmula de Peter Pan tem momentos constrangedores, provando que nem tudo que vem da Coréia deva ser visto. É o pior filme visto até aqui.
Cotações (de mico a cinco)
The Willow Tree *
A Estrela que não É * *
Alice * * *
Bamako * * * *
A Fórmula de Peter Pan (mico)
Fast Food Nation *
Fast Food Nation
Complicado este novo filme de Richard Linklater. O próprio cineasta já havia admitido em entrevista que se tratava de um projeto não pessoal, de uma espécie de desafio que ele estava se impondo. O resultado é irregular, em alguns momentos péssimo. O filme é dotado de um olhar negativo e pessimista, algo incomum aos olhos de Linklater; a jornada do vice-presidente de marketing da cadeia de lanchonete para brigar contra o sistema pela melhoria das carnes não vinga, a imigrante mexicana termina tendo que se entregar a tudo que dizia que não faria para sustentar-se, e a jovem que tenta agir contra o sistema vê seu plano ser insuficiente. É um filme com qualidades, a grande maioria pelas capacidades de Linklater como encenador de momentos intímos, mas cheio de coisas horríveis, com o cineasta claramente sem saber como filmar uma cena com este cunho político (vide a parte do abatimento das vacas). Claramente não é a praia do cineasta, e nos resta torcer para que ele volte a seus domínios.
quarta-feira, setembro 27, 2006
Uma trinca italiana
Um dia dedicado ao cinema italiano abriu o Festival do Rio ontem. Primeiro a retrospectiva de Visconti com Um Rosto na Noite, garantindo um dia feliz de cinema. Alguns dos planos mais fortes da carreira do cineasta estão lá, mas mais que provocar prazer estético, são alguns dos momentos mais emocionantes do cinema.
De Visconti passamos para o cinema italiano contemporâneo e dois de seus cineastas mais conhecidos. O primeiro foi Roberto Benigni, que retoma alguns dos temas de seu celebrado A Vida é Bela em O Tigre e a Neve. A idéia de uma estória de amor realizada em cima de um acontecimento político (e trágico) é revisitada, inclusive com um primeiro ato concentrado no romance e um segundo na tragédia. A primeira parte é recheada de bons momentos, com um Benigni inspirado (para quem suporta seu estilo de humor). O segundo ato não é sempre pouco inspirado, mas é cheio de momentos despreziveis. A amada de Benigni fica entre a vida e a morte em Bagdá, em meio a invasão americana, e o segundo ato é feito dele operando milagres em meio ao caótico estado da cidade. Péssimo com simbolismos, Benigni vai recheando o filme deles, com alguns planos que beiram o execrável.
A terceira parte da visita ao cinema italiano vem O Crocodilo, o corajoso último filme de Nanni Moretti. Dele esperava mais, ainda que seja um filme cheio de momentos brilhantes. A estrutura geral não é tão forte quanto vários momentos individuais. Ele consegue uma interação entre os atores que, somada a seus cortes exatos, produz cenas geniais. Sua forma de abordar o tema Berlusconi é muito inteligente, fugindo por completo de caminhos fáceis. Mas a odisséia do produtor, interpretado por Silvio Orlando, perde força vez ou outra quando deixa de ser o foco principal. Os últimos minutos, mostrando o "filme dentro do filme", com o próprio Moretti na pele do ator que interpreta Berlusconi, são sensacionais.
De Visconti passamos para o cinema italiano contemporâneo e dois de seus cineastas mais conhecidos. O primeiro foi Roberto Benigni, que retoma alguns dos temas de seu celebrado A Vida é Bela em O Tigre e a Neve. A idéia de uma estória de amor realizada em cima de um acontecimento político (e trágico) é revisitada, inclusive com um primeiro ato concentrado no romance e um segundo na tragédia. A primeira parte é recheada de bons momentos, com um Benigni inspirado (para quem suporta seu estilo de humor). O segundo ato não é sempre pouco inspirado, mas é cheio de momentos despreziveis. A amada de Benigni fica entre a vida e a morte em Bagdá, em meio a invasão americana, e o segundo ato é feito dele operando milagres em meio ao caótico estado da cidade. Péssimo com simbolismos, Benigni vai recheando o filme deles, com alguns planos que beiram o execrável.
A terceira parte da visita ao cinema italiano vem O Crocodilo, o corajoso último filme de Nanni Moretti. Dele esperava mais, ainda que seja um filme cheio de momentos brilhantes. A estrutura geral não é tão forte quanto vários momentos individuais. Ele consegue uma interação entre os atores que, somada a seus cortes exatos, produz cenas geniais. Sua forma de abordar o tema Berlusconi é muito inteligente, fugindo por completo de caminhos fáceis. Mas a odisséia do produtor, interpretado por Silvio Orlando, perde força vez ou outra quando deixa de ser o foco principal. Os últimos minutos, mostrando o "filme dentro do filme", com o próprio Moretti na pele do ator que interpreta Berlusconi, são sensacionais.
segunda-feira, setembro 25, 2006
Jodorowsky + outros
Antes de desembarcarmos de vez no Rio, gostaria de fazer algumas recomendações em nome da Paisà.
Primeiro, a homenagem dedicada a Alejandro Jodorowsky. O cineasta chileno é uma figura da maior importância, e pouquíssimo visto. O Festival do Rio exibe três de seus seis longas: Fando y Lis, El Topo e The Holy Mountain. A trinca faz parte do período mais cult do cineasta, mas não abrange por completo sua carreira, por ser muito localizada. O que não diminui seu valor, dado a invisibilidade de seus filmes. Jodorowsky é o essencial do cinema extremo, no limite do surrealismo e das imagens fortes que construía com seu olhar único e selvagem. Seus filmes são uma verdadeira busca pelo lado mais instintivo da criação. Imperdível.
E não poderia deixa de reforçar a dica do Sérgio quanto ao novo De Palma. Dália Negra é um filme muito bom, em diversos momentos brilhante. Há ao menos uma seqüência antológica, num longo plano seqüência com gruas. Um verdadeiro mestre em ação.
E uma não recomendação: Medo e Obsessão, exibido em São Paulo anos atrás como Terra da Fartura. O penúltimo filme de Wim Wenders é patético, estéticamente nulo, políticamente covarde. Faz o fraco Estrela Solitária parecer uma obra-prima em comparação.
Primeiro, a homenagem dedicada a Alejandro Jodorowsky. O cineasta chileno é uma figura da maior importância, e pouquíssimo visto. O Festival do Rio exibe três de seus seis longas: Fando y Lis, El Topo e The Holy Mountain. A trinca faz parte do período mais cult do cineasta, mas não abrange por completo sua carreira, por ser muito localizada. O que não diminui seu valor, dado a invisibilidade de seus filmes. Jodorowsky é o essencial do cinema extremo, no limite do surrealismo e das imagens fortes que construía com seu olhar único e selvagem. Seus filmes são uma verdadeira busca pelo lado mais instintivo da criação. Imperdível.
E não poderia deixa de reforçar a dica do Sérgio quanto ao novo De Palma. Dália Negra é um filme muito bom, em diversos momentos brilhante. Há ao menos uma seqüência antológica, num longo plano seqüência com gruas. Um verdadeiro mestre em ação.
E uma não recomendação: Medo e Obsessão, exibido em São Paulo anos atrás como Terra da Fartura. O penúltimo filme de Wim Wenders é patético, estéticamente nulo, políticamente covarde. Faz o fraco Estrela Solitária parecer uma obra-prima em comparação.
domingo, setembro 24, 2006
De Palma, Almodóvar e Altman
O fechamento da próxima edição da Paisà nos obrigou a ficar em São Paulo até segunda à noite, mas como vi alguns filmes do Festival do Rio em cabines de imprensa, posso adiantar algumas
indicações.
Começando pela abertura do Festival: o novo filme de Brian De Palma, Dália Negra. É um filme até certo ponto desconcertante, já que De Palma parece mandar às favas as regras do noir, ao mesmo tempo em que se submete a elas de uma maneira estranha, com excesso de explicações e poucos planos mirabolantes. Mas os momentos de grande cinema existem aos montes, principalmente quando os que mostram a família doida da personagem de Hilary Swank. Adoraria rever no Odeon, mas não foi possível ainda.
Volver é um Almodóvar em grande forma, num filme muito mais direto que os anteriores. É, entre os filmes do diretor, o que mais dialoga com outros filmes. Há citações e autoreferências o filme inteiro, e Almodóvar deixa de lado sua direção ostensiva, ainda que muito talentosa, em favor de uma direção mais simples, mais em cima dos atores. É o tipo de filme que se ele fizesse há quinze anos sairia todo errado.
Sobre o novo filme de Robert Altman, A Última Noite, já escrevi para a próxima edição, mas vale dizer que é um de seus melhores filmes, ainda que, vindo de mim, essa recomendação não tenha tanta força, já que considero o diretor bem irregular. Quem normalmente gosta de seu cinema vai curtir muito o relato do último dia de um programa de rádio de country music.
Além desses, já passaram nos primeiros dois dias do festival: O Leopardo, de Luchino Visconti, um dos melhores filmes do mundo; O Inocente, outro filme espetacular de Visconti e Medo e Obsessão (antes chamado de Terra da Fartura), o pior filme de Wim Wenders. Para ficar só nos que eu já vi.
Para encerrar vale a recomendação de quatro coberturas na internet que certamente serão muito bem feitas (e que contam com redatores ou colaboradores da Paisà):
Contracampo: www.contracampo.com.br/82/festivaldorio2006.htm
Cinética: www.revistacinetica.com.br/coberturafestrio.htm
Cinequanon: www.cinequanon.art.br
Almanaque Virtual: www.almanaquevirtual.com.br/evento.php?id=3755
indicações.
Começando pela abertura do Festival: o novo filme de Brian De Palma, Dália Negra. É um filme até certo ponto desconcertante, já que De Palma parece mandar às favas as regras do noir, ao mesmo tempo em que se submete a elas de uma maneira estranha, com excesso de explicações e poucos planos mirabolantes. Mas os momentos de grande cinema existem aos montes, principalmente quando os que mostram a família doida da personagem de Hilary Swank. Adoraria rever no Odeon, mas não foi possível ainda.
Volver é um Almodóvar em grande forma, num filme muito mais direto que os anteriores. É, entre os filmes do diretor, o que mais dialoga com outros filmes. Há citações e autoreferências o filme inteiro, e Almodóvar deixa de lado sua direção ostensiva, ainda que muito talentosa, em favor de uma direção mais simples, mais em cima dos atores. É o tipo de filme que se ele fizesse há quinze anos sairia todo errado.
Sobre o novo filme de Robert Altman, A Última Noite, já escrevi para a próxima edição, mas vale dizer que é um de seus melhores filmes, ainda que, vindo de mim, essa recomendação não tenha tanta força, já que considero o diretor bem irregular. Quem normalmente gosta de seu cinema vai curtir muito o relato do último dia de um programa de rádio de country music.
Além desses, já passaram nos primeiros dois dias do festival: O Leopardo, de Luchino Visconti, um dos melhores filmes do mundo; O Inocente, outro filme espetacular de Visconti e Medo e Obsessão (antes chamado de Terra da Fartura), o pior filme de Wim Wenders. Para ficar só nos que eu já vi.
Para encerrar vale a recomendação de quatro coberturas na internet que certamente serão muito bem feitas (e que contam com redatores ou colaboradores da Paisà):
Contracampo: www.contracampo.com.br/82/festivaldorio2006.htm
Cinética: www.revistacinetica.com.br/coberturafestrio.htm
Cinequanon: www.cinequanon.art.br
Almanaque Virtual: www.almanaquevirtual.com.br/evento.php?id=3755