sexta-feira, janeiro 12, 2007

Sessão de abertura (com atraso) e sessão alemã


Mesmo tendo chegado apenas na quarta-feira em Atibaia, ontem pela manhã pude assistir à sessão de curtas-metragens exibidos na terça-feira à noite, primeiro dia de festival. Os trabalhos em 35 mms já eram relativamente velhos conhecidos, pelo menos para o pessoal que acompanhou a Mostra de Curtas de São Paulo em 2006. A sessão de películas estava assim: Yansan, de Carlos Eduardo Nogueira (um dos quatro curtas brasileiros selecionados em Clermont Ferrand); Joyce, de Carolina Leone; O som da luz e do trovão, de Petrônio Lorena e Tiago Scorza e Dos restos e solidões de Petrus Cariri. Quanto aos vídeos, na mesma sessão que os curtas acima citados, foram exibidos: Grinalda, um vídeo-improviso de Erly Vieira Jr; a animação Tem um dragão no meu baú, de Rosária Ferreira; e o documentário Arquitetos do mar.

Yansan acabou se destacando dos demais exatamente pelo seu caráter de "super-produção". O maior trunfo do filme é exatamente o domínio das técnicas formais do gênero animação, embora não deixe de resultar interessante a maneira como o autor usa o colorido estonteante das imagens em contraste com o tom sombrio e apocalíptico da narrativa em off de Milton Gonçalves.

O mérito de melhor filme exibido na sessão, porém, vai mesmo para o filme de Carolina Leone. A principal característica de Joyce é o fato de ele imergir totalmente no universo de sua personagem principal, uma garota de aproximadamente 12 anos. Joyce vive numa favela paulistana e o que filme mostra é apenas um curto período de tempo em sua vida. Apenas um final de tarde e uma noite são suficientes para que saibamos quem é a garota, do que ela gosta, como é sua rotina, como é sua relação com a família. Acompanhando sua trajetória, num determinado momento, nos pegamos completamente apaixonados por ela. Uma das grandes virtudes de uma obra cinematográfica é conseguir instigar o amor dos espectadores por seus personagens, para o bem ou para o mal. Mais do que apenas atestar a força e o poder de suas imagens, permitir que seus personagens, por piores que sejam, possam ser cativantes e, por que não, amados, é uma demonstração de sensibilidade e altruísmo que está presente em quase todos os grandes filmes. Voltando à Joyce, Carolina Leone permite que sua obra seja grande nesse sentido; sua personagem é forte porque a ela foi dada a chance de existir independentemente de amarras formais. E isso significa, existir a partir de sentimentos vivos e não enjaulados e pré-formatados. Vale não deixar de falar da cena mais bonita do filme (e que consegue sintetizá-lo tão despretensiosamente): um plongée mostra Joyce e a irmã dançando e cantando uma música em frente à tv (por acaso, um funk). Simples, porém não poderia ser mais emblemática em relação ao que o curta se propõe a ser. Nele, Joyce é mostrada, acima de tudo, como uma garota de 12 anos que pode dançar e cantar num microfone em frente à tv sem que isso seja ou signifique mais do que a reação normal de uma garota de 12 anos. Não há imposições por parte do filme para que a garota seja mais do que isso.

Quanto aos curtas alemães, sobre os quais o Sérgio me incumbiu de falar no post abaixo, devo dizer que os assisti, porém não numa situação muito favorável. O sistema de vídeo usado pelos alemães é o Pal-M, incompatível com o nosso NTSC, por isso, os filmes, que estavam em vídeo, foram projetados em preto-e-branco e alguns sem legendas. Tudo isso somado à péssima qualidade de som proporcionada pela improvisada sala de projeção do Centro de Convenções de Atibaia. Enfim...

Só para esclarecer, nem todos os curtas exibidos eram alemães, alguns eram belgas, mas todos estiveram presentes no Festival Internacional de Emden, Alemanha, em 2006 – aliás, Atibaia cada vez mais consolida seu perfil de festival que se caracteriza muito mais pela retrospectiva de títulos marcantes que surgiram durante o ano, do que por apresentar novidades ao panorama audiovisual brasileiro (título que, aliás, o Festival de Brasília reivindica a qualquer custo).

Mas, indo ao que interessa de fato, foi uma sessão cujos filmes apresentaram qualidade e teor de inventividade não mais do que medianos. As surpresas da exibição ficaram por conta dos curtas (todos alemães) Clube de Chicxu (Chicxulub), O dilema (Einstimmige Entscheidung) e da animação Kater (já exibida aqui no Brasil no Festival Anima-mundi). No geral, o nível dos curtas exibidos não pode, de forma alguma, ser considerado muito superior à produção brasileira. Se uma seleção dos melhores filmes nacionais exibidos no Festival Internacional de Curtas de São Paulo fosse feita, por exemplo, certamente nossas obras não deixariam nada a desejar ao conjunto que vi ontem.





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