sábado, janeiro 13, 2007

Uma sessão inspirada


Ontem eu estava extremamente cansado por andanças debaixo de um sol seco e forte no dia anterior, além de uma noite mal dormida - pois fiquei esperando uma van imaginária que me levaria a São Paulo para ver Cartas de Iwo Jima, e essa van, como eu devia ter desconfiado, era mesmo imaginária. Resultado: nova cabine perdida. Resolvi dormir mais um pouco e, depois do almoço, descansar no hotel, já que a sessão de curtas era com filmes de outros tempos. Nada contra os tais outros tempos, ainda mais que o primeiro da sessão seria o belo Aruanda; mas eu não estava no clima para ver filmes tão díspares do restante do festival. Melhor me preparar mentalmente para a aguardada sessão das oito.

Realmente, foi uma sessão primorosa, que começou com o delicado e emotivo Tinha a Gata Gioconda, e terminou com o quase genial Eletrodoméstica. No meio, belos filmes como A Resistência do Vinil e No Princípio era o Verbo, além das experiências, no mínimo, alentadoras de Deu no Jornal e De Glauber para Jirges. Sobre o último, apesar do inevitável interesse que provoca, senti uma incômoda sensação de facilidade, pois seria quase impossível fazer um filme com esse tema (as cartas trocadas entre Jirges Ristum, pai do diretor, André Ristum, e Glauber Rocha) que não fosse ao menos bom de se ver. A montagem de Eryk Rocha acentua a semelhança com o superior A Rocha que Voa, e isso contribuiu para que minhas impressões viessem enviezadas, cheias de ressalvas, apesar de eu ter curtido o filme. Sobre Deu no Jornal, acho o tipo de filme que não melhora na revisão, mas que também não pode ser desprezado como simples piada. Porque de fato nem é uma piada, mas um crescendo de idéias que só podia terminar em gozo. A coragem de realizar o único final digno é o maior mérito do filme. Tinha a Gata Gioconda é uma delícia de se ver, e um pensamento bem claro por trás de sua realização; e A Resistência do Vinil me provocou reações emocionadas, por ser um tema tão próximo de mim (venda e coleção de vinis). Por isso não sei se tenho condições de analisá-lo de modo mais frio, ou de realizar uma breve crítica. Mas ficou evidente o excelente trabalho de edição, dando um sentido especial ao desenvolvimento das entrevistas, e ao clima de decadência de um tipo de cultura, a das lojas de discos, que promovem encontros apaixonados e atraem tanta gente carente.

Chegamos então às duas pepitas da sessão: No Princípio Era O Verbo e Eletrodomésticas. O primeiro é uma tocante ode à palavra, e ao conversar livremente, à transmissão de sabedoria, à troca de conhecimento, desde os mais embasados até os chutes, as lendas. Muito do que se diz no filme parece estar ali apenas para tornar mais clara a importância dos encontros, a necessidade do contato com outras pessoas. Há uma tensão evidente no menino que entra dentro de uma caixa e sai atravessando ruas e praças debaixo dela, até chegar ao bar onde se desenvolve a maior parte do filme. São pequenos encontros, pessoas que aprendem com o outro, aprendem com a necessidade de negar o outro, com a saudável arte da discussão, com a transmissão de valores, de crenças...um filme a que se deve voltar com mais freqüência. Eletrodoméstica empolga com seu estranhamento tão típico da observação das pequenas coisas, dos detalhes do cotidiano. Um estranhamento causado também pela falta de vergonha em se assumir como um filme de representação de observações, mais do que de desenvolvimento de narrativas. Kleber Mendonça Filho confirmou hoje, em debate com os realizadores, seu desinteresse pelo compromisso de contar uma história. Porque sabe que a vida não é feita de histórias, mas de pequenos detalhes, gestos que normalmente passam despercebidos, mas que dão dimensão psicológicas às pessoas. Por que não falar em personagens? Não seria o caso de negar a narrativa, a necessidade da trama, mas de mostrar que as pessoas são personagens, logo, os personagens devem ser pessoas. Claro, a menos que o desejo seja fazer filmes de gênero, ou entretenimento clássico ficcional com ou sem profundidade psicológica. O que é inegável, é que tanto em No Princípio era O Verbo quanto em Eletrodoméstica, o que temos é a noção mais rica possível de um ser humano, pelo simples ato de se abrir a eles, de tentar entendê-los sem defrontá-los com grandes dramas da vida. Essas pessoas podem ser grandes mesmo nas pequenas coisas do dia-a-dia, e é nessas pequenas coisas, e no modo como elas podem ser observadas, que reside boa parte do encanto que elas podem exercer.





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