sábado, maio 26, 2007
14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá - 1º dia
Bem-vindos a mais uma cobertura de festival da Revista Paisà. Cheguei ontem de manhã e felizmente o calor não estava absurdo. Muito ao contrário, tava até um friozinho gostoso. o hotel é bacana, e o pessoal da assessoria de imprensa é 100%. Tudo perfeito para que haja uma boa cobertura por aqui. Um único senão: talvez por falta de experiência na recepção a jornalistas de fora, temos uma dificuldade imensa em usar o computador na sala de imprensa. Poucos terminais, e muita gente para usá-los. Estou numa Lan, conveniada com o Festival. Mas por aqui o barulho impede uma concentração ideal, e por isso peço desculpas por eventuais deslizes na cobertura por aqui. Quando voltar a São Paulo apronto um texto mais crítico para a próxima edição da Revista. Por enquanto, mando as impressões informais, no calor do momento, sobre as sessões.
No primeiro dia de cobertura, o segundo do festival, tive que fazer escolhas. Ou via todos os curtas da segunda sessão, ou perdia os primeiros para jantar, já que a primeira sessão atrasou e praticamente não houve intervalo antes da segunda.
O que ficou da primeira sessão foi sua regularidade. Nenhum dos filmes vistos impressiona, assim como nenhum deles mereça grandes senões. A Gente Só Ta Fazendo um Documentário, de Cláudio Dias e Gilson Costta, explora bem as dificuldades de vida na periferia de Cuiabá, o preconceito que os habitantes enfrentam, as dificuldades de saneamento e segurança, tudo numa montagem acertada e funcional, que valoriza os depoimentos. Depois foi a vez de Quanto Mais Manga Melhor, de Michelle Lavalle, uma bela homenagem a um dos mais importantes diretores da Atlântida, Carlos Manga. Passeamos por seus filmes e idéias e, no final, lamentamos a curta duração. Fica a impressão que a diretora tinha material suficiente para um longa, mas, claro, é só uma impressão. Paralelos, de Alexandre Basso, veio depois, e, confesso, não me lembro muito dele. Coisas assim acontecem, especialmente no dia de chegada, com o inevitável cansaço - peço desculpas. Lembro apenas que é bem filmado, e que não me entusiasmou muito, para além de sua estrutura coesa e de uma crença evidente do diretor no material que tem em mãos. Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomas Farkas e Ricardo Dias, é correto, tem músicas sensacionais (e nem tinha como ser diferente), mas não decola, talvez pela falta de imagens. O fato é que ele termina rápido e sem tocar, o que não é muito bom para uma homenagem a um gênio da música. Em seguida, foi a vez do longa de Vladimir Carvalho, O Engenho de Zé Lins, belo filme sobre José Lins do Rêgo, escritor modernista, flamenguista e polêmico apaixonado. Um trabalho sincero e comovente, e que é sensivelmente uma obra cara ao diretor, como ele mesmo disse na apresentação do filme.
Depois de um jantar agradável na companhia dos amigos Luiz Carlos de Oliveira Junior, da Contracampo, e Cid Nader, do Cinequanon, entrei no meio de um videoclipe da banda Claudia' Parachute. A banda parece boa, e o clipe bem interessante. Mas o jantar ainda estava pesando, e minha concentração ainda não estava no ponto. A Última Chuva, o curta seguinte, de autoria de Vitor Meirelles, é de Mato Grosso, mas foi o pior que vi até aqui. Mal filmado (problemas com o eixo acontecem o tempo todo, com atores olhando para o vazio, quando os personagens que eles interpretam deveriam estar olhando para a mulher na varanda, por exemplo), com uma solenidade que raramente condiz com o tema, o curta é realmente um equívoco, o que é uma pena. Vai indo Que Eu Já Vou, de Rubens Barros e Marcelo Perez, é o melhor curta visto na sessão. Com bom humor e montagem que valoriza esse humor, retrata a maneira com que diferentes pessoas, de diferentes culturas, encaram a morte inevitável. Os depoimentos são sempre interessantes, quando não engraçados, e o filme flui agradavelmente. Parabéns Vitor, de Leonardo Sant'Ana, é outro exemplo de curta didático em excesso, que abusa de um artifício que Ettore Scola já havia tornado comum no cinema comercial - o flashback que tem as duas instâncias da mesma pessoa no mesmo quadro -, mas também não consegue empolgarEncerrando a sessão, veio a revisão de Proibido Proibir, filme de Jorge Duran que, sei lá por quê, parece desagradar mais aos críticos paulistas (ainda que não a todos) do que a quaisquer outros críticos de quaisquer outras cidades. Tenho certeza que não se trata de bairrismo, pelo menos dos críticos paulistanos que eu conheço, mas de algo que escapa a nós, que talvez faça com que o encaremos sem condescendência (algo comum em nosso meio, principalmente com filmes brasileiros, e que deveria ser sempre evitado). Continuo achando que o filme tem bons momentos, mas que estão soterrados por um montão de bobagens, má dramaturgia – o que é grave, quando a opção é se centrar nos problemas dos personagens. Um filme de boas intenções, mas que nunca consegue realizá-las plenamente. A presença de uma reprodução de Lição de Anatomia, de Rembrandt, no apartamento onde mora o médico interpretado por Caio Blat, por exemplo, é uma bobagem auto-explicativa, que só piora quando, antes de operar o amigo atingido por uma bala, ele olha para o quadro, como que tentando tirar as forças que precisa para ser bem sucedido na operação. Hora de me despedir, que o barulho da molecada jogando por aqui tá beirando o insuportável para um moço velho como eu.
Cotações:
curtas:
A Gente só ta Fazendo um Documentário * * *
Quanto Mais Manga Melhor * * *
Paralelos * *
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba * *
A Última Chuva - mico
Vai Indo que Eu Já Vou * * *
Parabéns Vitor *
longas:
O Engenho de Zé Lins * * *
Proibido Proibir *
No primeiro dia de cobertura, o segundo do festival, tive que fazer escolhas. Ou via todos os curtas da segunda sessão, ou perdia os primeiros para jantar, já que a primeira sessão atrasou e praticamente não houve intervalo antes da segunda.
O que ficou da primeira sessão foi sua regularidade. Nenhum dos filmes vistos impressiona, assim como nenhum deles mereça grandes senões. A Gente Só Ta Fazendo um Documentário, de Cláudio Dias e Gilson Costta, explora bem as dificuldades de vida na periferia de Cuiabá, o preconceito que os habitantes enfrentam, as dificuldades de saneamento e segurança, tudo numa montagem acertada e funcional, que valoriza os depoimentos. Depois foi a vez de Quanto Mais Manga Melhor, de Michelle Lavalle, uma bela homenagem a um dos mais importantes diretores da Atlântida, Carlos Manga. Passeamos por seus filmes e idéias e, no final, lamentamos a curta duração. Fica a impressão que a diretora tinha material suficiente para um longa, mas, claro, é só uma impressão. Paralelos, de Alexandre Basso, veio depois, e, confesso, não me lembro muito dele. Coisas assim acontecem, especialmente no dia de chegada, com o inevitável cansaço - peço desculpas. Lembro apenas que é bem filmado, e que não me entusiasmou muito, para além de sua estrutura coesa e de uma crença evidente do diretor no material que tem em mãos. Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomas Farkas e Ricardo Dias, é correto, tem músicas sensacionais (e nem tinha como ser diferente), mas não decola, talvez pela falta de imagens. O fato é que ele termina rápido e sem tocar, o que não é muito bom para uma homenagem a um gênio da música. Em seguida, foi a vez do longa de Vladimir Carvalho, O Engenho de Zé Lins, belo filme sobre José Lins do Rêgo, escritor modernista, flamenguista e polêmico apaixonado. Um trabalho sincero e comovente, e que é sensivelmente uma obra cara ao diretor, como ele mesmo disse na apresentação do filme.
Depois de um jantar agradável na companhia dos amigos Luiz Carlos de Oliveira Junior, da Contracampo, e Cid Nader, do Cinequanon, entrei no meio de um videoclipe da banda Claudia' Parachute. A banda parece boa, e o clipe bem interessante. Mas o jantar ainda estava pesando, e minha concentração ainda não estava no ponto. A Última Chuva, o curta seguinte, de autoria de Vitor Meirelles, é de Mato Grosso, mas foi o pior que vi até aqui. Mal filmado (problemas com o eixo acontecem o tempo todo, com atores olhando para o vazio, quando os personagens que eles interpretam deveriam estar olhando para a mulher na varanda, por exemplo), com uma solenidade que raramente condiz com o tema, o curta é realmente um equívoco, o que é uma pena. Vai indo Que Eu Já Vou, de Rubens Barros e Marcelo Perez, é o melhor curta visto na sessão. Com bom humor e montagem que valoriza esse humor, retrata a maneira com que diferentes pessoas, de diferentes culturas, encaram a morte inevitável. Os depoimentos são sempre interessantes, quando não engraçados, e o filme flui agradavelmente. Parabéns Vitor, de Leonardo Sant'Ana, é outro exemplo de curta didático em excesso, que abusa de um artifício que Ettore Scola já havia tornado comum no cinema comercial - o flashback que tem as duas instâncias da mesma pessoa no mesmo quadro -, mas também não consegue empolgarEncerrando a sessão, veio a revisão de Proibido Proibir, filme de Jorge Duran que, sei lá por quê, parece desagradar mais aos críticos paulistas (ainda que não a todos) do que a quaisquer outros críticos de quaisquer outras cidades. Tenho certeza que não se trata de bairrismo, pelo menos dos críticos paulistanos que eu conheço, mas de algo que escapa a nós, que talvez faça com que o encaremos sem condescendência (algo comum em nosso meio, principalmente com filmes brasileiros, e que deveria ser sempre evitado). Continuo achando que o filme tem bons momentos, mas que estão soterrados por um montão de bobagens, má dramaturgia – o que é grave, quando a opção é se centrar nos problemas dos personagens. Um filme de boas intenções, mas que nunca consegue realizá-las plenamente. A presença de uma reprodução de Lição de Anatomia, de Rembrandt, no apartamento onde mora o médico interpretado por Caio Blat, por exemplo, é uma bobagem auto-explicativa, que só piora quando, antes de operar o amigo atingido por uma bala, ele olha para o quadro, como que tentando tirar as forças que precisa para ser bem sucedido na operação. Hora de me despedir, que o barulho da molecada jogando por aqui tá beirando o insuportável para um moço velho como eu.
Cotações:
curtas:
A Gente só ta Fazendo um Documentário * * *
Quanto Mais Manga Melhor * * *
Paralelos * *
Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba * *
A Última Chuva - mico
Vai Indo que Eu Já Vou * * *
Parabéns Vitor *
longas:
O Engenho de Zé Lins * * *
Proibido Proibir *