domingo, junho 17, 2007
Seminário: Anos 50 - Transição para o Moderno
O primeiro seminário da Mostra de Ouro Preto permitiu experiências essenciais: a divulgação de informação com a melhor didática possível - o que é natural, pois todos na mesa têm experiência como professor; a reorganização de idéias permitida por um novo contato com informações já antes lidas e apreendidas; e a discussão proporcionada pela declaração de Nelson Pereira dos Santos de que ele não fazia parte do cinema novo, e nunca fez. Se pensarmos bem, são apenas dois ou três filmes que poderiam ser naturalmente entendidos como parte daquele momento chave. Mas parecia impossível dissociar o cinema desse grande autor do movimento encabeçado por Glauber Rocha. Esse pensamento, norteado pela declaração do Nelson, foi explorado ou pelo menos comentado em quase todas as falas. O curador Cléber Eduardo, que estava mediando o seminário,foi hábil em ter deixado as duas falas menos pesquisadas e elaboradas para o final. Assim, as falas elucidativas e brilhantes de Luis Alberto Rocha Melo, José Carlos Avellar e Arthur Autran receberam um contraponto interessante com as falas mais soltas e baseadas na experiência de Inácio Araujo e Daniel Caetano. A fala de Rocha Melo centrou-se na carreira de Alinor Azevedo, fundador da Atlantida e importante roteirista do período. Alinor era considerado o Zavattini brasileiro, em alusão a um dos mais influentes escritores do neo realismo italiano. Autran falou da produção crítica do período, fazendo um recuo aos anos 40 e uma ponte aos 60 e destacando o trabalho de Alex Viany e Antonio Moniz Viana. Avellar fez uma interessante observação sobre a involução que o cinema sonoro apresnetou até os anos 50, com a música servindo apenas como reforço das emoções, e não oferecendo um contraponto às imagens. Nesse sentido, segundo Avellar, ele estaria se limitando a algo que Eisenstein fazia sem som, com o simples bater de ondas nas rochas. Obviamente a ponte com o cinema contemporâneo foi inevitável, já que ainda hoje a trilha sonora é usada quase que exclusivamente para o mesmo sentido de atribuir a emoção que a imagem por si só não conseguiria, o que é lamentável e limitador na maior parte do cinema comercial de hoje. Caetano divagou em torno de sua amizade com Nelson Pereira, e a partir daí ofereceu muitas possibilidades de reflexão, algumas a partir de seus próprios pensamentos, outras a partir do que está na cabeça do Nelson. Inácio fez, como de hábito, uma fala simples e solta, uma delícia para encerrar o debate, com muita opinião e propriedade. Como brinde, ainda tivemos a presença, no finalzinho, do diretor de O Saci, Rodolfo Nanni, simpático e alegre octagenário. A parceria da Universo Produção com o curador Cléber Eduardo parece finalmente ter atingido o ponto com esta 2ª. Mostra de Ouro Preto. Se em Tiradentes a aposta havia sido na reflexão sobre uma certa contemporaneidade, e os debates, apesar de muito prestigiados, haviam decepcionado um pouco, pois era esperado uma maior discussão estética que só veio em parte, aqui a coisa parece ter começado com o pé direito, com doses iguais de sabedoria, didatismo e desejo de transmitir e dividir o repertório demonstrado pelos participantes.