quarta-feira, novembro 14, 2007
Dira, Boorman, os filmes e os filmes
Últimos filmes vistos:
Assembly, filme grandioso chinês, dirigido por Feng Xiaogang (mesmo diretor de O Banquete). Grandioso demais, eu diria. Muito bem filmado, com a estética atual para filmes de guerra, cortes rápidos e efeitos de montagem que ao mesmo tempo que atenuam a violência, entregam muito mais de seu teor. Ou seja, quando um braço é decepado, a montagem usa um efeito que nunca sei bem qual é, mas que repica a imagem, como um strobble imperceptível. Vemos claramente que o braço é decepado, e como o trabalho de maquiagem é mais realista que antigamente, atenua-se o choque com esse efeito. Não incomoda, ao contrário da panorâmica que é feita em determinado momento para mostrar que um soldado perdeu as duas pernas. O filme melhora quando os anos passam, e as feridas que não sangram começam a se manifestar com mais força. Mas é grandioso demais, pesado demais, com cara de filme dirigido por um comitê investidor.
His Majesty Minor, de Jean-Jacques Annaud, é muito melhor do que eu esperava. Claro, não chega a ser um bom filme. A opção pela parábola e pelo retorno fabulesco aos mitos alterna o tom infantil com um erotismo que parece meio adolescente. Mas é um filme que dá pra ver do início ao fim, o que não se pode dizer de vários filmes de Annaud (a maioria, infelizmente). Antes que me perguntem, salvo dessa maioria Guerra do Fogo e O Urso, dois filmes bem simpáticos)
Si le Vent Soulève les Sables, de Marion Hänsel, é um duro filme rodado na África. Fala das delimitações de territórios que favoreciam os interesses dos colonizadores, nunca das tribos colonizadas. A África se tornou, assim, um continente onde tribos diferentes foram obrigadas a conviver num mesmo país, obedecendo às mesmas regras, o que gerou diversas guerrilhas. Uma família foge de uma dessas guerrilhas, em busca de um lugar melhor para se viver. Enfrenta o deserto gigantesco, mas também exércitos da situação, bem como de rebeldes. cada um toma um filho da família. Uma história que tinha tudo para cair no sentimentalismo, com trilha chorosa, situações catárticas, soluções cinematográficas de quinta. Mas Hänsel, se não é uma diretora de primeira, sabe muito bem conduzir o filme num tom sempre sóbrio, com belos planos - sem ser chamativos para essa beleza - e uma escolha de elenco primorosa. Em uma cena chave, a pequena Shasha tem que percorrer um longo caminho a pé para provar aos rebeldes que o caminho não tem minas explosivas. Como ninguém sabe se o caminho tem minas ou não, o suspense é garantido. E Hänsel filma o trajeto todo de forma seca, sem música, em completo silêncio. É de se corroer de tensão na poltrona. Não sei se desbanca Lucky Miles como o meu favorito entre os filmes de competição, mas é um filme que não merecia ser ignorado como foi durante suas exibições na última Mostra SP.