sábado, setembro 30, 2006
Um belo filme em um dia estranho
Relevem, por favor, este post extremamente pessoal. Foi a única forma que encontrei de relatar o dia de ontem, quando eu realmente estava com a capacidade de concentração muito aquém do que deveria. Falta de sono? Certamente foi o principal fator. Mas também um progressivo cansaço, que veio, dia a dia, minando minha resistência física e se aliando às noites de sono irregular.
O pobre Visconti foi prejudicado com isso. As Vagas Estrelas da Ursa me pareceu um filme ainda mais problemático do que eu havia achado em algum ano da primeira metade dos anos 90. Os zooms, antes de serem ousados, parecem toscos e indecisos. Visconti usa o zoom out para mostrar o cômodo no qual Claudia Cardinale havia entrado, mas logto usa o zoom in, para recondicioná-la em outro canto do cômodo. É uma operação de estranheza, que Visconti parece não saber como realizar. Claro, os momentos de grande cinema estão ali, seja na inteligente forma de captar o incesto (sempre com planos fechados, e um preto e branco que parece negar a suntuosidade de seu longa anterior, O Leopardo), seja na trilha de Cesar Frank, que o aproxima ainda mais do que buscava Antonioni. Mas em vez de emular o cinema do diretor de O Eclipse, Vagas Estrelas lembra mais um filme menor de Walter Hugo Khouri. Claro, foi o filme do dia em que eu mais lutei contra o sono e, por isso, não consegui evitar a dispersão em vários momentos. Por isso, admito que devo ter deixado algo importante passar.
Depois veio o filme de Pedro Costa, Juventude em Marcha. É dos melhores do festival até aqui. Claro, minha condição estava melhor que no filme do Visconti, e o modo com que ele trabalha com o tempo exige uma adaptação de nossa capacidade física e mental que sempre me pareceu mais fácil de se conseguir. Embarquei bem no ritmo do filme, que, segundo Cléber Eduardo, faz Manoel de Oliveira parecer o Tony Scott. Tem muita influência de Straub, um humor muito peculiar de Portugal (apesar de diferente, com muitos pontos de contato com o de Manoel de Oliveira e João Cesar Monteiro), e uma incrível capacidade de enquadramento, que busca a verticalização das coisas. Os momentos antológicos são a enésima leitura da carta de Ventura, quando o amigo vira e diz: "péssima carta, Ventura", a cena do disco tocando e a agulha pulando por causa de rabiscos frenéticos na mesa, e o quarto de família, com a menina dançando a musiquinha de umprograma infantil chamado Viva Franklin (ou só Franklin). É filme para ser revisto.
Como sempre, minha última sessão do dia foi a que melhor acompanhei. Historicamente, consigo a maior capacidade de concentração em filmes depois das 21h. El Laberinto del Fauno começou à meia-noite. Uma sessão maldita concorrida como nenhuma outra do festival até aqui, com três ou quatro lugares vagos. Trata-se de um bom filme de Guillermo Del Toro. Uma fábula que não é dirigida a toda a família, pela grande dose de violência e por exacerbar os momentos de perigo, fazendo com que a tensão nos acompanhe durante toda a sessão. Tem uns momentos catárticos desnecessários - o vilão é muito mau, logo, seu castigo será de extrema violência - e a primeira meia hora parece meio desigual como tom do resto do filme. Isso certamente foi proposital, pois Del Toro tinha a clara intenção de mergulhar a personagem de Ofélia no ambiente da fábula, de maneira irrestrita, como contraponto aos conselhos da mãe e do padastro. É filme que pode render boas elocubrações. Há muitas possibilidades de reflexão, desde o nome dos personagens até a ambientação de final da Segunda Guerra. E claras citações a outros filmes: O Iluminado (na perseguição dentro do labirinto), Na Companhia de Lobos (no subtexto - ou texto mesmo - da sexualidade de uma pré-adolescente) e outros filmes que me vieram durante a projeção, mas que agora esqueci.
Cotações:
As Vagas Estrelas da Ursa * * *
Juventude em Marcha * * * *
El Laberinto del Fauno * * *
O pobre Visconti foi prejudicado com isso. As Vagas Estrelas da Ursa me pareceu um filme ainda mais problemático do que eu havia achado em algum ano da primeira metade dos anos 90. Os zooms, antes de serem ousados, parecem toscos e indecisos. Visconti usa o zoom out para mostrar o cômodo no qual Claudia Cardinale havia entrado, mas logto usa o zoom in, para recondicioná-la em outro canto do cômodo. É uma operação de estranheza, que Visconti parece não saber como realizar. Claro, os momentos de grande cinema estão ali, seja na inteligente forma de captar o incesto (sempre com planos fechados, e um preto e branco que parece negar a suntuosidade de seu longa anterior, O Leopardo), seja na trilha de Cesar Frank, que o aproxima ainda mais do que buscava Antonioni. Mas em vez de emular o cinema do diretor de O Eclipse, Vagas Estrelas lembra mais um filme menor de Walter Hugo Khouri. Claro, foi o filme do dia em que eu mais lutei contra o sono e, por isso, não consegui evitar a dispersão em vários momentos. Por isso, admito que devo ter deixado algo importante passar.
Depois veio o filme de Pedro Costa, Juventude em Marcha. É dos melhores do festival até aqui. Claro, minha condição estava melhor que no filme do Visconti, e o modo com que ele trabalha com o tempo exige uma adaptação de nossa capacidade física e mental que sempre me pareceu mais fácil de se conseguir. Embarquei bem no ritmo do filme, que, segundo Cléber Eduardo, faz Manoel de Oliveira parecer o Tony Scott. Tem muita influência de Straub, um humor muito peculiar de Portugal (apesar de diferente, com muitos pontos de contato com o de Manoel de Oliveira e João Cesar Monteiro), e uma incrível capacidade de enquadramento, que busca a verticalização das coisas. Os momentos antológicos são a enésima leitura da carta de Ventura, quando o amigo vira e diz: "péssima carta, Ventura", a cena do disco tocando e a agulha pulando por causa de rabiscos frenéticos na mesa, e o quarto de família, com a menina dançando a musiquinha de umprograma infantil chamado Viva Franklin (ou só Franklin). É filme para ser revisto.
Como sempre, minha última sessão do dia foi a que melhor acompanhei. Historicamente, consigo a maior capacidade de concentração em filmes depois das 21h. El Laberinto del Fauno começou à meia-noite. Uma sessão maldita concorrida como nenhuma outra do festival até aqui, com três ou quatro lugares vagos. Trata-se de um bom filme de Guillermo Del Toro. Uma fábula que não é dirigida a toda a família, pela grande dose de violência e por exacerbar os momentos de perigo, fazendo com que a tensão nos acompanhe durante toda a sessão. Tem uns momentos catárticos desnecessários - o vilão é muito mau, logo, seu castigo será de extrema violência - e a primeira meia hora parece meio desigual como tom do resto do filme. Isso certamente foi proposital, pois Del Toro tinha a clara intenção de mergulhar a personagem de Ofélia no ambiente da fábula, de maneira irrestrita, como contraponto aos conselhos da mãe e do padastro. É filme que pode render boas elocubrações. Há muitas possibilidades de reflexão, desde o nome dos personagens até a ambientação de final da Segunda Guerra. E claras citações a outros filmes: O Iluminado (na perseguição dentro do labirinto), Na Companhia de Lobos (no subtexto - ou texto mesmo - da sexualidade de uma pré-adolescente) e outros filmes que me vieram durante a projeção, mas que agora esqueci.
Cotações:
As Vagas Estrelas da Ursa * * *
Juventude em Marcha * * * *
El Laberinto del Fauno * * *