segunda-feira, outubro 01, 2007
Domingo de carteiradas
O quinto mandamento do cinéfilo carioca avisa que sábados e domingos são dias complicados para se tentar a famigerada carteirada. Mas como o Botafogo saiu do ar justamente no sábado, quando fui tirar os ingressos de domingo, tive que usar o expediente durante a tarde, e acabei extendendo para o Espaço de Cinema e Palácio, durante a noite.
Foi um dia de decepções (Cem Pregos, já comentado pelo Filipe, e que é muito pouco para quem já fez O Posto), surpresas (Déficit, a estréia de Gael Garcia Bernal como diretor) e dois filmes que me entediaram em alguns momentos, mas são fortes (Uma Velha Amante) ou problemáticos (Deserto Feliz).
Sobre Uma Velha Amante, o filme da Catherine Breillat - diretora dos muito superiores Anatomia do Inferno e Breve Travessia - deixo para o Filipe escrever, pois ele é muito mais entusiasmado com o filme. Apesar dos aborrecimentos que uma ou outra cena me causou, reconheço os momentos de força do filme, especialmente quando os coadjuvantes conduzem a narrativa. Mas a performance de Asia Argento pela primeira vez me desagradou.
Déficit, de Gael Garcia Bernal, é surpreendente porque parece uma celebração de uma inconsequência típica da juventude, mas necessária, em certos momentos, a qualquer um que não queira enlouquecer. É um filme de verão, encontro de amigos para farrear num final de semana de calor numa cidade turística mexicana. Gael se apaioxona por uma argentina, a encantadora Luz Cipriota, e para conquistá-la faz de tudo para que sua namorada se perca no caminho, e chegue com muito atraso à sua casa de férias, ou nunca chegue. Durante sua estratégia um tanto atrapalhada de despiste e conquista - o que confere a maior parte da graça do filme - acompanhamos belos momentos com os amigos dele e da irmã chegando perto de vários limites. Infelizmente, na parte final do filme, tais limites cobram o preço, e as conseqüências surgem avassaladoras. Com tantas festas de arromba sem que nada de mal aconteça, Gael, como muitos diretores, preferiu filmar uma em que todos os excessos são punidos, e aí o que era inconsequente fica amargo, mas sem que estejamos sequer próximos de um Dino Risi, que faz a mesma operação no genial Aquele que Sabia Viver, com um resultado muito superior.
Deserto Feliz me incomodou principalmente pela necessidade de se explorar os tempos mortos antes de qualquer aproximação com a personagem da adolescente que entra para a prostituição. O desejo primeiro é o de criar uma grife, uma associação com filmes elogiados anteriormente como Cinema, Aspirinas e Urubus e Baixio das Bestas. Mas Paulo Caldas insiste tanto nos truques de estilo, como na micro câmera com lente grande angular que persegue o personagem de Peter Ketnath, ou no scope esmaecido, ou ainda nos diálogos bem soltos das prostitutas, e que poderiam render muito mais se houvesse uma dramaturgia sendo trabalhada desde o início. Não se pode dizer que ele foi feito na cola dos outros filmes citados, inclusive porque sua produção se iniciou há quatro anos, mas em comparação, fica claro que o que falta a Deserto Feliz é uma noção maior de como nos aproximar da protagonista. E a culpa certamente não é dela, que está muito bem no filme.
Foi um dia de decepções (Cem Pregos, já comentado pelo Filipe, e que é muito pouco para quem já fez O Posto), surpresas (Déficit, a estréia de Gael Garcia Bernal como diretor) e dois filmes que me entediaram em alguns momentos, mas são fortes (Uma Velha Amante) ou problemáticos (Deserto Feliz).
Sobre Uma Velha Amante, o filme da Catherine Breillat - diretora dos muito superiores Anatomia do Inferno e Breve Travessia - deixo para o Filipe escrever, pois ele é muito mais entusiasmado com o filme. Apesar dos aborrecimentos que uma ou outra cena me causou, reconheço os momentos de força do filme, especialmente quando os coadjuvantes conduzem a narrativa. Mas a performance de Asia Argento pela primeira vez me desagradou.
Déficit, de Gael Garcia Bernal, é surpreendente porque parece uma celebração de uma inconsequência típica da juventude, mas necessária, em certos momentos, a qualquer um que não queira enlouquecer. É um filme de verão, encontro de amigos para farrear num final de semana de calor numa cidade turística mexicana. Gael se apaioxona por uma argentina, a encantadora Luz Cipriota, e para conquistá-la faz de tudo para que sua namorada se perca no caminho, e chegue com muito atraso à sua casa de férias, ou nunca chegue. Durante sua estratégia um tanto atrapalhada de despiste e conquista - o que confere a maior parte da graça do filme - acompanhamos belos momentos com os amigos dele e da irmã chegando perto de vários limites. Infelizmente, na parte final do filme, tais limites cobram o preço, e as conseqüências surgem avassaladoras. Com tantas festas de arromba sem que nada de mal aconteça, Gael, como muitos diretores, preferiu filmar uma em que todos os excessos são punidos, e aí o que era inconsequente fica amargo, mas sem que estejamos sequer próximos de um Dino Risi, que faz a mesma operação no genial Aquele que Sabia Viver, com um resultado muito superior.
Deserto Feliz me incomodou principalmente pela necessidade de se explorar os tempos mortos antes de qualquer aproximação com a personagem da adolescente que entra para a prostituição. O desejo primeiro é o de criar uma grife, uma associação com filmes elogiados anteriormente como Cinema, Aspirinas e Urubus e Baixio das Bestas. Mas Paulo Caldas insiste tanto nos truques de estilo, como na micro câmera com lente grande angular que persegue o personagem de Peter Ketnath, ou no scope esmaecido, ou ainda nos diálogos bem soltos das prostitutas, e que poderiam render muito mais se houvesse uma dramaturgia sendo trabalhada desde o início. Não se pode dizer que ele foi feito na cola dos outros filmes citados, inclusive porque sua produção se iniciou há quatro anos, mas em comparação, fica claro que o que falta a Deserto Feliz é uma noção maior de como nos aproximar da protagonista. E a culpa certamente não é dela, que está muito bem no filme.