segunda-feira, outubro 16, 2006
Brasileiros
O Ano em que Meus Pais Sairam de Férias confirma que Cao Hamburger tem um talento raro para captar o olhar infantil (tarefa das mais dificeis). Seu grande mérito é a forma como utiliza o seu ambiente (o bairro de Bom Retiro aqui em São Paulo e em particular a comunidade judaica dele). Ao contrario de outros filmes recentes que se passam na ditadura, O Ano em que Meus Pais Sairam de Férias tem uma noção de tempo e lugar. Quando o garoto entra num barzinho, o filme tem uma relação real com um bar em Bom Retiro de 1970, ou seja, estamos bem distante da relação canibalizante com a História da maioria dos filmes historicos brasileiros. Até a Copa de 70 é usada numa chave que foge da oposição boba de um Pra Frente Brasil ou da evocação nostálgica habitual. Em suma, Cao Hamburger sabe olhar algo muito em falta no nosso cinema.
Falando em olhar apurado, vale muito a pena tentar programar Sonhos de Peixe, um filme surpreendentemente bom que o russo Kirill Mikhanovsky rodou no Ceara. A primeira metade realiza um exercicio de aproximação com a pequena comunidade de pescadores muito bem sucedido, em que o filme ganha muitos pontos por fugir do óbvio (alias neste sentido é impressionante compara-lo com alguns filmes desastrados da retomada). Ele se perde um pouco na segunda parte que se arrasta mais do que precisava, mas nada muito grave. Um filme irregular, mas cujos pontos fortes realmente impressionam.
Mas o grande filme brasileiro do ano segue sendo O Céu de Suely, segundo longa de Karim Ainouz. O cineasta parece bastante influenciado pelos irmãos Dardenne. É outro filme que impressiona pela sua noção de tempo e lugar, somado a uma grande entrega ao trabalho dos seus atores. Auxiliado pela excelente montagem e fotografia (a melhor de Walter Carvalho desde sua parceria anterior com Ainouz em Madame Satã), o cineasta confirma o gosto por seguir num caminho próprio, independente dos modismos do momento. O Céu de Suely opera num registro muito distante de Madame Satã, mas tem muitos dos mesmos méritos, não porque Ainouz esteja apostando no certo, mas porque ele é um dos poucos cineastas brasileiros com um senso apurado de mise-en-scène que se transfere muito bem de um registro ao outro. Um grande filme que merece ser tratado com mais espaço (há uma critica de Eduardo Valente na edição nova da revista).
Falando em olhar apurado, vale muito a pena tentar programar Sonhos de Peixe, um filme surpreendentemente bom que o russo Kirill Mikhanovsky rodou no Ceara. A primeira metade realiza um exercicio de aproximação com a pequena comunidade de pescadores muito bem sucedido, em que o filme ganha muitos pontos por fugir do óbvio (alias neste sentido é impressionante compara-lo com alguns filmes desastrados da retomada). Ele se perde um pouco na segunda parte que se arrasta mais do que precisava, mas nada muito grave. Um filme irregular, mas cujos pontos fortes realmente impressionam.
Mas o grande filme brasileiro do ano segue sendo O Céu de Suely, segundo longa de Karim Ainouz. O cineasta parece bastante influenciado pelos irmãos Dardenne. É outro filme que impressiona pela sua noção de tempo e lugar, somado a uma grande entrega ao trabalho dos seus atores. Auxiliado pela excelente montagem e fotografia (a melhor de Walter Carvalho desde sua parceria anterior com Ainouz em Madame Satã), o cineasta confirma o gosto por seguir num caminho próprio, independente dos modismos do momento. O Céu de Suely opera num registro muito distante de Madame Satã, mas tem muitos dos mesmos méritos, não porque Ainouz esteja apostando no certo, mas porque ele é um dos poucos cineastas brasileiros com um senso apurado de mise-en-scène que se transfere muito bem de um registro ao outro. Um grande filme que merece ser tratado com mais espaço (há uma critica de Eduardo Valente na edição nova da revista).