sexta-feira, outubro 06, 2006

Os três últimos filmes


Foi o último dia do Festival. Agora, só a repescagem, que perderemos, pois voltamos para São Paulo. O último dia foi marcado pela chegada de um calor absurdo, o que deixou as salas de cinema, com aquele ar condicionado sempre no talo, verdadeiros oásis.

Começando o dia vi o incrível filme de Nobuhiro Suwa, Um Casal Perfeito. Um trabalho quase inteiro na penumbra, com paredes e sombras insistindo em separar o casal. Todo o filme gira em torno de uma grande crise matrimonial, mas o casal só se mostrará perfeito se insistir em lutar contra a crise, como no belíssimo final do trem que parte. Parte para uma outra vida, que poderia ser vivida, sofrida, prazeirosa, mas que não teria a cumplicidade de quem se ama. Um grande filme, de estética rigorosíssima e uma interpretação corajosa e fenomenal de Valeria Bruni-Tedeschi. Amigos disseram que acharam-na uma chata de galochas. Eu só vi desespero e perseverança, como possíveis caminhos para se chegar a uma reconciliação. Pode até ser chato para o homem, um ser acostumado a lidar com as coisas de maneira mais simples e direta, mas era necessário para ela, mulher insegura (como provava sua postura nos momentos em que se mostrava semi-nua ao marido) e indecisa. Mulher. Jacques Doillon, um dos diretores franceses mais subestimados, faz uma ponta como um amigo que aparece numa reunião íntima entre alguns casais.

Depois foi a vez de A Terra Abandonada, filme de Vimukthi Jayasundara que tem momentos notáveis, principalmente por conta da maneira com que o diretor reenquadra os planos, deixando com que elementos inusitados à trama apareçam solenemente. São pessoas perdidas, num lugar remoto do Sri Lanka, tentando se ajustar em meio aos instintos sexuais - o filme é estranhamente sensual. Pesa contra um tom muito forte de filme para agradar platéias de festivais. Não chega a ser um neo-academicismo, mas sente-se um peso incômodo de "quero ser autor", antes que qualquer coisa relativa ao filme se adapte às imagens bonitas que são jogadas quase aleatóriamente de tão pretensamente poéticas. Talvez tenha um bom filme escondido debaixo do verniz.

Encerrando com The Host, de Bong Joon-ho, que todos já pintavam como um filmaço, e eu só fui conferir. É um filme irregular, mas com planos excepcionais. A seqüência da primeira aparição do monstro é das melhores do cinema oriental atual, e isso não é pouco. A queda em câmera lenta, e o detalhe da mão errada foram achados tragicômicos de imensa força visual. O filme cai um pouco no miolo, e tem um clímax que não está à altura das melhores seqüências, mas a tiração de sarro com o intervencionismo americano é lapidar. A presença do noticiário de TV lembra muito o artifício de crítica política brilhantemente usado em Robocop.

Cotações:

Um Casal Perfeito * * * *
A Terra Abandonada * *
The Host * * * *

amanhã mando uma relação com todos os filmes que vi no festival, como aperitivo para a crônica que aparecerá na semana que vem no site.





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