sábado, outubro 07, 2006
Itália, Irã, China
Três países de tradições de cinema bastante diferentes fecham meus comentários mais diretos sobre os filmes neste Festival. Tradições diferentes que não alteram o fato de que são três países que realmente representam o cinema hoje, locais sede das obras de alguns dos maiores cineastas vivos. Mas vou falar sobre algumas figuras que ainda cavam seu espaço, uns com mais notoriedade que outros.
Da Itália vem o novo filme de Emanuele Crialese, autor de Respiro, filme que arrebatou fãs tanto em sua passagem pelos festivais quanto em sua passagem de algum sucesso no circuito. Respiro era um filme mais seguro que este Mundo Novo, correndo menos riscos, mas ao mesmo tempo mais fechado em seu conceito de obra. O Mundo Novo é um filme complicado, que alterna alguns planos sensacionais (as pessoas sendo lentamente separados pelo mar) com uma mão pesada que raramente aparecia em Respiro, e um uso pra lá de equivocado da câmera lenta. A verdade é que mesmo as cenas mais fortes já carregam a mão pesada, apenas se aproveitando melhor dela. Trata-se de um filme estranho, irregular, que às vezes parece perto de se tornar algo notável e em outros momentos parece perto de se tornar insuportável. Mas confirma Crialese como um cineasta a ser seguido.
Surpreendente é o novo de Jafar Panahi, o Fora de Jogo. Não pela ausência de bons filmes no currículo, mas sim por se despreender um tanto mais da sombra de Abbas Kiarostami. É o primeiro filme 100% solo de Panahi em relação a Abbas, e isso fica claro em cena. O mestre segue sendo um espelho, mas ele parece finalmente pronto para trilhar um caminho mais pessoal. O filme é um achado de imediatismo, capturando um dia turbulento onde um grupo de meninas é barrado no estádio em que a seleção do Irã faria a partida decisiva que valeria a disputa da Copa do Mundo. O conteúdo político e as discussões em torno de certos tabus da cultura iraniana são trabalhados com extremo talento, uma afeição forte a todos os personagens em cena e um senso de humor curioso. Soma-se também diversos achados em algumas seqüências: os momentos em que um dos guardas narra a partida enquanto os personagens e nós apenas torcemos; alguns instantes de atuação que parecem verdadeiramente improvisados; a longa seqüência no banheiro do estádio; e principalmente o momento em que todas as amarras culturais se desprendem e a explosão de alegria das pessoas fica em primeiro plano. Demora um pouco a engrenar, enquanto não encontra sua locação chave (o local onde as meninas ficam presas), mas trata-se de um filme imperdível. O Ouro Carmin também era considerado comprado em 2003, então recomendo atenção mesmo com Fora de Jogo sendo exibido com legendas na cópia.
E fechando o ciclo, chegamos a China de Lou Ye. Como já havia dito em outra ocasião, o oriente não esteve numa fornada boa neste Festival, e Palácio de Verão não reverteu este triste panorama. Até é um filme de momentos, especialmente no seu primeiro ato, mas vira uma bobagem pra lá de cafona depois que o tempo passa, com direito a alguns dos tiques mais duros de engolir, vide a cena em que um personagem se suícida. Mas mesmo seu primeiro ato já não convence no todo, tendo força apenas em algumas poucas imagens (as festinhas). As cenas de sexo que deram o que falar em Cannes são mais um destes mitos midiáticos duros de engolir, mesmo que não sejam propriamente ruins. Não sou contra a narrativa a la novelão, mas com a completa falta de criatividade e cafonice reinando na encenação de tudo, fica duro entrar no jogo do filme.
Nos próximos dias um topzinho do Festival e uma crônica no site, pegando o Festival em geral.
Da Itália vem o novo filme de Emanuele Crialese, autor de Respiro, filme que arrebatou fãs tanto em sua passagem pelos festivais quanto em sua passagem de algum sucesso no circuito. Respiro era um filme mais seguro que este Mundo Novo, correndo menos riscos, mas ao mesmo tempo mais fechado em seu conceito de obra. O Mundo Novo é um filme complicado, que alterna alguns planos sensacionais (as pessoas sendo lentamente separados pelo mar) com uma mão pesada que raramente aparecia em Respiro, e um uso pra lá de equivocado da câmera lenta. A verdade é que mesmo as cenas mais fortes já carregam a mão pesada, apenas se aproveitando melhor dela. Trata-se de um filme estranho, irregular, que às vezes parece perto de se tornar algo notável e em outros momentos parece perto de se tornar insuportável. Mas confirma Crialese como um cineasta a ser seguido.
Surpreendente é o novo de Jafar Panahi, o Fora de Jogo. Não pela ausência de bons filmes no currículo, mas sim por se despreender um tanto mais da sombra de Abbas Kiarostami. É o primeiro filme 100% solo de Panahi em relação a Abbas, e isso fica claro em cena. O mestre segue sendo um espelho, mas ele parece finalmente pronto para trilhar um caminho mais pessoal. O filme é um achado de imediatismo, capturando um dia turbulento onde um grupo de meninas é barrado no estádio em que a seleção do Irã faria a partida decisiva que valeria a disputa da Copa do Mundo. O conteúdo político e as discussões em torno de certos tabus da cultura iraniana são trabalhados com extremo talento, uma afeição forte a todos os personagens em cena e um senso de humor curioso. Soma-se também diversos achados em algumas seqüências: os momentos em que um dos guardas narra a partida enquanto os personagens e nós apenas torcemos; alguns instantes de atuação que parecem verdadeiramente improvisados; a longa seqüência no banheiro do estádio; e principalmente o momento em que todas as amarras culturais se desprendem e a explosão de alegria das pessoas fica em primeiro plano. Demora um pouco a engrenar, enquanto não encontra sua locação chave (o local onde as meninas ficam presas), mas trata-se de um filme imperdível. O Ouro Carmin também era considerado comprado em 2003, então recomendo atenção mesmo com Fora de Jogo sendo exibido com legendas na cópia.
E fechando o ciclo, chegamos a China de Lou Ye. Como já havia dito em outra ocasião, o oriente não esteve numa fornada boa neste Festival, e Palácio de Verão não reverteu este triste panorama. Até é um filme de momentos, especialmente no seu primeiro ato, mas vira uma bobagem pra lá de cafona depois que o tempo passa, com direito a alguns dos tiques mais duros de engolir, vide a cena em que um personagem se suícida. Mas mesmo seu primeiro ato já não convence no todo, tendo força apenas em algumas poucas imagens (as festinhas). As cenas de sexo que deram o que falar em Cannes são mais um destes mitos midiáticos duros de engolir, mesmo que não sejam propriamente ruins. Não sou contra a narrativa a la novelão, mas com a completa falta de criatividade e cafonice reinando na encenação de tudo, fica duro entrar no jogo do filme.
Nos próximos dias um topzinho do Festival e uma crônica no site, pegando o Festival em geral.