terça-feira, abril 15, 2008

BAFICI, dias 5 e 6: Retratos


Para entender porque Lisandro Alonso é um grande cineasta, talvez vale a pena comparar seu novo filme Liverpool, que teve sua primeira exibição nesta noite no festival, com Charly de Isild Le Besco que também assiste hoje. Ambos são narrativas opacas sobre personagens sobre o qual pouco sabemos que se lançam numa jornada, ambos são filmes com momentos fortes onde o filme se restrige a observar seus personagens; mas Liverpool é um belissimo e Charly não se sustenta. Isto tem muita relação com a maneita como mistério entorno desses personagens funciona: para Alonso, o personagem simplesmente é aquilo que ele apresenta diante da camera, para Le Besco ele é esta opacidade que ela resolveu destacar. Trata-se de um boa formula para extrair algumas cenas fortes – Paul Thomas Anderson não cansa de abusar dela -, mas não sustenta um filme; já em Liverpool não temos cenas, mas cinema.

Alonso é um dos nossos grandes retratistas, sua arte consiste escolher um personagem e um universo e observa-lo. Poucos fazem isso tão bem. A primeira vista, uma discrição sugere um filme similar a Los Muertos, o que há de narrativa envolve um marinheiro que após anos no mar, faz uma viagem até a Patagonia para rever sua familia; só que o marinheiro esta muito distante do ex-presidiario do filme anterior e a patagonia não tem nada a ver com a região que aquele se passava e são estes dois elementos – personagem e lugar – que movem este cinema. Alonso é provavelmente o menos acessivel dos jovens cineastas argentinos de talento, na medida que sua arte depende muito da nossa curiosidade, da nossa disposição de dar um salto com ele junto da aventura – e não é exagero dizer que Alonso faz filmes de aventuira, no mais expressivo sentido do termo – de acompanhar este personagem que está ali sendo retratado junto a camera. Quando a camera de Liverpool para junto a seu marinheiro e o acompanha com toda atenção enquanto ele enche a cara, assiste um show de strip, pega carona na caçamba de um caminho ou se senta na cabeceira da cama da mãe doente, temos esta experiencia rara de ver um ser humano se materializando ali diante de nós, captado por um cineasta com a generosidade para dar vazão expressiva para toda a potencia daquela figura diante de nossos olhos. É um trabalho mais seguro e expansivo que os filmes anteriores dele, mas o olhar alerta e aputado segue o mesmo.

Acompanhando a retrospectiva de Nicolas Klotz esta sendo exibido o muito interessante Les Amants Cinema, dirigido por sua filha Helena Klotz. O filme segue Klotz e sua esposa e roteirista Elizabeth Perceval durante a produção de A Questão Humana, mas não se trata de um mero making of de DVD. Já começando com a sua sequencia inicial em que vemos o casal por minutos escutando uma longa canção num vinil percebemos que Helena Klotz tem um olhar bem especifico para obra do pai e que sabe articular um discurso a partir dela de maneira discreta a partir da simples observação, há muito insight contido no que a rigor consiste simplesmente de um homem ouvindo um de seus discos. O filme como um todo prosegue neste tom e o que há de melhor nele é justamente acompanharmos o processo criativo de Klotz com muito pouco do filtro habitual de filmes do gênero. Há também varias sequencias de longas discussões do casal (geralmente Elizabeth reclamando de algo e o cineasta partindo em defesa de sua decisão). Estamos longe de um Onde Jaz seu Sorriso? – a obra-prima de Pedro Costa sobre casal Straub/Huillet editando Gente da Sicilia – mas como retrato de um casal de artistas desenvolvendo o seu trabalho é um filme dos mais envolventes.

Falando em Costa, ele participa de Memories, filme produzido por um festival de cinema da Coreia do Sul, que também conta com episódios dirigidos por Harun Farocki e Eugene Green. Trata-se do único filme em episódios que me lembro de ter visto em que todos os curtas são pelo menos excelentes. A contribuição de Costa A Caça do Coelho esta bastante proximo d Terrafal, sua cointribuição para O Estado do Mundo, inclusive repartindo com aquele filme algumas cenas~, mas é um filme mais focado e rico que aquele curta (talvez consequencia de Costa ter mais tempo para desenvolver suas idéias). È uma expansão do lado fantasmagórico de Juventude em Marcha e mais um lembrete de que assim como Alonso, Pedro Costa é um grande cineasta de retrato. Respite, a contribuição de Farocki que abre o filme parte de material filmado por um cinegrafista judeu num campo de prisioneiros na Holanda durante a II Guerra a pedido do comandante alemão que queria produzir um institucional sobre a eficiencia do lugar. Farocki constroi o seu filme a partir da nossa consciencia do sentido histórico deste material e a distancia entre ele o que esta na tela e a maneira como via cartelas de contexto/comentário e montagem, ele extrai delas algo bem mais pesado do que a intenção original. Mas o grande filme de Memories é mesmo Correspondences de Eugene Green, uma espécie de Marienbad encontra literatura francesa do século XIX que encontra a Web. Green sempre será para muitos pouco mais que um cineasta excentrico, mas para quem tiver disposição de aceitar sua proposta raramente encontramos tão bela exposição de obsessão romântica. Num desses exemplos de como o BAFICI é um festival bem programado Memories foi exibido junto ao último curta do casal Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, Europa. 2005 – 27 octobre. São 5 planos identicos, mas rodados em horas distintas do dia, com a camera se movendo no local onde dois jovens pobre morreram eletrocutados fugindo da polícia. Como panfleto político é de uma precisão assustadora, é também tanto uma mudança radical de rumo (até por ser rodado em vídeo) e uma destilação das preocupações estéticas do casal. Uma bela despedida.





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