quarta-feira, abril 09, 2008
BAFICI, dia 1: Espaços Privados e Espaços Públicos
“Que tipo de festival é este de Buenos Aires?”, os amigos perguntaram quando eu ia passar duas semanas na Argentina vendo filmes “mas você já não preencheu sua cota de cinema internacional com o Rio e São Paulo ano passado?”, logo completavam. Bem, o que torna Buenos Aires um festival especial é justamente uma preocupação muito grande com a curadoria (que costuma ser exercida pelo Quintin, ex-editor da El Amante, e hoje é responsabilidade de Sergio Wolff) que garante que para além de todos os destaques das Mostras do Rio e SP (e praticamente tudo de relevante que passou por aqui esta na progamação), estão também programados por aqui Boarding Gate (Assayas), Tout es Perdonne (Mia Hansen Love), O Silêncio Antes de Bach (Pere Portabella), Sad Vacation (Shinji Ayoama), alem dos novos filmes de cineastas como Hong Sang-Soo e Jon Jost e retrospectivas de nomes como o casal Yervant Gianekian/Angela Ricci-Lucchi, Michael Powell/Emeric Pressburger e Nicolas Klotz. Outro lado muito simpatico que rapidamente salta aos olhos de quem mal começou a viver o festival é que apesar do tamanho (a organização se orgulhava no site de ter vendido mais de 40 mil entradas adiantadas), há algo de bastante acolhedor nele, seja pelo preço da entrada (6 pesos, menos da metade do habitual nos cinemas daqui), seja por detalhes como a contração de um critico inteligente (Javier Porta Fouz) para programar os filmes nas salas e evitar o caos de programação que pode se estabelecer neste tipo de evento.
Logo eu não tinha como não começar o festival me contradizendo e dando razão as duvidas dos amigos ao rever um filme: no caso, Cristovão Colombo – O Enigma, de Manoel de Oliveira. É sempre bom rever Oliveira, mesmo num filme visivelmente menor como este. Numa revisita, o que mais marca Cristovão Colombo é a capacidade do cineasta de deixar a História reverberar por cada uma das locações, quase invariavelmente espaços públicos cujo significado é sempre bem maior do que a sua mera existência. A própria presença do cineasta e sua esposa como o casal de protagonistas na última parte do filme, complica e amplifica esta sensação.
Um cineasta com quem o cinema de Oliveira pode dialogar facilmente, mas que ainda precisa urgentemente ser descoberto é Heinz Emigholz, de quem eu vi apenas os dois últimos trabalhos, mas que vem trabalhando na obscuridade desde os anos 70. A série Architecture, Photography & Beyond, que ele vem desenvolvendo esta entre os experimentos mais interessantes do cinema contemporâneo e tem seu o 13º. Exemplar, Loos Ornamental, sendo exibido aqui. Acompanhamos Emigholz enquanto ele registra 27 construções do arquiteto Adolph Loos, um dos pioneiros da arquitetura moderna européia. O filme é de um minimalismo falsamente simples, uma série de planos estáticos de cada construção acompanhados somente de som natural, mas há por trás dele todo um delicado cuidado na construção e encadeamento de cenas (seja na duração do plano, seja pelas escolhas de enquadramento). É fascinante a maneira como Emigholz vai aos poucos construindo uma narrativa, como o filme nos pega de surpresa, por exemplo, na fascinante sequencia onde do nada a camera revela uma lápide que por sua vez abre espaço para todo um pequeno cemitério ou como após abrirmos o filme acompanhando duas construções públicas, somos arremessados para dentro de uma casa. Emigholz vai ao poucos erguendo considerações sobre o significado politica da recusa de ornamentos por parte de Loos, das relações entre espaços públicos e privados e como o arquiteto negociava-as e a maneira como o tempo marca cada construção. Tudo isso apenas através de suas imagens, alguns com certeza acusaram o filme de ser pouco mais que um slide-show, mas isto seria ignorar o cuidadoso trabalho com o som ou a força de uma imagem tão simples como os cabos de energia balançando com o vento.
Outro cineasta radicalmente oposto a Emigholz é Charles Burnett, cujo segundo longa, My Brother’s Wedding (83) está sendo exibido numa versão restaurada do corte do diretor (curiosamente meia hora mais curto do que aquele que costumava circular ocasionalmente por festivais). Burnett é um grande antropologo da imagem, com um olhar apuradissimo para os menores detalhes do comportamento humano e uma habilidade impressionante de captar os movimentos dentro de uma pequena comunidade. My Brother’s Wedding é uma pequena tragicomédia sobre um negro de 30 anos semi-desempregado, irritado com o casamento iminente do irmão com uma garota rica, enquanto ele segue uma série de pequenas e grandes responsabilidades. Da sequencia inicial, sem nenuma conexão narrativa com o resto do filme, quando vemos um velho negro cantando Amazing Grace sabemos que estamos diante de um filme especial. De uma generosidade impressionante no seu retrato do cotidiano de seus personagens, de mudanças radicais de tom seja ele a comédia rasgada dos duelos entre o protagonista e seu pai, seja o drama de ter que informar por telefone a um parente sobre um falecimento na família, seja o retrato agridoce das adolescentes a flertar com homens mais velhos a ideia recorrente de que violência pode estar prestes a explodir a qualquer momento. Mas é sobretudo um filme de rostos, de uma concentração incrivel no humano e tudo que ele significa. Burnett talvez seja o cineasta americano mais injustiçado da sua geração, e My Brother’s Wedding - assim como pelo menos seu primeiro longa, Killer of Sheep (77) e o terceiro Não Durma Nervoso (90) – está entre as melhores coisas já filmadas por lá, um verdadeiro caminho alternativo para olharmos o cinema americano.
Logo eu não tinha como não começar o festival me contradizendo e dando razão as duvidas dos amigos ao rever um filme: no caso, Cristovão Colombo – O Enigma, de Manoel de Oliveira. É sempre bom rever Oliveira, mesmo num filme visivelmente menor como este. Numa revisita, o que mais marca Cristovão Colombo é a capacidade do cineasta de deixar a História reverberar por cada uma das locações, quase invariavelmente espaços públicos cujo significado é sempre bem maior do que a sua mera existência. A própria presença do cineasta e sua esposa como o casal de protagonistas na última parte do filme, complica e amplifica esta sensação.
Um cineasta com quem o cinema de Oliveira pode dialogar facilmente, mas que ainda precisa urgentemente ser descoberto é Heinz Emigholz, de quem eu vi apenas os dois últimos trabalhos, mas que vem trabalhando na obscuridade desde os anos 70. A série Architecture, Photography & Beyond, que ele vem desenvolvendo esta entre os experimentos mais interessantes do cinema contemporâneo e tem seu o 13º. Exemplar, Loos Ornamental, sendo exibido aqui. Acompanhamos Emigholz enquanto ele registra 27 construções do arquiteto Adolph Loos, um dos pioneiros da arquitetura moderna européia. O filme é de um minimalismo falsamente simples, uma série de planos estáticos de cada construção acompanhados somente de som natural, mas há por trás dele todo um delicado cuidado na construção e encadeamento de cenas (seja na duração do plano, seja pelas escolhas de enquadramento). É fascinante a maneira como Emigholz vai aos poucos construindo uma narrativa, como o filme nos pega de surpresa, por exemplo, na fascinante sequencia onde do nada a camera revela uma lápide que por sua vez abre espaço para todo um pequeno cemitério ou como após abrirmos o filme acompanhando duas construções públicas, somos arremessados para dentro de uma casa. Emigholz vai ao poucos erguendo considerações sobre o significado politica da recusa de ornamentos por parte de Loos, das relações entre espaços públicos e privados e como o arquiteto negociava-as e a maneira como o tempo marca cada construção. Tudo isso apenas através de suas imagens, alguns com certeza acusaram o filme de ser pouco mais que um slide-show, mas isto seria ignorar o cuidadoso trabalho com o som ou a força de uma imagem tão simples como os cabos de energia balançando com o vento.
Outro cineasta radicalmente oposto a Emigholz é Charles Burnett, cujo segundo longa, My Brother’s Wedding (83) está sendo exibido numa versão restaurada do corte do diretor (curiosamente meia hora mais curto do que aquele que costumava circular ocasionalmente por festivais). Burnett é um grande antropologo da imagem, com um olhar apuradissimo para os menores detalhes do comportamento humano e uma habilidade impressionante de captar os movimentos dentro de uma pequena comunidade. My Brother’s Wedding é uma pequena tragicomédia sobre um negro de 30 anos semi-desempregado, irritado com o casamento iminente do irmão com uma garota rica, enquanto ele segue uma série de pequenas e grandes responsabilidades. Da sequencia inicial, sem nenuma conexão narrativa com o resto do filme, quando vemos um velho negro cantando Amazing Grace sabemos que estamos diante de um filme especial. De uma generosidade impressionante no seu retrato do cotidiano de seus personagens, de mudanças radicais de tom seja ele a comédia rasgada dos duelos entre o protagonista e seu pai, seja o drama de ter que informar por telefone a um parente sobre um falecimento na família, seja o retrato agridoce das adolescentes a flertar com homens mais velhos a ideia recorrente de que violência pode estar prestes a explodir a qualquer momento. Mas é sobretudo um filme de rostos, de uma concentração incrivel no humano e tudo que ele significa. Burnett talvez seja o cineasta americano mais injustiçado da sua geração, e My Brother’s Wedding - assim como pelo menos seu primeiro longa, Killer of Sheep (77) e o terceiro Não Durma Nervoso (90) – está entre as melhores coisas já filmadas por lá, um verdadeiro caminho alternativo para olharmos o cinema americano.