quinta-feira, janeiro 24, 2008
O Grão
O belíssimo filme de Petrus Cariry conta com uma fotografia notável de Ivo Lopes Araújo, e é uma bela história de perda e separação. Uma avó que se vai, uma filha que se casa, um cachorrinho que encanta, uma tradição que se mantém com o homenzinho da família. Cariry pensa o plano em composições verticais, como Pedro Costa, e homenageia Limite em vários planos, notadamente os que mostram o cercado que lembra um barco à deriva. Um filme de belas imagens, mas que escapa do perigo da estetização excessiva, que poderia sufocar a narrativa. Em alguns momentos ele parece abandonar seu projeto estético, fazendo ruídos com a decupagem de algumas cenas. O exemplo máximo é quando a avó conta a história para o menino, e de um plano estático corta para um plano médio que enquadra apenas a avó. Esse ruído às vezes ameaça ir contra o filme, sua estética, seu andamento respeitoso ao tempo do lugar. Mas em uma dessas decupagens temos um momento genial. Num plano geral o menino com o brinquedo. Muda o eixo, e em segundo plano, atrás do menino que ainda segura o brinquedo, vemos desfocada a jovem experimentando um vestido de noiva. Corta para ela, de um novo eixo, de costas para a câmera, mas com o rosto refletido no pequeno espelho da parede. O sobreenquadramento, uma constante de O Grão - que remete também a Max Ophuls e Fassbinder - está nesse plano soberbo, que sugere mais uma despedida, mais uma tristeza para a mãe que, marginalizada pelo enquadramento e pelas opções da vida, só pode ancorar-se em paredes descascadas, e vislumbrar um horizonte que em nada lhe é favorável.